26 de novembro de 2020

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Luís Henrique Oliveira – Da Revista Cenarium*

MANAUS – Para tratar doenças comuns em grandes cidades, na maioria das vezes, o paciente comparece em unidades de saúde e é orientado por médicos e especialistas, mas no Amazonas, em algumas aldeias indígenas, o papel do curandeiro ainda é fundamental e de extrema importância para a prevenção e tratamento de doenças como a Covid-19.

No Alto Rio Negro, por exemplo, em São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas (a 852 quilômetros de Manaus), um ritual de proteção é realizado para evitar contaminação pelo novo Coronavírus.

Na ocasião, segundo entrevista realizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) com Damião Amaral Barbosa, de 44 anos, da etnia Yeba Masã, da comunidade São Felipe, a liderança da comunidade, conhecida como o tuxaua, convida o pajé, o kumu e os conhecedores para realizar a cerimônia. A função do pajé é tirar a doença, como o médico tradicional. É ele quem indica qual é a doença e o kumu realiza o benzimento e receita o remédio dependendo da doença que o pajé falar.

Da sede do município de São Gabriel até São Felipe, são cerca de cinco dias de viagem de barco, dependendo das condições do rio. A pequena aldeia, na Floresta Amazônica, quase não tem comunicação. Televisão, nem pensar. Há poucas pessoas de fora. Mas a Covid-19 chegou e atingiu todos os 48 moradores. “Todo mundo pegou”, contou Damião.

O ritual

Já o conhecedor faz a preparação para realizar esse tipo de cerimônia. Convida os presentes para colher a folha do padu e embaúba, que são usadas na cerimônia de proteção. Sem padu, o pajé não consegue chegar ao ápice do seu conhecimento. Esse é o papel do conhecedor. Ele prepara o ipadu com as folhas de padu; o rapé, que é um pó feito com tabaco breu e prepara também o carajiru, que é um pigmento de cor de vinho para pinturas corporais feito com uma planta trepadeira.

Segundo Damião, o ritual é feito na maloca dos indígenas, onde as famílias moram. Os convidados chegam por volta das 17h. “Convidamos os nossos povos Yeba Masã, também os Tuyuka e Hupdah, para eles participarem, porque eles precisam também”, disse.

O tuxaua da casa vai acolher, dar quinhapira prato tradicional com peixe e pimenta, beiju, chibé e outras iguarias. “A cerimônia dura em torno de 10 horas. Até que umas 7h do dia seguinte, começa de novo. Prepara uma bebida fermentada da mandioca e depois vai para a dança. O pajé pensa a partir da constelação qual tipo de dança será. Porque o pajé faz a conexão com os deuses”.

Para ele poder receber essa mensagem, ele usa também um tipo de bebida alucinógena para conversar com os deuses. O espírito A’yawa faz a conexão com o pajé.

Remédios

“São remédios da floresta. Para encontrar tem que ir na floresta, tem que ir no mato. Tem dois tipos de cipó: tem um da folha meio fina e outro da folha da grossa. O que vale mesmo é aquele da folha fina. Faz esse chá até que o líquido fique bem avermelhado. É bem amargo. Toma de manhã, depois do mingau. Toma de manhã, meio-dia, como se fosse remédio de branco”, disse Damião.

E continua: “Outro fervido é com a casa da formiga ferve com a formiga mesmo, porque o cheiro vai entrar. Diz o pajé que esse vírus tem medo do cheiro. Depois, se coa. Pode tomar como chá e para fazer um banho. Alivia a dor de garganta”.

Damião é agricultor, agente indígena de manejo ambiental (Aima) pelo Instituto Socioambiental (ISA), conhecedor tradicional e está em processo de aprendizado para se tornar um kumu, que atua junto ao pajé. Ele relata que os remédios e práticas tradicionais impediram que os casos da Covid-19 se agravassem em São Felipe, uma das comunidades indígenas localizadas na Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro. Outros povos da região fazem o mesmo relato.

(*) Com informações do ISA

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