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21 de outubro de 2021
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     Acho que não acontece com muita gente. Mas no meu caso não tenho como esconder. A princípio achava que era só um caso de timidez que me roubava a coragem, o fôlego e as palavras. Se alguém se aproximasse de mim durante a feitura de um texto, seja ele qual fosse, a caneta travava de tal modo, que não saía mais uma palavra. Quando abandonei a caneta e passei para a máquina de datilografia não foi diferente. Bastava algum olhar, mesmo despretensioso, se esgueirar em direção à folha de papel que agasalhava as palavras para a velha Olivetti portátil emudecer. Depois, quando a duras penas larguei a máquina de datilografia e me escorei na tecnologia do computador, tudo continuou como dantes. Mesmo à distância, era (e ainda é) suficiente eu perceber que alguma criatura acompanhava na tela os resultados dos movimentos dos meus dedos nos teclados para eu perder a graça e murchar como um balão furado. Na falta de uma explicação plausível para esse estranho comportamento, acabei partindo para o diagnóstico mais conveniente: a timidez da escrita.

      Com o tempo, com os textos e os teclados, descobri, porém, que meu diagnóstico não tinha muita sustentação. A escrita nada tem de tímida. Ela cumpre o papel para o qual foi milenarmente criada. É temperamental e tem seus caprichos e suas armadilhas, é certo. Aqui e acolá nos prega boas peças. Nos faz dizer coisas que juramos não ter dito. Mas está sempre aí à disposição de quem compra o desafio de entendê-la e de se aventurar nos desvãos dos seus implícitos e explícitos. Neste sentido, a escrita, repito, não é tímida. Tímidos ou não tímidos somos nós. E, para meu desalento, eu me enquadro com honra ao mérito na primeira categoria, por mais que assim não pareça e por mais que assim eu não queira ser.

     Timidez à parte, confesso que o meu problema não era a timidez para escrever. Nunca foi. Embora eu deva dizer, a bem da verdade, que minha convivência com a escrita nunca esteve livre de conflitos e desacertos. Ela sempre me deu muito trabalho. Sempre se comportou com muita rebeldia. Não raro, sempre me azucrinou a paciência, ao atribuir a si vontade própria. Quantas e quantas vezes eu quis seguir uma dada estrada e, por pura pirraça, ela quis seguir outra, como se mandasse na minha vontade. Tantas vezes vivi situações angustiantes por causa dela, como ter que abandonar textos em pleno meio do caminho por falta de acordo entre nós. Enfim, e para não parecer que guardo qualquer rancor dessa atribulada convivência, esclareço de vez que este texto é o exemplo mais apropriado da nossa histórica discórdia: meu projeto desde o início – e o título acima não me deixa mentir –, era escrever um texto sobre a solidão da escrita. Ou, para não deixar dúvida, um texto falando sobre a necessidade da solidão para se escrever. Algo assim como a solidão do escritor. E até aqui, como devem ter percebido, não consegui fazer isso. Como de outras vezes, a escrita me desviou do rumo. Mas dessa vez juro que vou impor a minha vontade sobre a vontade dela.

     Retomando, pois, o assunto do meu propósito inicial, o meu problema nunca foi timidez para escrever. Na verdade, eu sempre precisei mesmo foi de solidão e tranquilidade para fazer desabrochar meus textos. Sem isso, nada feito. As ideias travam e não há quem me faça parir uma linha.  Certa vez, porém, saltou-me às mãos um livro de leitura gostosíssima chamado “Escrever”. Isso mesmo! Com esse título simples assim. Para meu alívio e contentamento, nele a escritora francesa Marguerite Duras diz em certo momento:

     “A solidão da escrita é uma solidão sem a qual o texto não se produz, ou então a gente se acaba, exangue, de tanto procurar o que escrever.”

     Era tudo que eu precisava ouvir! E vindo de Duras, por quem me apaixonei desde que li “O amante” e depois assisti ao filme de Jean-Jacques Annaud baseado no livro, mais confortante ainda. Verdadeiramente, pelo menos para mim, estar sozinho e longe de qualquer barulho é fundamental para eu conseguir escrever. Ou, como acrescenta Marguerite Duras no mesmo livro:

     “É sempre necessária uma separação da pessoa que escreve livros em relação às pessoas que a rodeiam. É uma solidão. É a solidão do autor, a solidão da escrita.

Mas essa solidão, não sei se me faço entender, é em relação ao ambiente, às outras pessoas. Não é a solidão do próprio escritor. Afinal, alguém solitário de si mesmo vive num grande vazio e não encontra nenhum motivo para escrever. Não é esse o caso. Tanto que há escritores que não se incomodam com o barulho de pessoas em seu ambiente de trabalho. Conta-se, por exemplo, que Clarice Lispector tinha o hábito de escrever com a máquina portátil sobre as pernas, na sala de sua casa, sem dar a mínima para a algazarra dos dois filhos. Neste caso, Clarice conseguia ficar alheia a todo e qualquer barulho em seu redor. Era sua estratégia para encontrar a solidão da escrita, mas isso nada tem a ver com a solidão de si mesma.

Morro de inveja de quem consegue a proeza de Clarice. Mas o meu caso é incorrigível. E, nessas alturas da vida, já entreguei os pontos. Vou morrer assim. Eu preciso realmente, como reafirma Marguerite Duras, “da solidão do corpo que se transforma na outra, inviolável, a solidão da escrita”. Só assim eu me sinto preparado para meus intermináveis confrontos com a escrita. Paciência.

(*) Odenildo Sena é linguista, com mestrado e doutorado em Linguística Aplicada e tem interesses nas áreas do discurso e da produção escrita.

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