26 de outubro de 2020

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Carolina Givoni – Da Revista Cenarium

MANAUS – Em meio ao lixo acumulado pelas águas em virtude da falta de consciência da população, uma comunidade localizada na Zona Sul da capital amazonense tem sobrevivido ao período de cheias e vazantes do rio Negro em palafitas, tradicionais moradias amazônicas estruturadas acima da água. Na região, além da ausência do saneamento básico e água encanada, os cidadãos fazem o que podem para se manter, seja por meio da criação de animais para alimentação ou trabalho informal.

Reginaldo Vieira Coelho, vendedor de CDs e DVDs, de 42 anos, é morador do bairro Educandos, e conta detalhes sobre a mudança da paisagem ao longo dos anos. “Nessa vala não tinha nada antes. Muitas pessoas chegaram a se apossaram da ‘beira do rio’. Antes tinha uma oficina e outras coisas que foram aos poucos se acabando”, explica.

Reginaldo Vieira Coelho mostra a mudança da paisagem ao longo dos anos. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)
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Ele ainda comenta sobre a estrutura da casa onde vive há 30 anos, uma das poucas que possui acesso à rede de esgoto. “Minha casa tem água encanada, graças a Deus. A descarga também funciona tudo direitinho, as ‘coisas’ vão direto para o esgoto. Nunca adoeci por consumir água daqui”, explica.

O vendedor, que mora sozinho na propriedade, utiliza o espaço para armazenar os materiais que comercializa no centro da cidade. “Tenho filhos, mas não moram comigo. Tenho uma convivência boa com os vizinhos, todo mundo se conhece. Mas quero me mudar para um ponto comercial, para viver melhor, com mais dignidade”, ressalta.

O morador é um dos poucos que possui rede de esgoto e água encanada na localidade. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Esperança

Assim como ele, a pensionista Ivone Lira Moura, de 50 anos, também sonha com a transformação do local. Durante a entrevista, a senhora mostra o que restou da palafita engolida pela última cheia do rio. Com a perda da casa, ela atualmente vive com o marido e dois filhos, com idades entre 10 e 12 anos em um quarto alugado na mesma localidade.

“Essa parte todinha foi para o fundo. Onde tem essa ‘faixa’ escura, foi a altura que subiu a água. Mas essa não foi a maior enchente. Em 2012 nós só não perdemos tudo, porque fomos retirando as coisas bem rápido. Eu e meu marido passamos um sufoco com as crianças pequenas, mas conseguimos recuperar quase tudo”, detalha.

Ivone Lira Moura em frente ao que restou da casa inundada pelo rio Negro (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Ivone também relata sobre a sua estrutura da moradia atual, que está um pouco mais afastada do rio. “Tenho uma geladeira, uma cama que doaram. Nessa casa temos luz legalizada, mas na anterior que nós construímos no rio com ajuda dos vizinhos, usamos madeira forte e troncos longos para chegar até o fundo do rio”.

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Moradora da localidade há 20 anos, ela também relembra que a paisagem aquática não continha as casas “flutuantes” que tomam conta da margem do rio. “Todas essas casas não existiam, tudo foi tomado com o tempo. Eu não trabalho, mas recebo um benefício de saúde e por isso não pude receber o auxílio emergencial. Meu marido faz bicos para manter uma renda, mas também contamos com os vizinhos e assim seguimos. Um ajuda aqui, outra ali. Todos os amigos vão se apoiando”, explica Ivone.

Ivone é a principal responsável financeira da família composta por quatro pessoas, que vivem em um quarto alugado. (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Saneamento e pandemia

Entre as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para conter a contaminação por Covid-19 está a higiene constante das mãos. No entanto, na comunidade do Educandos, visitada pela reportagem, a indicação não pode ser seguida à risca, por falta de estrutura sanitária básica.

“Nesse tempo de pandemia ninguém ficou doente, graças a Deus. Mas para gente beber água e cozinhar precisa buscar água lá ‘em cima’ [no poço artesiano]. Não dá para beber água do rio, é muito contaminada. Assim como os peixes, passam muitos por aqui, mas nós não comemos. Também lavamos a roupa e louça com a água do rio”, comenta.

Animais domésticos se misturam no cenário úmido, tomado pelo entulho trazido pelas cheias. (Ricardo Oliveira/ Ricardo Oliveira)

Também perguntamos a aposentada se ela conhecia casos de outras doenças mais comuns pelo consumo de água imprópria, na própria família ou com conhecidos. “Eu não cheguei a ter dengue ou malária, não vou mentir. Mas outros vizinhos, sim, até outras doenças como diarreia e dores de estômago. Por causa dessas coisas tenho vontade de me mudar, mas na verdade, queria que o Prosamim passasse aqui”, finaliza.

Prosamim

O Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), citado pela moradora do Educandos, é uma iniciativa estatal que visa contribuir com a melhoria da qualidade de vida dos habitantes das Bacias Educandos e do São Raimundo.

A REVISTA CENARIUM procurou o governo do Amazonas para verificar as ações direcionadas à garantia de moradia e bem-estar da população que vive abaixo da cota de 30 metros de inundação, tomando como referência o nível do Rio Negro, no Porto de Manaus.

Antes da passagem do Prosamim, na Bacia do São Raimundo, centenas de palafitas dividiam espaço na Zona Centro-Oeste de Manaus. (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Em nota, a Secretaria de Comunicação informou que a primeira grande ação do atual Governo direcionada a famílias do bairro de Educandos foi o pagamento de indenizações para as vítimas do incêndio que ocorreu no local ainda em 2018.

E que no final de maio deste ano, o governador Wilson Lima pagou o terceiro e último lote de indenizações a 427 famílias, com recursos que somam R$ 11,3 milhões. As famílias receberam cheques moradia de até R$ 35 mil, além de auxílio-moradia.

“Além disso, o Governo do Estado já está em tratativas para o financiamento de uma nova fase do Prosamim. O projeto vai compreender áreas de risco, incluindo o bairro Educandos. Está sendo feito um estudo de viabilidade que será submetido para financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)”.

Vista noturna das palafitas (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Ainda segundo a nota, desde o início da atual gestão, em 2019, o Governo do Amazonas também intensificou os trabalhos do Prosamim com intervenções nas zonas sul e oeste, distribuídas entre os bairros Aparecida, Centro, Presidente Vargas, Japiim e Cachoeirinha, com a retirada de cerca de 1.500 imóveis de áreas de risco à margem de igarapés.

“Nesta fase, do Prosamim III em execução, a intervenção no trecho das ruas Silves-Maués, uma obra complementar do igarapé do 40, é a que vai representar o maior volume de reassentamentos, alcançando famílias de 1.037 imóveis”, explica.

População que vive abaixo da cota de 30 metros de inundação tomando como referência o nível do rio Negro (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

Também foi questionado a pasta governamental, sobre mudanças além da estrutura física. A resposta, foi que o Prosamim atua em ações de pré e pós-reassentamento por até 10 anos após os moradores estarem nas novas unidades habitacionais, por meios de parcerias e da organização comunitária.

“O programa também oferece cursos de capacitação, oportunizando um complemento de renda as famílias retiradas de áreas de risco.
No ano de 2019, o Prosamim através de suas parcerias capacitou mais de 800 moradores do residenciais Mestre Chico II, Liberdade, Cajual e São Raimundo”, finalizou em nota.

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