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27 de outubro de 2021
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Com informações do Portal Geledés

SÃO PAULO – Na pandemia, a diferença salarial entre brancos e negros atingiu o maior patamar já registrado. No terceiro trimestre, a distância chegou ao pico de R$ 1.492, o maior valor desde 2012, início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE.

Apesar da ligeira melhora no fim do ano, quando o intervalo caiu para R$ 1.405, isso não foi suficiente para mudar o quadro de crise severa para os negros, aumentando a desigualdade racial que já era alta. O cruzamento de informações foi feito pelo pesquisador Bruno Ottoni, do IDados.

Na mesma linha vai o estudo dos pesquisadores Ian Prates e Márcia Lima, do Afro (núcleo de pesquisa e formação em raça, gênero e justiça racial do Cebrap), que mostra perda de emprego mais forte em vagas com carteira, sem carteira, entre trabalhadores domésticos e outras categorias de emprego.

“Os negros são mais prejudicados por serem mais pobres, por terem estudado menos. Nos serviços domésticos, nos quais a quase totalidade é de mulheres, as negras perdem mais do que as brancas. A pandemia ampliou as desigualdades que já existiam e que vinham piorando antes mesmo da Covid-19”, afirma a pesquisadora.

Ottoni diz que, além da escolaridade e de estarem mais vulneráveis no mercado de trabalho, o preconceito é outro fator que impede a ascensão social dos negros e potencializa os efeitos da crise. É um fator bem evidente e pacificado pela literatura: o preconceito.

A perda de emprego foi mais intensa em todas as formas de ocupação (Reprodução/ Fabiano Rocha / Agência O Globo)

Dados

Fabiana Farias, de 40 anos, moradora de Curicica, na Zona Oeste do Rio, foi demitida de seu cargo como analista comercial em uma prestadora de serviços e teve de cortar gastos para conseguir se manter e ajudar seus três filhos e netos. Ela conta que também foi obrigada a abandonar a graduação em Direito. No mercado de trabalho, convive com a dificuldade maior para os negros.

“Sou mulher, sou preta, periférica, ainda estou na faculdade. Nós temos que nos mostrar muito mais eficazes que os demais, fazer duas vezes melhor que os outros para não sermos as primeiras a serem descartadas ou retiradas do espaço de decisão. E temos que saber lidar com o racismo sem dizer para nossos colegas que eles estão sendo racistas, pois provavelmente seremos demitidas”, afirma.

Com a perda de emprego, Fabiana teve de reduzir despesas. Foi morar em um local mais barato e vem sendo obrigada a atrasar algumas contas: “Também deixei de pagar e não renovei minha matrícula na faculdade, que é a minha esperança para dias melhores no mercado de trabalho e um propósito de vida”, conta Fabiana.

Voltar ao mercado não será fácil. Estudo do Afro, também assinado por Caio Jardim Souza, Gisele Silva Costa e Thayla Bicalho Bertolozzi, mostra que a taxa de desemprego dos negros subiu de 11,4% para 16,6%, enquanto entre brancos subiu de 9,17% para 11,5% entre maio e novembro.

Menos emprego doméstico

Márcia diz que a situação dos jovens negros é pior. A proporção de negros sem atividade escolar é muito grande, e a parcela de “nem-nem”, jovens que não trabalham nem estudam, aumentou.

“Aumentará o desemprego entre os jovens negros. Ainda não contabilizamos o impacto da morte nas famílias pobres, principalmente para os jovens. Um aluno cotista, que precisa de ajuda da assistência social para pagar passagem e alimentação, não vai voltar a estudar se o pai tiver morrido”, alerta Márcia.

E a pobreza aumenta. Já voltou aos níveis dos anos 1990, segundo o estudo. Entre os 10,6 milhões de brasileiros que dependiam unicamente do auxílio emergencial, 7,2 milhões são negros.