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19 de outubro de 2021
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Na minha já longa vida de leitor, não me lembro de ter lido e relido tantas vezes um livro quanto “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector. Até onde consigo esticar a memória, penso mesmo que foi meu primeiro encontro com ela. E logo resultou numa admiração inabalável pelos seus escritos. Tanto que em 2017, quando veio a minha epifania de desapego e doei para bibliotecas públicas e amigos quase todos os livros de minha biblioteca, não tive coragem de me afastar de Clarice.

Lembro-me muito bem disso. Estava em casa, sentado em uma cadeira diante da minha então biblioteca. Ao meu lado, à direita, uma caixa de papelão onde estava acomodando alguns livros. À minha frente, ao alcance das mãos, uma prateleira com autores brasileiros. Fazia um esforço medonho para não ter arrependimentos ou recaídas. De cabeça baixa, esticava o braço, pegava dois ou três livros e hospedava-os na caixa com aparente indiferença, sem olhar para os títulos.

Eis que num dado instante deu-se um inusitado acontecimento. De repente tateei um dos livros na estante. E não sei por quais cargas d’água não me contive e olhei o título. Era o segundo exemplar que eu havia comprado de “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” e o último de Clarice na prateleira. Fiquei por uns segundos absorto em meu próprio espanto. Seria coisa de bruxaria? Bom, pensei, em se tratando de Clarice não é bom duvidar. Olhei desconfiado para um lado, para o outro e para cima. Parecia estar mesmo sozinho naquele espaço. Não contei dúvida. Resgatei da caixa de papelão já quase cheia todos os outros livros sitiados de Clarice. Inclusive uma edição de capa dura com “Todos os contos”, apresentada por Benjamim Moser, confessadamente o mais ardoroso fã da escritora. Resultado: Clarice continua vivendo perto do meu coração não tão selvagem.

Mas voltando ao “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, desde a primeira leitura e as sucessivas releituras em diferentes momentos, sempre dei mergulhos profundos na história de Ulisses e Lóri, os personagens centrais da narrativa. Talvez pelo desejo de extrair da aprendizagem deles o máximo de aprendizagem para minha própria aprendizagem. E curioso: a cada releitura nunca deixei de me deparar com novas descobertas nesse texto de Clarice, o que atesta, pelo menos para mim, a extraordinária e envolvente riqueza de sua abordagem. A determinação madura de Ulisses para esperar Lóri e a determinação obstinada de Lóri para empreender seu duro processo de aprendizagem, até se sentir pronta para o reencontro com Ulisses, sempre me comoveram. E muito.

Da mesma forma que sempre me encantou a ousadia inovadora de Clarice em iniciar o romance com uma vírgula e concluí-lo com dois pontos. Na primeira leitura, tinha eu meus vinte e poucos anos, aquele sinal gráfico abrindo o parágrafo me incomodou. Julguei tratar-se de um erro de impressão. Não dei bola para aquele detalhe. Mas só até chegar ao final inusitado e carregado de sentidos do romance, com a última fala de Ulisses:

“– Eu penso, interrompeu o homem e sua voz estava lenta e abafada porque ele estava sofrendo de vida e de amor, eu penso o seguinte:

A princípio fiquei perplexo. E só então pude juntar as duas peças propositalmente postas por Clarice no início e no fim do romance: Lóri está pronta para o encontro com Ulisses, mas a aprendizagem para a vida será uma busca permanente, incansável, sem trégua. Décadas depois do primeiro encontro, o livro de Clarice continua a repercutir em minha vida. Tendo eu chegado aos setenta anos, confirmo todos os dias que meu processo de aprendizagem é um permanente devir. 

A propósito, lembro-me ainda de que o meu primeiro exemplar desse livro de Clarice foi tantas vezes lido e relido, que as margens das páginas já não comportavam espaço para mais anotações. Sempre novas anotações. Penso que nelas, nas margens das páginas, eu acabei reescrevendo, ao meu modo, outras tantas versões do romance, tal meu encantamento pela obra. Pena que esse dito exemplar me fugiu das mãos. Talvez em uma de minhas tantas mudanças. Talvez eu o tenha emprestado. Sei lá. Nunca tive pistas de seu paradeiro. Claro que, como disse, não resisti à perda e comprei outro. Mas aquelas memórias paralelas se perderam de mim. Coisas de bruxaria mesmo. Coisas de Clarice.

(*) Odenildo Sena é linguista, com mestrado e doutorado em Linguística Aplicada e tem interesses nas áreas do discurso e da produção escrita.

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