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23 de janeiro de 2022
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Andréa Vieira e Gabriel Abreu – Da Revista Cenarium

MANAUS – O Festival Folclórico de Parintins, celebração da cultura popular amazonense marcada pelo duelo entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido e realizado, tradicionalmente, no último fim de semana de junho, no Centro Cultural de Parintins – Bumbódromo, foi adiado pelo segundo ano consecutivo por conta da pandemia da Covid-19. No município, que fica a 372 quilômetros distante de Manaus em linha reta, as agremiações e toda uma cadeia de trabalhadores que depende do evento acumulam prejuízos.

O evento costuma reunir em três dias cerca de 40 mil pessoas, entre moradores e turistas, que assistem nas arquibancadas, conhecidas como galeras, ao espetáculo de lendas, luzes, cores, mitos e mistérios da floresta. Sem o festival e as luzes e cores das nações azul e branca e vermelha e branca, os reflexos na ‘Ilha Tupinambarana’ vão muito além da saudade dos três dias oficiais de festa e ressaltam problemas socioeconômicos para a população e Associações Folclóricas do Boi-Bumbá Caprichoso e Boi-Bumbá Garantido, que empregam centenas de parintinenses.

Os impactos financeiros ultrapassam R$ 15 milhões dentro das associações, segundo estimativa do presidente do bumbá Garantido, Antônio Andrade. “A receita foi totalmente prejudicada e isso se estendeu para diversos setores que movimentam o festival. Calculamos uma perda de receita na ordem de R$ 15 milhões, já que são dois anos sem fluxo de caixa. Isso tudo faz falta à economia de Parintins. Não temos, ainda, ideia do impacto na cadeia turística do Amazonas, já que o festival gera receitas em Manaus e Parintins”, detalhou.

Para o boi Caprichoso, a expectativa não é diferente. Segundo o presidente, Jender Lobato, a agremiação precisou refazer o planejamento financeiro, para cumprir as obrigações e atender às necessidades básicas dos colaboradores.

“O Boi Caprichoso perdeu muita coisa durante os dois anos, principalmente sobre a manutenção do seu quadro artístico, porque sem a realização do festival, automaticamente, não temos o apoio dos patrocinadores e todo aquele projeto artístico idealizado, você não consegue realizar. É um prejuízo muito grande, pois o festival é uma cadeia que atende a milhares de pessoas não só os trabalhadores diretos e indiretos”, explicou Lobato.

Serviço e atrativo turístico

A categoria dos tricicleiros também foi muito afetada pela não realização do festival. O meio de transporte é um dos atrativos turísticos do Festival de Parintins e é também um serviço muito conhecido na cidade. O ‘veículo’ encanta os visitantes, sendo item essencial e de destaque pela originalidade nas decorações no período do evento. Nas semanas que antecedem a grande festa, os condutores aumentavam os lucros, em média, de R$ 900 a R$ 1.200 durante as festividades.

Presidente da Associação dos Tricicleiros de Parintins (Atpin), Jackson Santos lamentou à REVISTA CENARIUM a não realização da festa por mais um ano. “É uma dificuldade muito grande, principalmente para a categoria, pois eles se preparam o ano todo para o festival. Muitos deles sobrevivem com a renda desse meio de transporte. É lamentável, pois não vai ter festival de novo e isso não depende só de nós, porque a pandemia afetou diretamente diversas instituições envolvidas na festa”, contou Santos.

O sabor da ilha

“Com muita ou pouca goma?” “Com cebola e cebolinha?” “Com muito ou pouco camarão?”… A quantidade dos ingredientes que vai compor a cuia com tacacá fica ao gosto do freguês, mas a simpatia dispensada por dona Lucineia Andrade de Souza, 71 anos, conhecida tacacazeira de Parintins, é distribuída aos quilos e sem medida. Ela vende seu tacacá na Praça da Cultura, Centro da cidade há, pelo menos, 15 anos.

Sem festival pelo segundo ano consecutivo, a queda nas vendas afetou diretamente a vida de Lucineia. Mesmo com seus clientes fixos, ela relembra com tristeza os bons tempos de faturamento durante os três dias da grande festa. “Tem dias que é bom, mas tem dias que é ‘devagar’! Bom mesmo era na época do festival. A cidade ficava cheia e a gente dobrava as vendas e o lucro era duas vezes maior”, conta.