25 de fevereiro de 2021

Com informações do Jornal da USP e FAESP

MANAUS – Um estudo publicado na revista científica The Lancet, nesta segunda-feira, 1, revela que um novo surto de Covid-19 na capital pode estar ligado à nova variante do vírus, potencialmente mais transmissível. A publicação contrasta com estudo divulgado pela plataforma medRxiv, em setembro de 2020, em que apontava “imunidade de rebanho” na população de Manaus.

A nova publicação também alerta para perda de anticorpos dos infectados na primeira onda da doença, em abril do ano passado. Com isso, os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) recomendam um aumento da vigilância sorológica e genômica para entender a dinâmica da nova linhagem do vírus, sua capacidade de reinfecção e o efeito das vacinas.

O aumento do número de internações por covid-19 em Manaus, no Amazonas, de 552 em dezembro para 3.431 em janeiro, tem surpreendido e preocupado os cientistas. O texto apresenta quatro hipóteses não excludentes para o surto de covid-19 que começou em dezembro na cidade de Manaus. A primeira é que a taxa de ataque, isto é, o número de pessoas infectadas, foi superestimada durante a primeira onda da doença, em abril do ano passado.

“Esta é sempre uma possibilidade, porém pelo menos 50% das pessoas mostravam anticorpos em junho, e esse valor seria grande o suficiente para evitar uma segunda onda, mesmo que a taxa não tivesse chegado a 76% em outubro”, afirma ao Jornal da USP a professora Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical (IMT) e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), primeira autora do texto.

Professora Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical (IMT) e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). (Divulgação/USP)

“Em geral, a prevalência nos doadores de sangue, em qualquer doença, é subestimada, pois pessoas com sintomas são excluídas da doação, o que pode ter influenciado na estimativa.”

A segunda hipótese é que houve uma possível diminuição da imunidade para o vírus em dezembro de 2020. “Pesquisas apontam que a infecção é rara em pessoas que apresentam anticorpos, mas esses estudos apenas seguiram as pessoas por seis meses”, aponta Ester.

“Ou seja, os novos casos em Manaus ocorreram de sete a oito meses depois do pico, quando ainda não existiam dados claros quanto à reinfecção”, destaca a professora.

Nova linhagem

O surgimento de uma nova linhagem do coronavírus, identificada em dezembro no Amazonas, é a terceira hipótese apontada pelo texto. “Desde dezembro, a variante do vírus vem sendo detectada em um número significativo de amostras de pacientes”, observa a professora. “Essa nova linhagem provavelmente tem mais facilidade para escapar do sistema imune do corpo humano”, destaca Ester.

A última hipótese apontada pelos pesquisadores é que a nova linhagem possui uma taxa de transmissão maior do que a anterior. “Com isso o limiar de imunidade populacional para bloquear um novo surto é maior”, ressalta Ester.

“É necessário intensificar ações de pesquisa que forneçam respostas que orientem ações de combate à doença”, reforça Sabino. Os pesquisadores indicam maior vigilância sorológica e genômica dos casos de covid-19, com atenção especial para ocorrências de reinfecção, inclusive pela nova linhagem. Também é sugerida uma investigação sobre a eficácia das vacinas contra o vírus e suas variantes, com a genotipagem de pessoas não vacinadas.

O texto foi elaborado por pesquisadores do Centro Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), que têm divulgado mensalmente dados de pesquisas com doadores de sangue em Manaus, incluindo informações genéticas, através de plataformas de acesso aberto. O texto Resurgence of COVID-19 in Manaus, Brazil, despite high seroprevalence, foi publicado no site da revista científica The Lancet em 27 de janeiro.

Imunidade de rebanho

Estudo divulgado em setembro de 2020, na plataforma medRxiv aponta que quando a cidade de Manaus (AM) vivenciou o pico da epidemia de COVID-19, em meados de maio, aproximadamente 46% da população local já havia contraído o SARS-CoV-2. Um mês depois, o percentual de infectados teria atingido 65% e, nos dois meses seguintes, teria se estabilizado em torno de 66%.

Na avaliação dos autores, essa taxa de infecção “excepcionalmente alta” sugere que a imunidade de rebanho pode ter contribuído significativamente para determinar o tamanho final da epidemia na capital amazonense.

“Ao que tudo indica, a própria exposição ao vírus levou à queda no número de novos casos e de óbitos em Manaus. No entanto, nossos resultados indicam uma soroprevalência bem mais alta do que a estimada em estudos anteriores, diz Ester Sabino, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coordenadora da pesquisa conduzida com apoio da FAPESP.

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