5 de dezembro de 2020

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Gosto dessa afirmação. Ela sintetiza, numa abrangência enorme, o papel indispensável que o ato de ler exerce na prática da boa escrita. Afinal, é decorrente do hábito da leitura que apreendemos e incorporamos as estruturas possíveis e até inimagináveis de administração das ideias em um texto. Quando esse processo se dá de forma consciente, fruto da leitura crítica e mais atenta, melhor ainda, pois o trajeto se torna mais curto. É a leitura que nos oportuniza a descoberta de que as palavras, em si e por si, representam apenas a mesmice, se não forem trabalhadas com habilidade para tocar a sensibilidade do leitor e gerar seu encantamento. É a leitura, também, a fonte de informações que não apenas nos abastece dos acontecimentos factuais, como também nos permite descobrir que a realidade pode ser mais criticamente compreendida pelo olhar sensível da criação literária. Sem prejuízo de outras tantas possibilidades, é na leitura que somos postos diante da evidência de que os arranjos nas palavras, frases e parágrafos na superfície do que está escrito são, muitas vezes, apenas a ponta de um iceberg que esconde uma vasta proliferação de sentidos. Por fim, como diz Ítalo Moriconi no posfácio ao livro de Francine Prose (Para ler como um escritor), “a leitura é a oficina básica do escrever. Atividade produtiva, aquisição de capital”.

Prestemos, entretanto, atenção em um detalhe posto por Moriconi: “a leitura é a oficina básica(grifo meu) do escrever”, o que significa a compreensão de que o básico é o fundamental, é apenas o começo necessário, mas não opera milagres! Isso porque, como digo em meu livro “A engenharia do texto”, ao lado da leitura alimentar a escrita, cada uma também mobiliza mecanismos e exigências cognitivas específicas. Assim, aquele que se entrega ao hábito da leitura desenvolverá, a princípio, habilidades que irão torná-lo um bom leitor, com todas as implicações que essa prática agrega. Já aquele que faz da escrita um hábito permanente, por sua vez, desenvolverá habilidades que irão torná-lo um bom escritor, com todas as implicações que essa prática agrega. Enfim, a leitura é a oficina básica de desenvolvimento do talento para a escrita, mas esse talento só se efetivará se for aprimorado no exercício constante da escrita. Deu para entender?

O ideal mesmo é promover a simbiose entre as duas práticas, de tal modo a colocar as habilidades próprias da leitura a serviço das habilidades próprias da escrita e de tal modo que a primeira alimente a segunda e a segunda alimente a primeira, numa reciprocidade permanente.

Mas há um preço a ser pago por isso: quem se dispuser a colher os louros dessa vitória terá que se entregar à servidão voluntária permanente da leitura e da escrita, ciente de que fraquejar em uma significará fraquejar em outra. É pegar ou largar.

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