Amazonenses redescobrem o home office para sobreviver à pandemia

Nícolas Marreco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Uma mudança de realidade recente encarada por muitos trabalhadores brasileiros é a do home office (teletrabalho), que já mostrou, em estudos de caso, aumento da produtividade em 13% e melhoria na satisfação pessoal do colaborador. Envolto de prós e contras, o regime também não é o favorito da maioria, conforme levantamento da consultoria Consumoteca.

Na pesquisa, com aproximadamente 2 mil pessoas de diferentes faixas etárias e estados, 73% dos trabalhadores preferem não trabalhar em tempo integral de casa. No Amazonas, o trabalho à distância mostrou diferentes efeitos conforme as variadas condições sociais.

Para a funcionária pública Ana Sena, de 25 anos, por exemplo, a rotina ficou mais organizada e fluída. As demandas, que por vezes levava para casa, ela diz, consegue fechá-las dentro do horário de expediente. “Antes, eu saía do trabalho e ficava [trabalhando] pelo celular em casa. Hoje, consigo trabalhar tranquilamente, porque eu tenho tudo o que preciso”, contou.

Uma das primeiras coisas que Ana foi montar uma planilha de atividades diárias, com metas de horários a cumprir. Já passando de um mês de teletrabalho, uma das coisas que mais pesaram na adaptação da rotina, segundo ela, foi a produção de vídeos e entrevistas, material que fazia também in loco.

“A minha rotina era muito fora do escritório, com muita produção externa. Tive que me acostumar mais sentada com o computador, o que é mais estranho, por ficar parada em frente à tela. O engraçado é que às vezes é mais cansativo do que sair, porque tem hora que tem tanta coisa para fazer que não consigo levantar para beber água”, completou.

Com seis anos de experiência em trabalhos presenciais, Ana buscou disciplinar a produção em casa com divisão de tarefas de 8h às 12h e de 13h às 17h. Em intervalos pequenos, coloca uma garrafa d’água em cima da mesa. “Tenho equipamento para fazer o que preciso; a internet é tranquila”, finalizou.

Janela para empreender

Em Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus), o designer gráfico Lucas Gama, de 22 anos, encontrou uma oportunidade inesperada após ser dispensado quando o distanciamento começou. Improvisando um escritório em casa, ele passou a atender mercados de bairros para serviços gráficos e a fazer o cadastro do auxílio emergencial para pessoas que não têm facilidade de acesso à internet. Gama também vende máscaras artesanais para complementar a renda.

O designer gráfico, Lucas Gama, em frente ao negócio improvisado em frente de casa: alternativa de home office mais rentável que o emprego formal que possuía. (Aquivo Pessoal)

“Hoje, faço meu horário, não tenho muita obrigação de acordar cedo, e melhorei em 100% desde que iniciei há um mês. Trabalho menos e recebo mais, praticamente. Trabalhar em casa abriu muito meus olhos para a questão de empreender. Penso seriamente em não voltar a trabalhar de empregado, mas, sim, investir em formar uma empresa no futuro”, projetou.

Mudanças no trabalho em equipe

Para gestores e líderes, o desafio de adaptar-se ficou um pouco maior. O supervisor Victor Falcão, de 22 anos, trabalha no setor administrativo do Pátio Gourmet, e disse que a substituição da carga horária pela meta de demandas diárias foi a que mais serviu nesse período à distância para alinhar a equipe.

“Na primeira semana, a equipe ficou mais relaxada mas conseguimos nos reeducar, e hoje, sermos mais práticos. Não que ficou mais fácil, mas estamos mais alinhados. Eu prefiro o trabalho presencial, porque hoje eu preciso esperar para conseguir falar com alguém; não tem a agilidade de resolver rápido pelas conversas ao vivo”, detalhou.

Em contrapartida, o tempo de trabalho dos quase 15 funcionários do setor dele aumentou, quase 30%, de acordo com os trabalhos por demanda, segundo ele. Adiantar tarefas futuras também é válido para encorajar a equipe, podendo “sair” mais cedo nos dias subsequentes. Para o gestor, em si, a maior dificuldade é a disciplina pessoal.

“Como o chefe não está vendo, pode-se tirar meia hora para dormir, mas isso pode virar duas horas. Fora que também a equipe não há a acessibilidade de antes, que a empresa oferecia presencialmente. Perdemos um pouco de velocidade. Aquilo que a gente fazia em meia hora, hoje leva em média de uma a uma hora e meia”, completou.

Direitos e deveres

A advogada Tamyres Kutchma explicou que Governo Federal tem buscado adequação na legislação trabalhista no período pandêmico, para facilitar a relação de patrões e empregados. A MP 927/2020, por exemplo, prevê que o empregador poderá, a seu discernimento e sem aviso prévio, alterar o regime usual para o home office.

“Todavia, a alteração deverá ser informada ao empregado com antecedência de no mínimo 48h, por escrito ou por meio eletrônico (e-mail, WhatsApp)”, esclareceu. Quando os funcionários não têm as condições necessárias, como equipamentos e infraestrutura, o empregador poderá fornecer via regime de comodato e contratar planos de internet e telefonia, por exemplo. Sem caracterizar o uso da verba salarial.

“Em regra, os funcionários em ‘home office’ são dispensados do controle de ponto, contudo, como a pandemia é eventual, e como forma de administrar a prestação de serviço de seus funcionários, as empresas podem estabelecer uma forma de controle. Seja por tarefa ou por produtividade ou através softwares e sistemas de intranet”, completou.

Uma ressalva sobre a cobrança de uso por aplicativos ou serviços fora da jornada de trabalho comum do empregado, como responder a mensagens no grupo do trabalho, não estão previstas em lei. Salvas exceções de quando o contrato especificar. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) prevê que os direitos e deveres não diferenciam-se do trabalho presencial.

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