A revolução pela leitura

Odenildo Sena

A situação é alarmante. Debruço-me sobre os dados e entro em quase desespero. 41% dos brasileiros não leram nenhum livro durante o período de um ano. Apenas 1% leu quatro ou mais livros por ano. Busco os dados de Portugal. Proporcionalmente, o quadro não é menos preocupante. 61% dos portugueses não leram nenhum livro em 2020. Dos 38% que leram, entretanto, 1% leu mais de 20 livros. De uma forma ou de outra, fico com a impressão de que estamos nos distanciando perigosamente do que chamaríamos de patamar civilizatório e nos aproximamos, com razoável velocidade, da barbárie.

Um dado curioso e determinante, no caso de Portugal, é que 71% dos inquiridos afirmam que os pais nunca os levaram a uma livraria; 75% dizem que os pais nunca os levaram a uma feira de livros e 77% nunca foram motivados a entrar numa biblioteca. Não deve ser muito diferente em relação ao Brasil. De qualquer modo, aí parece estar uma das causas mais nevrálgicas do distanciamento da prática da leitura: a falta de convivência mínima com os livros, o que neutraliza o despertar natural da curiosidade em tocá-los, folheá-los e, possivelmente, ser fisgado por algum lance, em alguma de suas páginas, e ali começar a se construir uma história de leitor.

Eu sei que há muitos e muitos outros fatores a serem considerados nesse processo de deterioração da leitura. A atuação tímida da escola é um deles; a ausência de bibliotecas em áreas mais carentes é outro; a negligência do poder público em promover indiscriminadamente o livro é outro fator determinante. Associem-se a esses fatores, em grau mais determinante ainda, as desigualdades econômicas e sociais. Neste aspecto, por exemplo, não tenho nenhuma dúvida de que, em lares onde pai e mãe são leitores e os livros estão sempre à mão, o despertar do interesse dos filhos pela leitura é muito mais provável de acontecer, inclusive, de forma acidental. Lembro-me de que em casa, de propósito, eu sempre tive o cuidado de deixar os livros ao alcance das mãos de meus filhos. Nada de sacralizar os livros no alto das estantes, como objetos inacessíveis e propriedade particular minha. Mas, ao lado disso, a verdade é que o livro é também um produto caro e está ao alcance de poucos.

O quadro é, de fato, alarmante, porque projeta, como eu falei acima, uma queda de braço entre a civilização e a barbárie. E a barbárie, sobretudo no Brasil, por tudo o que se vê em toda e qualquer perspectiva, está levando a melhor.

Diante disso, penso que cabe a nós, privilegiados leitores que somos, nos envolvermos direta e incansavelmente em sucessivas batalhas, na esperança de conseguirmos, mesmo em longo prazo, revertermos essa situação. Estou aqui pensando em algumas estratégias de enfrentamento que estão ao nosso alcance:

Mas estas são apenas algumas sugestões de estratégias de disseminação da leitura que acabam de me passar pela cabeça. Há outras, muitas outras nas quais você pode pensar. O importante mesmo é que somemos forças e ações, num esforço coletivo forte e permanente, para acendermos a chama da leitura, em novos leitores, ou atiçarmos essa mesma chama em leitores que, por alguma razão, andam desanimados.

Por fim, façamos da leitura o nosso estandarte revolucionário da luta contra a ignorância e a barbárie. No mínimo, estaremos a contribuir para um mundo mais pleno de consciência, para um mundo mais humano, mais civilizado e mais inclusivo.

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