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16 de janeiro de 2022
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Com informações do Infoglobo

RIO e SÃO PAULO — Dificilmente há, neste momento, um brasileiro que não conheça ao menos três pessoas com sintomas de gripe ou Covid-19. Depois das festas, os postos de saúde de diversas capitais estão com espera de horas de pessoas buscando fazer testes e as farmácias já não conseguem atender a demanda.

Há cinco dias, a média móvel de casos de Covid está em um patamar superior ao dobro do cálculo de 14 dias atrás, o que demonstra forte tendência de alta. Enquanto isso, o surto de influenza avança pelo Brasil.

Nos laboratórios particulares, esse crescimento se reflete no aumento da testagem. No Grupo Fleury, foram feitos 615 testes para influenza em novembro. O número saltou para quase 37 mil em dezembro. Para Covid-19, foram feitos mais de 123 mil testes em dezembro. A Rede Dasa identificou uma alta de 55,3% nos exames RT-PCR entre novembro e o mês passado. Os testes de antígenos também tiveram mais procura e a positividade alcançou 24,27% em 2 de janeiro, maior patamar já registrado pela empresa.

Alta no Rio

O Rio sentiu os efeitos do fim de ano e da chegada da variante Ômicron. Somente ontem, a taxa de positividade para testes de Covid-19 foi na cidade de 13%. Até meados de dezembro, esse número não ultrapassava 1%. Havia a expectativa de que mais pessoas procurassem os postos para receber a dose de reforço, o que não ocorreu.

“Percebemos um aumento da positividade dos testes. Já chegamos a ter 0,7%. Hoje tivemos um percentual parecido com o de três meses atrás. Das pessoas que testaram hoje, 34% foram a outros municípios passar o período de festas. Percebemos muito cariocas voltando para o Rio com sintomas de Covid-19. Isso era previsível de acontecer”, disse o secretário de Saúde Daniel Soranz.

Em todo o estado do Rio, a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) registrou alta no número de testes rápidos para Covid com resultado positivo. Em novembro, foram 1.313, o equivalente a 4,4% do total. De 1º a 19 de dezembro, 2.349, ou 8,46% do total.

Em várias cidades do país, a explosão de sintomas respiratórios sobrecarregou redes de drogaria e unidades de saúde. Na cidade de São Paulo, em nenhuma das 25 farmácias contatadas pela GLOBO ontem havia disponibilidade de testes de Covid-19 para realização no mesmo dia. O Grupo DPSP, que inclui as Drogarias Pacheco e Drogaria São Paulo e está presente em nove estados, registrou um aumento de 101% nos exames de infecção por coronavírus na última semana de dezembro em relação à primeira.

A prefeitura da capital paulista informou que, apenas nos três primeiros dias de janeiro, foram realizados 20.333 atendimentos a pessoas com sintomas respiratórios, sendo 11.585 suspeitos de Covid-19. O resultado são longas filas de gente com tosse, dores no corpo, dor de garganta e febre.

A jornalista Cristiane Sinatura, 32 anos, foi uma dessas pessoas. Após uma viagem ao Rio, começou a sentir tosse. Na noite de réveillon, passou a ter febre, dor de garganta e dores pelo corpo. Na manhã de ontem, tentou uma consulta por telemedicina mas não havia previsão de atendimento devido ao excesso de chamadas. Então foi à farmácia e fez um teste rápido, que deu negativo para Covid-19. Mesmo assim, preferiu ir a um posto na Vila Madalena, mas desistiu ao saber que teria que ficar 2h30 na fila.

“Confio na vacina, tomei três doses, então não me preocupo tanto com a evolução, mas fico tensa por não saber o que eu tenho. Preciso descobrir até para entender quanto tempo devo ficar em isolamento”, afirma.

Elisângela Chable, empresária de 27 anos, pensou estar com gripe depois de ter febre de 39 graus e calafrios. Com o passar dos dias, surgiram a tosse e a dor no corpo. Diante disso, optou por enfrentar a espera de mais de três horas em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na Lapa.

“Decidi tratar em casa mesmo. Mas preciso saber o que tenho para seguir a vida. Não posso parar de trabalhar”, conta Chable.

Diante do aumento, a prefeitura paulista adquiriu 150 mil testes rápidos de influenza para serem utilizados nas 469 UBS do município. Apenas entre 30 e 31 de dezembro foram feitos 5.321 testes, com 26% de positividade.

Outras capitais

A situação se repete em outras capitais. Em Belo Horizonte, as unidades de saúde também estão cheias de pacientes com sintomas gripais. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Norte, a fila de espera para atendimento de pacientes com sintomas respiratórios era de 3,5 horas. Em nota ao GLOBO, a prefeitura informou que para suprir o aumento na demanda decidiu ampliar o horário de funcionamento de nove Centros de Saúde — um por regional, de forma escalonada.

Já em Curitiba, a procura de testes de Covid-19 vem aumentando, assim como os diagnósticos positivos, desde 22 de dezembro. De acordo com o endocrinologista Mauro Scharf, responsável técnico pelo laboratório Unimed Curitiba, em novembro e no início de dezembro, o laboratório realizava, em média, 100 a 150 exames de Covid por dia. No final do ano, esse número começou a subir e hoje são realizados cerca de 600 exames diários. A taxa de positividade passou de 2,2% no dia 24 de dezembro para 38% em 2 de janeiro.

No Hospital Moinhos de Vento, um dos principais de Porto Alegre (RS), houve aumento gradativo dos atendimentos por síndrome gripal. Em 25 de dezembro, a proporção desses atendimentos era de 35%, passando para 50% no dia 2 de janeiro. No mesmo período do ano passado, pacientes com sintomas respiratórios representaram em torno de 20% do total de atendimentos. Por outro lado, os sintomas apresentados pelos pacientes são leves e as internações são raras, de acordo com o hospital.

Piora à vista

Para o infectologista Alberto Chebabo, vice-diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), já existe um aumento de casos de Covid-19 e influenza no Brasil decorrente das confraternizações de fim de ano e do Natal, causado pela variante Ômicron. Mas isso irá piorar nas próximas semanas.

“Sem dúvida teremos uma explosão de casos de Covid-19 nas próximas semanas, como aconteceu em todos os outros países”, alerta o médico.

Porém, ele ressalta que esse aumento não é culpa exclusiva do Réveillon. “Muitas pessoas ficaram preocupadas com os fogos de Copacabana, por exemplo, mas reuniões com muitas pessoas em ambiente fechado, como é mais comum no Natal ou nas confraternizações, tem um risco muito maior de transmissão. As pessoas estão se expondo sem nenhuma restrição”.

Agora, segundo ele, é necessário aumentar a testagem e a proteção individua. “O Brasil ainda testa pouco. É importante aumentar a capacidade de testagem. Para isso, o Ministério da Saúde precisa comprar testes e distribuir para os municípios para que estejam disponíveis na rede pública. E quem estiver sintomático deve ficar isolado em casa”, recomenda.