Participe do nosso grupo no Whatsapp Participe do nosso grupo no Telegram
25 de julho de 2021
Ainda não é assinante
Cenarium? Assine já!
ASSINE
image/svg+xml
Priscilla Peixoto – Da Cenarium

MANAUS – Após a exposição do caso de agressão do DJ Ivis à ex-companheira, Pamella Holanda, ganhar grande repercussão nas redes sociais, um especialista destaca nesta terça-feira, 20, as possíveis razões para o aumento da popularidade do artista, envolvido em um contexto de violência contra mulher. Após a exibição do vídeo, o DJ saltou de uma média de 600 mil seguidores para 850 mil, 250 mil novos usuários apenas no Instagram.

Para o psicólogo Adan Silva, tal comportamento pode ser explicado por alguns fatores. “Existe sim essa coisa da curiosidade de querer saber como é o perfil desse agressor e de alguma forma tentar se manter informado sobre o caso, mas creio que isso seja só a ponta do ‘iceberg’. Mas existe outros fatores de ordem consciente, por exemplo”, avalia o psicólogo.

O psicólogo explica que o fator curiosidade é apenas um dos gatilhos que levam pessoas a seguir DJ Ivis (Reprodução/Internet)

Tais fatores, segundo Adan, são na verdade uma certa identificação com agressor, o que traz à tona comportamentos reforçados pela sociedade baseados nas relações cotidianas, como a violência doméstica, inserida no contexto familiar. “Uma questão que temos que analisar é a misoginia. Porque essa atitude de aversão à mulher é reforçada nesse ato de seguir o agressor e não a pessoa vitimada”, comenta.

“Mais uma vez existe uma sociedade que é ignorante em alguns aspectos, por isso não faz uma análise crítica antes de pensar nos impactos de seguir o agressor. Ao seguir ele, a pessoa se coloca em uma ‘sensação’ de ser juiz, para ter uma opinião formada, ouvindo os dois lados. Nisso, mais uma vez a gente segue sem diferenciar opinião do discurso de ódio”, explica Adan.

Dois pesos, duas medidas

O psicólogo Adan Silva relembra outro caso recente de agressão, erro e exposição nas mídias. O da cantora Karol Conká, ex-participante do reality Big Brother Brasil 21, uma das protagonistas da edição, que acabou se destacando em cenas de agressões verbais e psicológicas durante a convivência em grupo, mesmo em frente às câmeras de televisão.

“O tratamento que a sociedade dispensa é diferenciado. Um cara que agrediu fisicamente ganha seguidores. Enquanto a uma mulher, que errou sim, teve que sair escoltada de uma casa. Em termos de proporções, ela estava sendo observada 24 horas em uma casa e dentre outros fatores. Assim, claramente é perceptível essa dimensão de misoginia e racismo”, reitera.

Para Silva, os dois personagens das narrativas apresentam diferenças estruturais na sociedade, como o fator de Karol ser mulher e negra, enquanto Ivis, ser homem e branco. “Isso fica mais claro, quando a gente cruza fatores como a questão da raça e do gênero. No exemplo dela, sendo negra, a situação tende a piorar”, comparou o psicólogo.

O caso de agressão do DJ Ivis é o mais recente, mas há outros episódios anteriores que retratam um comportamento similar ao do artista, como o do ator Dado Dolabella, que mesmo acusado pela ex-companheira e atriz Luana Piovani de agressão física, saiu como vencedor por votação popular do reality “A Fazenda”, na edição 2019.

Complexidade

O conhecido como criador da psicanálise, Sigmund Freud detalha nos diversos estudos e teorias desenvolvidos ao longo da carreira, que manifestações do consciente na verdade não representam tudo que é sentido inconscientemente, ponto de vista defendido pelo psicólogo Adan Silva.

“O inconsciente é a força psíquica que move o nosso comportamento e, por ser inconsciente, não sabemos. Freud dizia que, quando alguém morria, existia uma felicidade inconsciente, pois era uma forma de expressar alívio por não ser a ‘nossa vez’. Comparando paralelamente ao caso do DJ, é algo parecido. De um lado há os que se identificam com o agressor e outros que ficam aliviados por não terem sido a pessoa agredida”, explica Silva.

Apresentada em maio, a proposta ainda não entrou na pauta da Casa, mesmo com o aumento dos casos de agressão, importunação sexual e feminicídio (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

O psicólogo completa que apesar de parecer estranho, a teoria articula justamente com questões de machismo e misoginia. “Você acaba reproduzindo, mesmo que você diga que não reproduz. O Brasil é um país em que todos sabem que existe o racismo, mas ninguém assume que é racista, ou seja, o racismo é sempre do outro. Ninguém violenta mulher, mas todo dia têm casos de violência. Então é um discurso que não sustenta a prática”, conta o especialista.

Curiosidade

O psicólogo também fala sobre a curiosidade: A resposta usual para justificar a atitude de seguir o DJ. Adan aponta que apesar de haver o sentimento é válido refletir sobre a origem dessa questão. O profissional chama atenção para uma possível mudança de postura nas próprias redes sociais de cada um.

“Creio que só curiosidade em si é algo muito do senso comum para pensar pontos assim. Ainda que justifiquemos esse sentimento, chega a ser mórbido. Se as pessoas ficam curiosas em acompanhar a vida do agressor, porque elas não ficam aguçadas em acompanhar a vida da agredida, para solidarizar fortalecer essa mulher?”, questiona Adan.

Cancelamentos

Apesar de estar com quase um milhão de seguidores em uma única rede social, DJ Ivis perdeu várias parcerias musicais e contratos. Entre eles, o prejuízo com a gravadora Sony Music que cancelou o contrato e ainda retirou do ar músicas do cantor e futuros trabalhos musicais.

Além disso, ele também responde pela acusação de lesão corporal contra Pamella Holanda e está detido de forma preventiva no presídio Irmã Imelda Lima Pontes, na Região Metropolitana de Fortaleza. Na última sexta-feira, 16, ele teve um pedido de habeas corpus negado pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Humberto Martins.