8 de março de 2021

Jennifer Silva – Da Revista Cenarium

MANAUS – Entre as diversas denúncias contra a Prefeitura de Manaus sobre fraudes na distribuição das vacinas, o médico Orlando Justino de Araújo, de 76 anos, que atua na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), afirmou nesta quarta-feira, 27, que teve seu nome inserido, no último sábado, 23, na lista de vacinados contra a Covid-19, indevidamente. “Alguém foi vacinado no meu lugar. Isso é um absurdo”, afirmou o médico à REVISTA CENARIUM.

De acordo com a filha de Orlando, cirurgiã Márcia Leão, órgãos competentes foram acionados e um Boletim de Ocorrência que foi registrado para formalizar a denúncia na Polícia Civil. Segundo Márcia Leão, que expôs o caso nas redes sociais, uma enfermeira da Fundação entrou em contato com o médico para saber se ele havia recebido a dose do imunizante, já que seu nome constava na lista dos que haviam se vacinado.

Boletim sobre o caso foi registrado na Polícia Civil na tarde desta quarta-feira, 27 (Reprodução)

“Gente que absurdo. Colocaram que meu pai foi vacinado na Fundação de Medicina do Tropical. Que absurdo. Ele não foi vacinado. Alguém pegou a vaga dele. Vergonha de ser brasileira em alguns momentos”, escreveu a filha do profissional, em seu Instagram, na noite dessa terça-feira, 26, mostrando imagens da lista onde aparece o nome de seu pai.

Filha de médico postou lista com o nome do pai nas redes sociais, mas negou que o profissional tenha sido imunizado (Reprodução)

Márcia disse que o Ministério Público do Estado (MPE-AM) orientou o registro de Boletim de Ocorrência para que sejam feitos os procedimentos cabíveis e a investigação sobre o caso. Segundo ela, agora a preocupação é que o pai corra o risco de não ser mais imunizado, já que seu nome está na lista como vacinado.

Investigação

Já o MP-AM explicou que o caso será inserido nos autos de investigação. “Todos os casos que têm chegado ao Ministério Público estão entrando para fazer parte dos autos do procedimento investigatório criminal, que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), órgão de inteligência do MP-AM (GAECO). Não vai ser resolvido de urgência, então esta denúncia vai entrar para fazer parte dos atos de investigação”, explicou MPE-AM, por meio de sua assessoria de comunicação. O órgão explicou ainda que os procedimentos são sigilosos e não há como dar informações sobre casos individuais.

O Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), órgão de controle do Estado, afirmou que já tomou ciência do ocorrido, e as informações foram repassadas para a Secretaria de Controle Externo para apuração.

A REVISTA CENARIUM também tentou contato com a Prefeitura Municipal de Manaus (PMM), que está responsável pela imunização dos grupos prioritários na capital amazonense, entretanto, não obteve retorno até a publicação do material.

Decisão Judicial

No último dia 23, a juíza federal Jaiza Fraxe, titular da 1ª Vara Federal do Amazonas, determinou que a prefeitura de Manaus informasse, diariamente a partir do domingo, 24, até as 19h, a relação das pessoas vacinadas contra a Covid-19, do dia respectivo.

Outras irregularidades

Após a decisão judicial emitida pela  1ª Vara Federal do Amazonas, órgãos de controle do Estado constataram que houve números inexistentes de Cadastros de Pessoas Físicas (CPFs) informados pela Prefeitura de Manaus na relação de imunizados contra a Covid-19 no site da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa). A cada 100 CPFs consultados, pelo menos 10 não foram encontrados.

A constatação de CPFs inválidos na lista de vacinados ocorreu desde o primeiro dia em que a Semsa deu publicidade à relação de imunizados contra a Covid-19, 24 de janeiro, atendendo a uma determinação da Justiça Federal. Acesse a lista completa.

‘Fura-filas’

No dia 19, imagens que circulavam em Manaus, mostraram as servidoras nomeadas por David Almeida (Avante), para atuar na Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), sendo imunizadas com a vacina contra a Covid-19. Gabrielle e Isabelle Lins foram acusadas de “furar a fila” por não atuarem de fato na linha de frente nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital.

Ambas pertencem à tradicional família Lins, que possui diversas alianças político-financeiras na capital amazonense. A própria Gabrielle usou as redes sociais para confirmar a informação, mas contesta que tenha tirado proveito do poderio político da família para se imunizar.

Entre as pessoas que já se vacinaram está o filho do ex-deputado estadual Wanderley Dallas (Solidariedade), o médico David Dallas. Diante das denúncias de que a fila de prioridade estaria sendo descumprida, as Defensorias Públicas do Estado e da União e os Ministérios Públicos Estadual e Federal expediram recomendação requerendo o cumprimento de critérios estabelecidos para a priorização de profissionais de saúde mais vulneráveis à Covid-19 e aos preceitos constitucionais da impessoalidade e da eficiência, sob pena de incorrer em improbidade administrativa.