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20 de outubro de 2021
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Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – A exposição “Vilhena Atravessando Fronteiras” faz jus ao nome que recebeu, trazendo para uma única galeria obras de oito artistas plásticos de Rondônia, que residem em Vilhena, cidade a 705 quilômetros da capital Porto Velho. Eles conquistaram prêmios e reconhecimento em cerca de 170 países, entre eles a Itália e a Eslováquia, na Europa, com exposições anteriores dos mesmos trabalhos, tanto de forma física quanto virtual.

De livre acesso ao público, a mostra de arte pode ser apreciada até a próxima sexta-feira, 21, sempre das 9h às 13h, na sede da Fundação Cultural da cidade, contando agora com 38 trabalhos. O público deve obedecer ao distanciamento social, usar máscara de proteção e higienizar as mãos com o álcool em gel cedido logo na entrada.

O evento traz obras de Anita Pietchaki, Camila Schneider, Solange Lima, Luciane Feitosa, Maria das Graças Lemos, Maria Aparecida Müller, Marcos D’Sousa e, de Grácia Benelli, que além de expor 4 telas de sua autoria, também é a curadora do projeto. Cada artista ganha um QR Code, que fica abaixo de um dos trabalhos. Ao apontar a câmera do celular, o visitante é redirecionado para a página de biografia e portfólio do autor da obra. 

Exposição “Vilhena Atravessando Fronteiras” muda um pouco do tabu criado contra artistas regionais. (Iury Lima/ Revista Cenarium)


“Os nossos trabalhos são muito procurados, muito apreciados por causa da nossa flora, da nossa fauna e pela leveza que o artista de Rondônia, de Vilhena, principalmente, tem ao pintar o tema da natureza. Um tema acadêmico”,  explica a curadora, Grácia Benelli, à REVISTA CENARIUM. Ela trabalha com o ramo da curadoria há 15 anos e levou o nome de muita gente para fora do Brasil, e diz que fazer o que faz é uma maravilha”. “É a coisa em que eu me encontrei. Me encontrei em trabalhar com as pessoas, viajar, expor, montar e desmontar galerias. É daquele jeito: monta, desmonta. Embala, desembala e divulga… isso é muito importante para mim. Gosto muito!”, afirma ela, com alegria. 

O poder da arte

Maria Lemos, hoje, aos 54 anos, descobriu a pintura aos 47. Ela sofreu de depressão depois que se divorciou e decidiu sair da zona rural para viver na cidade, sozinha. Maria começou a participar das sessões de “arte terapia” no Centro de Referência da Assistência Social (Cras), onde se libertou das frustrações e desenvolveu um traço invejável. “Conheci em 2013, mas só dei mesmo as primeiras pinceladas em 2014. Mas eu já tinha aquela vontade de aprender. Muita coisa mudou. Me recuperei por meio da pintura, porque isso te traz uma força interior muito grande, justamente por causa do desafio, isso te faz esquecer de certos problemas e ocupar a cabeça”.

A pintura curou a depressão de Maria lemos, de 54 anos. (Iury Lima/Revista Cenarium)

Obras de Maria Lemos estamparam diversas galerias físicas e virtuais pelo mundo. Tantas, que ela já nem conta com precisão. Mas lembra de uma ocasião que a deixou muito feliz: “foi um prazer muito grande receber dois diplomas assinados pela Baronesa da Noruega (Jiselda Salbu). É um reconhecimento muito grande, parece que lá fora as pessoas têm mais apreço”, conta.

Com seis pinturas expostas, Camila Schneider encanta com as cores vibrantes e a delicadeza que usa para retratar diversas imagens que vão da natureza ao cotidiano. Ela também recebeu as primeiras aulas no Cras e hoje tem sua própria turma de oito alunos. Casada e mãe de um menino de oito anos, “para lá de criativo”, como a própria diz, sente-se realizada em mostrar para a cidade onde nasceu que seu talento chama a atenção, também, de milhares de pessoas mundo afora. “Eu me sinto realizada quando termino uma obra e ela fica do jeito que eu imaginei. Sempre, desde criança, me envolvi muito com desenho e com pintura. Com 16 anos, comecei a trabalhar em uma loja de decoração de festa e foi onde comecei a ampliar desenhos e trabalhei bastante tempo com pintura acrílica, até chegar à tinta a óleo”.

