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20 de outubro de 2021
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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – Nos seis primeiros meses deste ano, o desmatamento na Amazônia brasileira registrou um recorde de 3.070 quilômetros quadrados. A área devastada marca um aumento semestral de 25% na comparação com os 2.446 quilômetros quadrados desmatados no mesmo período do ano passado, de acordo com o relatório com base nas observações de satélite do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os dados foram ainda confirmados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), na última sexta-feira, 17, dias após as duas maiores apreensões de madeira ilegal no Amazonas e no Pará, que, somadas, resultaram em cerca de 4 mil metros cúbicos de madeira retiradas da floresta.

Com base nos dados oficiais divulgados pelo Inpe, em junho passado, o desmatamento atingiu 1.034,4 quilômetros quadrados em junho, contra 934,81 quilômetros quadrados no mesmo período em 2019, o pior mês de junho da série histórica iniciada em 2015.

A extração ilegal de madeira, a mineração e a pecuária em áreas protegidas são as principais causas de destruição, que em 2019 superou pela primeira vez desde 2008 a marca de 10 mil quilômetros quadrados, de acordo com outro sistema de observação por satélites do Inpe, o Prodes, mais ajustado que o Deter.

O desmatamento parece não dar trégua, apesar da presença militar incorporada à vigilância ambiental e da pressão internacional e empresarial.

A tendência provoca alarmes devido ao início da temporada de secas em junho. Em 2019, o desmatamento disparou em julho, a 2.255,33 quilômetros quadrados de superfície na Amazônia.

A temporada seca também é o período de incêndios em áreas desmatadas, que este ano provocam uma preocupação dupla, tanto por seu impacto ambiental como pelo fato de que a fumaça geralmente provoca um aumento das doenças respiratórias, que este ano acontecerá em plena pandemia de Coronavírus.

Na Amazônia brasileira, 20% da floresta já foram desmatados (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Desmatamento por região

Segundo dados divulgados pelo Inpe, entre julho de 2019 a maio de 2020, foram desmatados mais de 566 mil hectares de floresta, 233 mil hectares, só no Estado do Pará, sendo Altamira, a região do Estado que mais possui área desmatada no Brasil

De acordo com o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, José Mauro de Almeida, ações estão sendo intensificadas no município para combater o desmatamento e as queimadas ilegais na região. 

“Altamira entra na estratégia global da Força Estadual de Combate ao Desmatamento. Nós já fomos até o município, pessoalmente, e fizemos diversas autuações. Também foram abertos inquéritos pela Polícia Civil por crimes ambientais. Mas, nós vamos voltar a Altamira em julho, agosto e setembro deste ano, principalmente, nos dez municípios que mais desmatam no Pará para coibir ações como essas”, destaca José Almeida.

No Amazonas, as regiões Sul  e Leste do Estado são as áreas com maior índice de desmatamento por conta das atividades agrícolas e pecuárias nos municípios. Uma operação da Secretaria Estadual de Meio Ambiente em parceria com o Exército trabalham para combater o escoamento ilegal da floresta, segundo alerta o secretário de Meio Ambiente do Amazonas, Eduardo Taveira.

“Nós temos um Centro de Inteligência trabalhando em conjunto com o governo federal por meio do Comando Militar da Amazônia, onde a gente integra nossas ações. Ou seja, o Estado trabalha nas áreas estaduais e o governo federal atua nas áreas federais, no entanto, integramos essas ações para poder reduzir custos logísticos e aproveitar essas caronas para ter mais capilaridades nessas ações”, relatou o secretário de Meio Ambiente do Amazonas.

O Greenpeace acompanha com preocupação os números de desmatamento na Amazônia. segundo o porta-voz da ONG, na região Amazônica, Rômulo Batista, o ano de 2020 pode bater o recorde do ano passado se as ações do governo federal não forem mais incisivas na Amazônia Legal.

 “O desmatamento já vinha crescendo desde 2012, mas o que observamos nos últimos 16 meses é um crescimento muito grande. Em 2019, a taxa oficial ficou em mais de 1 milhão de hectares, isso equivale a mais de 1 milhão de campos de futebol perdidos da floresta mais biodiversa do mundo, onde você tem mais formas de vida. Foram incontáveis árvores e animais que morreram por conta disso”, enfatiza Rômulo Batista. 

