‘Arte incomoda mais que pedofilia’: fotógrafa vai à Justiça após ter imagens artísticas censuradas

Com informações Infoglobo

RIO — Criado em 2016 pela paulista Pamela Facco, de 36 anos, o projeto “Poesia com Elos” surgia de forma despretensiosa resgatando a essência natural dos corpos nus de mulheres. Atualmente com mais 25 mil seguidores em seu o perfil nas redes sociais, a fotógrafa, que não havia sofrido nenhum tipo de censura durante dois anos de trabalho, viu tudo mudar em 2018 quando foi banida pela primeira vez de uma rede social.

A punição foi aplicada pelo Instagram sob a alegação de que ela tinha violado regras que proíbem nudez ao publicar fotos de um ensaio artístico para exaltar formas não  padronizadas de corpos de homens e mulheres. Ali começaria uma batalha judicial que ainda não terminou.

Ensaio fotográfico de Pamela Facco no projeto @poesiacomelos Foto: Pamela Facco / Arquivo Pessoal/divulgação
Ensaio fotográfico de Pamela Facco no projeto @poesiacomelos Foto: Pamela Facco / Arquivo Pessoal/divulgação

Ela obteve uma sentença favorável da 1ª Vara Cível de Santo Amaro, que obrigou o Instagram a devolver a ela a conta retirada do ar, que à época tinha 6 mil seguidores. A disputa, entretanto, não parou porque a empresa recorreu, levando o caso ao Tribunal de Justiça de São Paulo. O recurso não foi acolhido. A determinação da Justiça foi para que a plataforma não derrubasse ou excluísse qualquer postagem no perfil da artista, que chegou a ficar nove meses desativado.  Mas, na última quarta-feira, 13, Pamela usou a rede social para denunciar mais uma  exclusão, desta vez sem precedentes, de uma postagem de 10 fotos de um casal de lésbicas que ela havia acabado de publicar.

“Quando eu tirava fotos de mulheres consideradas dentro dos padrões da sociedade, tudo bem. Ao abrir meu olhar artístico para novos horizontes, trazendo o corpo real e fugindo dos padrões, fui censurada. O problema nunca foi a nudez, afinal está cheio de páginas de nudez erótica no Instagram. A própria Playboy faz isso e tem o selo verificado e aprovado pela plataforma e pela sociedade. O que incomoda é quando a nudez trata de pautas feministas e de diversidade. As pessoas não estão acostumadas a ver um corpo nu de maneira artística e não sexual. Mostrar duas mulheres livres, felizes com seus corpos e que não contemplam o fetiche masculino incomoda demais — critica.

Postagem removida no perfil da fotógrafa Pamela Facco Foto: Pamela Facco / Divulgação/ Redes sociais
Postagem removida no perfil da fotógrafa Pamela Facco (Foto: Pamela Facco / Divulgação/ Redes sociais)

A fotógrafa que faz questão de afirmar que há “machismo” por parte da ferramenta, diz não ser a única a sofrer “censura” e “discriminação” na  rede social por compartilhar fotos de nu não convencional. Pamela relata que existem outros artistas que, assim como ela, também tiveram seus perfis retirados sob a alegação de descumprirem a Política de Nudez da plataforma. Entretanto, ainda de acordo com ela, um dos argumentos e provas que a ajudou na defesa do caso foi apresentado pela advogada dela ao mostrar perfis que postam fotos de partes íntimas, em teoria proibidas pelo Instagram, mas que não foram retirados do ar.

“Me causa muita estranheza a arte incomodar mais do que a pedofilia, a violência policial, o machismo… As pessoas atravessam as plataformas para fazer o mal a outras pessoas porque simplesmente não gostam do que veem. Nos ridicularizam nos comentários e por isso somos derrubados. Muitas vezes, as plataformas que censuram os artistas acabam dando brecha e permitindo a atuação desses haters que prejudicam nosso trabalho e mancham a imagem de artistas que usam a ferramenta para obter o sustento. Quando uma página como a minha é censurada isso significa que estão assassinando a minha voz. Querem nos calar e nos vencer pelo cansaço. Nós, artistas, estamos esgotados disso. Queremos espaço para mostrar a nossa arte que incomoda mesmo. Mas arte nunca foi para ser bonita e sim  para mostrar as dores do mundo. Do mundo real —  desabafa Pamela, acrescentando que manterá o processo contra a plataforma na Justiça.

Ensaio fotográfico projeto @poesiacomelos de Pamela Facco Foto: Pamela Facco / Divulgação/ Redes cociais
Ensaio fotográfico projeto @poesiacomelos de Pamela Facco (Foto: Pamela Facco / Divulgação/ Redes sociais)

Procurado, o Instagram informou que “o conteúdo foi removido indevidamente, mas já foi restaurado” e que o processo levantado pela fotógrafa segue em segredo de Justiça e, por isso, não pode ser comentado pela empresa. A plataforma acrescentou ainda que desde março vem disponibilizando informações, por meio de conteúdos em vídeo sobre as “diretrizes da comunidade”, respondendo questões relacionadas às políticas de nudez da rede social. Mas não detalhou quais são os critérios utilizados por eles para decidir que página ou conteúdo será excluído.

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