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18 de maio de 2021

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Com informações do O Globo

RIO DE JANEIRO – Antes de entrar na sala de depoimentos, as duas advogadas de Jorge Alberto Moreth, o Beto Bomba, foram alertadas para desligar os celulares. Qualquer vazamento representaria risco ao cliente. Dias depois, porém, um áudio com as declarações de Beto circulava intensamente pelas celas da Penitenciária Bandeira Stampa (Bangu 9), no Complexo de Gericinó, representando mais um revés nas investigações sobre os mandantes das mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Em mais um desdobramento do Caso Marielle, Kenya Vanessa Lima Araujo de Jesus e Eloísa Reis Assis do Nascimento, defensoras de Beto Bomba, passaram a ser as principais suspeitas de procedimento instaurado para  investigar crime de obstrução de Justiça. Perícia demonstrou que uma delas escondia um ponto eletrônico que colheu o depoimento de Beto, tomado no ano passado na sede do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), no Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), e que vazou para Bangu 9.

O interesse dos investigadores pelo depoimento começou quando uma interceptação telefônica, em 8 de fevereiro de 2019, captou uma conversa na qual Beto Bomba, ex-líder da Associação de Moradores de Rio das Pedras, diz ao então vereador Marcello Siciliano que o mandante da morte de Marielle e Anderson seria o conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) Domingos Brazão. No áudio, Beto também cita os nomes dos executores, Leonardo Gouveia da Silva, o Mad, Leonardo Luccas Pereira, o Leléo, e Edmilson Gomes Menezes, o Macaquinho:

“Só que o sr. Brazão veio aqui fazer um pedido para um dos nossos aqui, que fez contato com o pessoal do Escritório do Crime, fora do Adriano (da Nóbrega), sem consentimento do Adriano. Os moleques foram lá, montaram uma cabrazinha, fizeram o trabalho de casa, tudo bonitinho, ba-ba-ba, escoltaram, esperaram, papa-pa, pa-pa-pa pum. Foram lá e tacaram fogo nela [Marielle]”.

No Gaeco, Beto negou a acusação a Brazão. Alegou que a conversa era bravata e pretendia apenas ajudar Siciliano, na época investigado por suspeitas de ser o mandante da morte da vereadora e do motorista. Porém, o testemunho foi além e ajudou na elucidação de pontos até então obscuros do Caso Marielle. Por isso, o cuidado dos investigadores com o sigilo sobre a ida de Beto ao MP-RJ.

Informado sobre o vazamento, o Gaeco obteve na Justiça ordem de busca e apreensão contra as duas advogadas. Ao acessar os arquivos do computador pessoal de Eloísa, os técnicos do MP-RJ constataram que alguém, por meio remoto, tentava apagar o conteúdo. O depoimento de Beto foi localizado na lixeira do aparelho. Além disso, a perícia indicou ainda que o microfone estava escondido na roupa de uma das advogadas.

Apontado como um dos chefes da milícia de Rio das Pedras, Beto Bomba se entregou em maio de 2019, após passar quase quatro meses foragido. Ele foi um dos alvos da Operação Intocáveis, junto com o ex-capitão da PM Adriano Magalhães e o ex-subtenente Maurício Silva da Costa, o Maurição. Para o Gaeco, a associação de moradores que Beto dirigia funcionava como quartel-general dos milicianos, para legalização de imóveis ilegais.

As investigações abertas pelo vazamento do testemunho procuram entender a motivação. Citados na conversa de Beto com Sicliano, como executores de Marielle, Macaquinho, Mad e Leléo já foram denunciados pelo MP-RJ pela morte do empresário Marcelo Diotti, ocorrida na mesma noite dos assassinatos de Marielle e Anderson. Para os investigadores, o carro dos criminosos partiu de Rio das Pedras, o que confere alguma veracidade àquilo que Beto Bomba disse se tratar de bravata.

Kenya Vanessa Lima é conhecida no ambiente judicial por advogar para milicianos. Em seu portfólio, constam como clientes Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, e Toni Angelo Souza Aguiar. Ao saber das investigações sobre o vazamento, Beto Bomba desconstituiu a dupla de advogadas. Ele teria recebido ameaças no Bandeira Stampa, unidade onde estava preso e que possui entre os detentos suspeitos de integrarem milícias e ex-policiais.

Procurada pelo GLOBO, Kenya Vanessa, sócia de Eloísa, disse que não tem nada a declarar porque “gravar o depoimento de clientes é um direto legal da defesa, amparado pela legislação”. Ela admite a busca e apreensão e disse que a considera normal, porque “já foi feita com outros escritórios”. O GLOBO não localizou Eloísa para falar sobre o episódio.