Nos maiores estados da região Norte, Amazonas e Pará desenvolvem diversas ações para combater o desmatamento nessas áreas. Só no Estado do Pará, este ano foram apreendidos cerca de 4.696 metros cúbicos de madeira ilegal. 

O secretário de Meio Ambiente do Pará afirmou que será instituído este mês o plano de governo ‘Amazônia Agora’, baseado em três pilares: “Vamos instituir o plano Amazônia Agora, que inclui um plano de Repressão, outro de Indução de Boas Práticas Ambientais e o Fundo Amazônia Ambiental, que será uma espécie de ‘colchão’ financeiro para todas as estratégia do ‘Amazônia Agora’ e o programa Regulariza Pará, que vai auxiliar quem aderir ao Plano ‘Amazônia Agora’ poderá ter prioridade na regularização ambiental e fundiária na estratégia do Estado do Pará”, garante o secretário.

Já Eduardo Taveira destaca ainda que o Centro de Inteligência do Estado tem identificado os alertas de desmatamentos emitidos pelo Inpe. “Este mês, inclusive, identificamos o aumento dos focos de calor, que indicam que podem já haver queimadas, nesse início de verão. Estamos fazendo esse trabalho baseado nesse plano que é frear o aumento do desmatamento nos próximos dois anos e reduzir em 15% em relação aos índices do ano passado”, conclui.   

O ponto de vista científico

Durante a webconferência “Desmatamentos e Queimadas na Amazônia”, promovida pelo Tribunal de Contas do Amazonas (TCE), na sexta-feira, 17, o climatologista Carlos Nobre e o ex-presidente do Inpe, Ricardo Galvão, debaterem sobre o crescimento das queimadas e do desmatamento na região amazônica.

Para um dos maiores especialistas do mundo na Amazônia, o climatologista Carlos Nobre, a Amazônia em pé, associada a uma nova indústria, trará riquezas muito maiores que a gerada por sua destruição.

“A floresta amazônica integra o sistema climático que sustenta a agricultura e o PIB do País. Vem da Amazônia boa parte da umidade, as chuvas, das quais dependem o Brasil e a América do Sul. É um sistema que existe há milhões de anos e está sob ataque”, afirma o cientista.

Segundo Nobre, a floresta amazônica é um ecossistema único, diferente das florestas tropicais, pois ela evoluiu com a maior biodiversidade do planeta, criando condições para sua própria existência. Além disso, ela tem um sistema biológico com capacidade de reciclar os nutrientes e de gerar grande parte de chuva, por isso ela se mantém viva.

Nobre aponta alguns fatores como os responsáveis pelo desaparecimento da floresta amazônica. “O que causa esse risco ao desaparecimento da floresta amazônica são fatores antropogênicos, as mudanças climáticas, o aquecimento global, o desmatamento regional e as queimadas, o aumento da vulnerabilidade da floresta amazônica ao fogo. Esses são os três fatores que estão acontecendo ao mesmo tempo, eles interagem e o efeito sinergístico deles leva ao risco do desaparecimento da floresta”, avalia o pesquisador. 

O cientista ressalta ainda que há pontos de queimadas fora da amazônia brasileira.

“Claramente a maior parte dos desmatamentos está no chamado arco do desmatamento que é a fronteira da floresta Amazônica brasileira com o Cerrado. Mas também temos desmatamentos nas bordas da floresta Amazônica com a Colômbia, Peru, Bolívia e com os Andes. Esse número corresponde entre 16% a 17% de floresta já desmatada. Na Amazônia brasileira, já desmatamos 20% da floresta. Esses dados de satélites chegam para os órgãos de fiscalização diariamente e mostram quase 100% das áreas sendo desmatadas. O que falta de fato são ações efetivas de fiscalização”, alerta o climatologista.