“Gaiola de Flores”, obra de Camila Schneider, finalizada em 2017. A preferida de sua autoria exposta na galeria. (Iury Lima/Revista Cenarium)

Esculturas

Nem só de óleo sobre tela se faz a “Vilhena Atravessando Fronteiras”. O artista plástico marcos D’Sousa carimbou o evento com suas esculturas feitas com metais e outros materiais reciclados. Um show visual e de preservação do meio ambiente. D’Sousa tem experiência de 40 anos na prática, aplicando técnicas de joalheria. O artista já foi premiado na Colômbia e na Venezuela. Suas esculturas chamam a atenção de uma forma muito singular: encantam e intrigam ao mesmo tempo.

Para a curadora, é a partir de eventos como esse que se quebra o tabu em relação aos trabalhos de artistas regionais, quanto só se dá prestígio a celebridades superconhecidas e se ignora o talento conterrâneo. “Isso é para valorizar o artista local. Muitas vezes, as pessoas compram uma foto de uma tela, uma gravura. E essa gravura não tem todo esse feedback que essa tela do artista teve: Já expôs fora, passou por diversas galerias, né?! Já tem certificado… E outra coisa: uma gravura, uma imagem (reprodução) de uma tela é uma coisa morta. Em uma tela, onde o artista trabalhou, existe a interação de todo o sentimento, de todo o trabalho dele. Tudo isso conta. Uma tela é uma alma viva”, explica Grácia.

“É difícil. Eu e algumas amigas já sentimos isso. As pessoas não têm conhecimento do quanto custa o material e reclamam do preço das pinturas quando perguntam. Isso, às vezes, desanima. Mas quando é o que você gosta de fazer, você só continua fazendo, independentemente das pessoas gostarem ou não”, conta Maria Lemos. 

Inspiração

Adotando todas as medidas de proteção contra o coronavírus, o professor Reinaldo Wilson levou seus alunos do 4º ano do ensino fundamental, de uma escola rural, para ver pela primeira vez uma exposição de arte. Ao presenciar as crianças curiosas e superanimadas, percebeu que a ideia funcionou: aliar o passeio ao projeto desenvolvido com os pequenos em sala de aula. “Essa visita mostra para eles que para cada obra há um olhar. Cada aluno terá uma leitura diferente disso. E eu os trouxe justamente porque fiz um projeto chamado ‘Natureza Morta’, onde eles fotografaram a natureza que não tinha mais vida, mostrando a eles o meio ambiente que é destruído, a geografia que é o local, a filosofia… com a visão de cada um deles a respeito disso tudo. Para que eles entendam que no mundo há diversidades, que eles se depararão com elas, mas precisam respeitar.  Porque o meu olhar é diferente do outro. Eu posso não aceitar, mas tenho que compreender”, explicou o professor. 

Exposição vai ajudar o desenvolvimento do projeto sobre natureza morta, da turma do 4º ano da escola rural Clemente Humberto Selhorst. (Iury Lima/Reprodução)

Reinaldo contou que o projeto sobre a natureza morta tem dado certo, e que o resultado culminará em uma exposição dos trabalhos autorais dos estudantes, na sede da Secretaria Municipal de Educação. “Eu tenho alunos que pintam bacana, fazem desenhos maravilhosos. Então, já estou incentivando a eles a arte. E eu sempre falo a eles: a alma do artista é grande e não cabe dentro do corpo.”, enfatizou, animado.

Galerias como vão continuar inspirando em Vilhena. E os mesmos artistas participantes desta já se preparam para um novo desafio. “No final de maio, nós temos o tributo ao continente africano”, adianta a curadora, Grácia Benelli, sobre o próximo projeto que deve reunir novas telas, nascidas exclusivamente para o espetáculo.