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17 de novembro de 2021
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Paula Litaiff, Bruno Pacheco e Gabriel Abreu – Da Revista Cenarium

MANAUS – Com a quarta maior taxa de morte do Brasil, a cidade de Manaus adota, desde janeiro deste ano, o viés político – irresponsável e criminoso – no tratamento da Covid-19 nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e, agora, importa saber a quem interessa o negacionismo científico e o risco de morte a pacientes.

Sabidamente sem comprovação médica até o momento para o tratamento do novo coronavírus, transmissor da Covid-19, a Ivermectina é a “menina dos olhos” do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), para combater a doença. Ele vem autorizando a compra, sem licitação, para as UBSs, do remédio, cuja bula indica o tratamento de vermes, piolhos e similares.

Compra de Ivermectina para “tratar” Covid-19 (Diário Oficial do Município)

Quando assumiu o cargo, em janeiro deste ano, o prefeito de Manaus fechou um acordo – sem consultar a população – com o secretariado do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para implantar o tratamento precoce contra a Covid-19 nas UBSs, fazendo de Manaus uma “cobaia” para o Brasil e para o mundo.

A informação sobre o “procedimento médico piloto” em Manaus foi confirmada pelo ex-secretário de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado no dia 15 deste mês.

De acordo com Marcellus, o processo de tratamento precoce em Manaus foi coordenado pela secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como “Capitã Cloroquina”. Na Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid, Mayra se eximiu de qualquer culpa pelas mortes em Manaus, causadas pela doença.

“Ela (Mayra Pinheiro) tinha uma opinião da questão do tratamento precoce, falava dos medicamentos para esse tratamento, inclusive dizendo que havia 150 teses a respeito desse tema. Na verdade, ela recomendou que adotasse essa sistemática, que ainda iria trabalhar, principalmente, na atenção primária. Isso era para o primeiro contato com o paciente, no caso, no interior, nos municípios”, detalhou Marcellus Campêlo.

Indicação da bula da Ivermectina

Após o consenso com o governo de Jair Bolsonaro em janeiro, David Almeida passou a orientar, por meio da imprensa, os médicos das UBSs de Manaus a aplicarem o que foi batizado de “Kit Covid” para os pacientes com a doença do novo coronavírus. O kit inclui, além da Ivermectina, a Cloroquina que, também, não possui qualquer estudo comprovado relacionado à doença.

Efeito reverso e mortes

Com base em dados da Fundação de Vigilância Sanitária do Amazonas (FVS/AM), o protocolo de “tratamento precoce” da Covid-19 com a inserção do “kit Covivd” de David Almeida e a negligência no isolamento social defendida pelos negacionistas geraram efeito reverso em Manaus.

Em janeiro e fevereiro deste ano, a cidade sofreu uma das maiores crises sanitárias de sua história, causada pela doença. Com mais de 7 mil infectados, nos dois primeiros meses de 2021, e 30% em estado de internação, a pandemia superlotou hospitais e 4.430 pessoas morreram.

O número de óbitos representa cerca de 1 mil a mais que o mesmo período do primeiro pico do vírus em 2020 (1o de janeiro a 2 de março). Câmeras frigoríficas foram implantadas em frente a hospitais para armazenar e recolher corpos.

Câmaras frigoríficas em hospitais de Manaus em janeiro (Reuters)

O epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jesem Orellana, comenta as práticas de David Almeida na gestão da pandemia em Manaus e destaca a omissão científica do gestor.

“A aquisição de Invermectina para o tratamento da Covid-19 é um absurdo sanitário que confirma a promessa do prefeito David Almeida, militante do negacionismo científico, do fim de dezembro de 2020 (antes de tomar posse), de distribuir medicamentos para, inveridicamente, enfrentar a Covid-19 em Manaus”, disse o especialista.

Para Orellana, é preciso apurar as responsabilidades. “Todo esse cenário surreal só mostra como a irresponsável gestão da epidemia em Manaus e no Amazonas se respalda na mais cristalina certeza de impunidade, mesmo em tempos de CPI da Covid”, completa.

‘Lobby’ pela Cloroquina

O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, afirmou, em depoimento à CPI da Covid, que houve sugestão para que a bula do remédio fosse alterada para contemplar indicação contra a doença, em uma reunião no Palácio do Planalto.

No depoimento, Barra Torres reiterou ser contra o uso de Cloroquina para o tratamento da Covid-19 e confirmou a versão apresentada pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta de que houve uma sugestão para alteração da bula da Cloroquina para indicá-la ao combate à Covid-19. 

Antonio Barra Torres confirma o lobby sobre Cloroquina (Senado)

Questionado sobre o uso da Cloroquina para o tratamento da Covid-19, Barra Torres informou que existe no Brasil um estudo em aberto sobre uso da substância, com previsão de término, apenas, em 31 de dezembro.

“Até o presente momento, no mundo todo, os estudos apontam a não eficácia comprovada em estudos ortodoxamente regulados, ou seja, placebos controlados, duplo-cego e randomizados. Então, até o momento, as informações vão contra a possibilidade do uso na Covid-19”, observou o presidente da Anvisa.

Direcionamento de compras

A denúncia sobre o direcionamento de compras de vacina no Governo Bolsonaro liga o alerta sobre interesses econômicos e políticos ocultos na gestão da pandemia, envolvendo o presidente, secretários e aliados.

Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, disse ter sofrido pressão incomum de seus superiores no ministério, inclusive nos fins de semana, para finalizar os trâmites de compra da Covaxin, vacina da farmacêutica indiana Bharat Biotech.

Luis Ricardo Miranda em depoimento à CPI da Covid (Senado)

O depoimento veio a público por meio de veículos de imprensa. Ele disse ainda que, à época, a Covaxin não havia apresentado o Certificado de Boas Práticas, documento necessário para o procedimento de compra. A compra de vacinas da Covaxin chegou a ser anunciada pelo governo federal em fevereiro, mas o negócio segue em aberto.  

A Covaxim é da Índia. O País indiano, também, adota o tratamento precoce com a inserção da Ivermectina a pacientes com Covid-19, sem qualquer mudança no quadro dos infectados.

A corrupção e a vontade de Deus

No mesmo período em que o Governo Bolsonaro negociava com a empresa indiana a compra de vacinas, os funcionários do alto escalão do Palácio do Planalto negavam vacinas oferecidas por outras empresas com registro científico e até mais baratas.

A Folha de S. Paulo publicou reportagem no dia 07, deste mês, com base em e-mails trocados entre representantes da gigante da indústria farmacêutica, a Pfizer, e o Governo Bolsonaro, que atestam que o mandatário recusou vacinas no ano passado pela metade do preço pago por Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia.

Documentos divulgados pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI da Covid, mostram que a gestão Jair Bolsonaro deixou de responder 53 e-mails da farmacêutica Pfizer enviados para pedir um posicionamento sobre a compra de vacinas.

Nas redes sociais, Bolsonaro nega corrupção em seu governo (Facebook)

Em live semanal, o presidente se pronunciou a respeito das suspeitas sobre o seu governo. “Se tiver roubalheira no governo, em um ministério qualquer, pode haver. Se tiver, a gente vai tomar as providências. Mas, se Deus quiser, não vai ter”, disse Bolsonaro, que, assim como o prefeito de Manaus, é evangélico.