Carlos Nobre aponta também que o desmatamento vem crescendo desde 2015. “O desmatamento vem crescendo desde 2015 e aumentou muito em 2019. E até o começo de julho deste ano, os dados do Inpe mostram uma tendência de continuidade desse aumento. As queimadas têm um enorme impacto na saúde, mas temos que prestar atenção nos dados do desmatamento porque depois que desmatou, em algum momento o que foi derrubado, vai ser queimado. Por isso, é importante que esses dados sejam avaliados e levados em consideração para monitorar e ver a efetividade das políticas de controle do desmatamento ilegal. Haja visto, que 80% de todos os desmatamentos na Amazônia eram ilegais, ou seja, eram crimes ambientais”, enfatiza o pesquisador.

Outro fator preocupante na Amazônia são os incêndios florestais, pontua o climatologista. “O menor ano do desmatamento foi 2012, em seguida aumentou um pouco até 2014. Isso mostra que a floresta amazônica está ficando mais tolerável ao fogo. Ela, que tradicionalmente é muito úmida e resiliente ao fogo, com esses fatores, do aquecimento global, fragmentação florestal e as secas intensas, fez subir a temperatura na região em torno de 1,5º grau. Todos esses fatores juntos levam a floresta amazônica a ficar vulnerável e o fogo começa a se propagar de uma forma que não acontecia há 40 anos”, conclui.

Carlos Nobre ressaltou também que a Bacia Amazônica tem um pouco mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, sendo 6,2 milhões de quilômetros quadrados de floresta original. O Brasil perdeu 800 mil quilômetros quadrados para o desmatamento, esse aumento foi de 2000 a 2017.

Já o ex-presidente do Inpe, Ricardo Galvão, afirma que emitiu cerca de 15 alertas sobre desmatamento, quando ainda estava no órgão.

“De abril a junho de 2019, cerca de 15 alertas por dia foram emitidos para o Parque Nacional do Jamanxim, sem nenhuma ação de fiscais do IBAMA. Então não me diz que não tem jeito porque era só subir essa estrada e tomar as ações necessárias para combater o desmatamento”,  

Ricardo Galvão aponta ainda que os desmatamentos da Amazônia são causados pelos garimpos ilegais instalados na região.

“Está documentado, são mais de sete mil garimpos ilegais. Eles queimaram, eles colocaram fogo na floresta. Então é disso que nós temos que tratar. Não é só o pobre que vai lá derruba e coloca fogo na floresta. Eu estive pessoalmente nesses garimpos e vi muito equipamento, muito dinheiro investido nesses garimpos. Portanto é isso que eu peço que o TCE tenha suas ações pro-ativas isso que tanto degrada a nossa floresta Amazônica”, comentou o ex-presidente do Inpe.

Apreensões recorde na Amazônia Legal

Mais de dois mil metros cúbicos de madeira ilegal foram apreendidos pelo Batalhão de Polícia Ambiental do Amazonas (BPAmb/PMAM) na última quarta-feira, 15, na comunidade Santo Antônio, localizada no município de Manacapuru (a 87 quilômetros de Manaus). A quantidade cresceu 486% em comparação aos 346 metros cúbicos de madeira apreendidos ano passado. No acumulado de 2020 já foram recolhidos apenas pelo batalhão o equivalente 2.648 metros cúbicos de madeira.  

Segundo o comandante-geral da PM-AM, Coronel Ayrton Norte, a operação integra outras vertentes de ações para combater crimes ambientais. “A policia militar do Amazonas está em operação para prender todo e qualquer ato ilícito contra o meio ambiente”, enfatizou.

Já no Pará, em junho, toras de madeiras de árvores centenárias como Jatobá, Maçaranduba e Cupiuba, da região amazônica sem documentação foram entregues pela Marinha do Brasil à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), na ilha de Outeiro (a 25 quilômetros de Belém, no Pará). A estimativa inicial era de que carga tivesse 1,3 mil metros cúbicos de madeira em tora, quantitativo suficiente para encher 65 caminhões.

A madeira foi apreendida durante ação de rotina da operação Verde Brasil II, do governo federal.

(*) Colaborou o jornalista Gabriel Abreu, da Revista Cenarium