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6 de maio de 2021

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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – Uma pesquisa realizada pelo “Projeto Dove pela Autoestima” revelou que uma média de 84% de meninas adolescentes brasileiras, a partir dos 13 anos, já usaram algum filtro ou aplicativo de edição de fotos para mudar a autoimagem. A análise levou em conta a resposta de mais de 1.500 mulheres entre 10 e 55 anos no Brasil, Estados Unidos e Inglaterra.

Além da grande percentagem de meninas que recorrem ao filtro como ferramenta para “melhorar” a própria imagem, o estudo mostrou também que 78% delas já tentaram disfarçar, mudar ou ocultar alguma parte indesejada do corpo antes de postar uma foto nas redes. A pesquisa foi realizada em dezembro de 2020.

Para a psicóloga Leayane Góes, essas ferramentas, que aparentemente servem tão somente para a diversão, entretenimento e geração de conteúdo, podem ser um gatilho para disfunções da autoimagem, se não forem usadas corretamente.

“É necessário observar para entender o que passa da linha limite do saudável. Deixando claro que nem todos sofrem com esse distúrbio e é necessário uma avaliação com um psicólogo para remissão de sintomas”, pontua.

Disfunção e autoestima

Ainda segundo o estudo, cerca de 35% das adolescentes e jovens brasileiras sentem a beleza inferior, quando se deparam com alguma foto, vídeo ou postagem do tipo de influenciadores e artistas nas redes sociais.

“Com a rede social ‘Instagram’, onde influencers aparecem cada vez mais diferentes, mostrando processos evasivos e perigosos, além de colocar a vida em risco, cada vez mais as pessoas buscam por um alto padrão de beleza estética, o que gera muita ansiedade e sofrimento psíquico em torno disso”, explica a psicóloga.

Ela explica que a disfunção da autoimagem é um distúrbio chamado de Transtorno Dismórfico Corporal (TCD), caracterizado pela percepção alterada de si mesmo diante do espelho, acarretando muito mais pontos prejudiciais do que saudáveis ainda, principalmente na era digital, onde fotos naturais, corpos perfeitos e rostos impecáveis viraram a sensação do momento.

84% das adolescentes brasileiras, a partir dos 13 anos, já usaram aplicativo de edição para mudar a autoimagem(Reprodução/Kah Nogueira)

Mas como evitar que as jovens possam se tornar reféns destes recursos?

Na avaliação do psicólogo Afonso Brasil, a resposta está a partir do viés da preocupação com a saúde mental. Ele explica que a forma que o indivíduo se vê nem sempre é a forma de quem realmente ele é, mas sim de como foram construídas de quem ele é ao longo da vida. Logo, a terapia é uma das principais portas para lhe dar com todas essas questões.

“Em dado momento alguém me chamou de feio, isso de alguma forma pode ter ficado. Se eu não tratei bem, não elaborei bem, isso continua reproduzindo em mim uma crença irreal de quem eu sou de verdade. A solução não seria uma fuga do filtros, pois ele é só uma ferramenta e quem vai usá-lo é quem vai determinar se ele é bom ou ruim e a terapia seria fundamental para tudo isso. Autocuidado, autoconhecimento e autoestima”, explica.

Influencers

Para quem é produtor de conteúdo e vive a realidade diária da internet, o filtro é praticamente indispensável. É o caso da blogueira manauara Karyme Dibo. Com a maioria dos conteúdos produzidos e postados para o ramo da beleza, a jovem conta que o filtro é fundamental na rotina.

“Sempre uso o filtro e gosto bastante. Às vezes, estou desarrumada, sem vontade de me maquiar e os filtros quebram um galho”, conta a jovem influenciadora que usa as redes sociais como fonte de trabalho desde os 21 anos. Ela acredita que o uso de filtros que fogem muito da realidade, contribuem para o desvio da autoaceitação a longo prazo. Porém, a influenciadora aposta nos filtros mais simples e “fiéis” com a realidade.

“Se for um filtro mais leve que só dê um up na pele, não vejo problema, muito pelo contrário, facilita. Acredito que isso alterne de acordo com a faixa etária, sabe? As meninas mais novas geralmente procuram por filtros que as deixem mais mulher ou com mais aparência de make. Com o tempo, a gente só quer algo levinho que deixe nossa aparência saudável e apresentável”, pondera Karyme.

Os filtros são uma das principais ferramentas usadas durante a interação dos internautas nas redes socais (Reprodução/Internet)

‘A cobrança que gero em mim, quando estou sem filtro

Para a também influenciadora digital Maylin Menezes, o recurso de beleza virtual está inserido no dia a dia. Ela revela que não se sente confortável em aparecer nas publicações de vídeo dos aplicativos de relacionamento sociais e até mesmo nas fotos sem o auxílio do filtro. “Ele ajuda muito, principalmente quando estamos sem maquiagem. A verdade é que a gente acaba se sentindo feia sem o filtro, infelizmente”, lamenta a blogueira.

“As pessoas acabam se acostumando com aquilo que elas veem na redes e quando você surge de alguma maneira, gera aquele impacto. A gente sempre recebe comentários do tipo ‘você tá bem?’, ‘tá doente?’, ‘aconteceu alguma coisa?’ É interessante e preocupante como o natural é visto nas redes sociais.”

Apesar do “vício”, Maylin ressalta que tem trabalhado para não mais ficar tão dependente do recurso. “Eu tenho evitado usar filtro em alguns momentos justamente pela cobrança excessiva que gero em mim por não estar maquiada e sem o recurso do filtro. Por várias vezes já me peguei deixando de gravar por causa disso, sendo que essa sou ao meu natural e não de ser a Maylin por conta disso. É aí que a gente percebe a ilusão que o uso em excesso gera”, ressalta.

Autoestima e representatividade

Os constantes cuidados com a autoestima e a presença da representatividade, são pontos positivos que podem evitar que garotas tão jovens caiam na armadilha da facilidade da “beleza distorcida”.

A pesquisa também trouxe à tona o número de 70% das entrevistadas que revelam a vontade de serem representadas por mulheres reais, colocando de fato em prática a representatividade no mundo digital.

Para elas, figuras com beleza e aparência “reais”, são fundamentais na construção de uma autoestima mais elevada e, consequentemente, tornando as jovens de hoje em mulheres mais seguras e empoderadas futuramente. Sem a necessidade excessiva de se esconder atrás de uma aparência que não condiz com a realidade.