Ansiedade deflagrada pela Black Friday pode gerar oniomania, afirma especialista

Bom exemplo: a advogada Rebeca Almeida, de 28 anos, se prepara todos os anos para aproveitar as ofertas da Black Friday sem estourar o orçamento. (Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo)

Com informações do Infoglobo

RIO — Desde 2016, a advogada Rebeca Almeida, de 28 anos, se organiza para fazer boas compras na Black Friday. Nessa data, ela costuma adquirir roupas para as festas de fim de ano, produtos para cabelo e os presentes de Natal. 

“A Black Friday me traz várias emoções. Me organizo, começo a monitorar os preços dos itens que eu quero e em outubro já corto gastos. Costumo aproveitar todas as promoções dos itens que desejo, sempre colocando um limite máximo para os meus gastos, não ultrapassando aquilo que eu posso pagar. Mas fico muito ansiosa com a expectativa de fazer boas compras em um prazo curto”, conta a advogada.  

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É comum se sentir ansioso diante da expectativa de encontrar boas ofertas na Black Friday, principalmente quando o item desejado é de real necessidade. No entanto, é preciso ter controle para não se empolgar diante das promoções, comprar além do planejado e estourar o orçamento – e isso não vale só para o bolso, mas para a saúde.

Um estudo conduzido na última Black Friday pela startup de inteligência artificial Emotions Meter, que analisa sentimentos nas redes sociais, identificou em usuários do Twitter que a ansiedade está entre as principais sensações do consumidor em relação à Black Friday — e quanto mais perto da data, mais intensa ela é.   

O sentimento de urgência e o marketing de escassez (único dia para comprar com desconto), características da data, podem aflorar a oniomania: compulsão por compras.

Segundo Danielle H. Admoni, psiquiatra na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pessoas que se encaixam nesse perfil compram compulsivamente produtos inúteis, repetidos e que nunca serão usados e são vítimas de um círculo vicioso. “A pessoa percebe que não deveria ter comprado, se sente frustrada e acaba querendo comprar mais para compensar aquela sensação de frustração”, explica a médica. 

Mulheres representam a maioria dos que sofrem com a oniomania. A psiquiatra Admoni afirma ainda que essas pessoas só percebem que estão perdendo o controle sobre as compras quando começam a se endividar, estourar o cartão de crédito e esconder das pessoas com quem dividem a casa os itens adquiridos em excesso.

Se no mundo pré-Covid a dica para evitar compras compulsivas era sair sem o cartão de crédito e levar apenas o dinheiro contado para pagar pelo item que motivou a saída, agora a orientação é se descadastrar de todas as lojas que mandam e-mails e mensagens informando sobre promoções. Além disso, quem sofre de oniomania deve evitar navegar em sites de compras, pois a tentação é grande. Rebeca Almeida, que criou um grupo para compartilhar promoções com suas seguidoras do Instagram, conta que algumas participantes já pediram para deixar de receber suas mensagens por estarem gastando demais.

A condição tem tratamento, no entanto.

“Normalmente indicamos a psicoterapia para que a pessoa entenda os motivos que a levam a gastar compulsivamente. Em alguns casos, quando observamos que a oniomania está associada a um quadro depressivo, por exemplo, pode ser necessário o uso de medicação”, esclarece Admoni. 

Uma das formas de tentar se desfazer desse vício por compras é passando a participar das reuniões dos Devedores Anônimos. Lá, os pacientes encontram pessoas que enfrentam a mesma luta e compartilham suas experiências.

Pesquisadores da Universidade Albert Einstein College of Medicine, em Nova Iorque, descobriram que as famílias de compradores compulsivos tendem a desenvolver outros transtornos para além da compulsão por compras, como transtorno de humor, alimentar e dependência química. 

“Outros estudos científicos mostram uma relação bastante próxima entre a oniomania com o transtorno obsessivo compulsivo e o transtorno bipolar”, afirma Adiel Rios, pesquisador no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 

O ato de comprar, no entanto, pode ter um papel positivo na saúde mental. De acordo com Rios, está no prazer de adquirir bens que desejamos. “Quando conseguimos, há liberação de neurotransmissores que proporcionam sensação de prazer e bem-estar. O sentimento é normal, desde que esteja dentro de um contexto mínimo de realidade”, afirma Rios. 

Os sinais de oniomania 

Descontrole financeiro 

A pessoa começa a comprar além do que pode pagar, gerando um descontrole financeiro e, consequentemente, um endividamento. Essa situação leva a mais frustração e vontade de fazer novas compras. 

Compras às escondidas

Esconder as compras realizadas passa a ser um hábito, já que a pessoa sabe que os demais a sua volta a criticarão por ter adquirido itens sem necessidade.

Peças repetidas, esquecidas ou nunca usadas 

A pessoa chega a comprar roupas ou sapatos sem sequer experimentar. E, muitas vezes, itens praticamente iguais, pois nem se lembra do que tem no armário, já que a maioria das peças, muitas ainda com as etiquetas, nunca foram usadas.  

Abstinência

Irritabilidade, extrema ansiedade e oscilações de humor. Essas são algumas das manifestações clínicas durante os longos períodos sem consumo. Os sintomas decorrentes da abstinência podem ser similares aos da dependência do uso de substâncias químicas, ocasionando desespero, perda de autoestima, sintomas de humor deprimido e ansiedade. 

Sensação de culpa após uma compra 

Como em outros transtornos, após efetuar uma compra e vivenciar a sensação de prazer, vem depois o sentimento de culpa e sofrimento. Quando acaba aquele bem-estar, ocorre uma sensação de impotência diante do descontrole da compra. Logo, surge o ciclo de “prazer-luto”, consequência da visão distorcida sobre a finalidade do consumo em nossas vidas.

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