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25 de julho de 2021
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Ana Paula Freire – Especial Para Cenarium

MANAUS – Ela veio de El Tigre, Estado de Anzoátegui, Venezuela. Na bagagem, apenas bonecos, meia dúzia de roupas e alguma esperança de um futuro melhor. Até então, Mauyoli Amiruy Yaguare Perez, 32 anos, estudava engenharia mecânica na Universidad Politécnica Territorial José Antonio Anzoategui, cuidada dos filhos Esteban, 13, e Mauro, 9. Vivia de sua arte, o crochê, tinha um espaço para expor seu trabalho em um clube reconhecido da cidade, participou de feiras culturais e vendia pela internet. Com a crise econômica, os clientes sumiram, a situação ficou cada vez mais difícil, e o fantasma da fome assombrou. Foi quando ela decidiu tentar a sorte no Brasil.

“Chegou um momento que eu não vendia mais nada, era grande a escassez de alimentos, a situação era muito precária e eu não podia mais sustentar minha carreira na universidade, não tinha dinheiro para levar meus Filhos para a escola, pagar o aluguel, às vezes eu não tinha nem o que comer em casa, era uma situação muito triste. Imagine ver seus filhos fracos e famintos, sem energia, e você com as mãos amarradas, sem poder fazer nada”, relembra, emocionada. “E não era só eu, muitas famílias venezuelanas estavam nessa condição. Se você tem dinheiro, não tem nada para comprar, e se não tem, aí toca você com mais força”.

Ela fez várias bonecas e vendeu para conhecidos da igreja (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Diante das dificuldades e sem esperança de que a situação melhorasse, Mauyoli e o parceiro Juan decidiram migrar para o Brasil. Chegaram em 2018. Antes, foram obrigados a vender tudo o que tinham, e ela investiu o que arrecadou em material (fios, recheios etc.) para fazer peças de crochê e vendê-las quando aqui chegasse. Fez uma boa coleção de bonecos – “todos muito fofos”, diz, orgulhosa – e outra coleção de tops recortados em malha. A nossa ideia era vir, trabalhar mais ou menos três meses, comprar comida e depois voltar. “Por isso, pedi aos meus pais que cuidassem dos meus filhos, enquanto me aventurava nesta caminhada sem saber o que esperar”.

Depois que terminou a produção, decidiram marcar a data da viagem. Em 21 de junho, chegaram a Boa Vista. Mauyoli conta que o começo foi muito difícil. Não tinham recursos, apenas um pouco de dinheiro para sobreviver por dois ou três dias, enquanto tentariam vender a arte em crochê ou, quem sabe, arrumar um emprego. A viagem, em ônibus convencional, durou 16 horas até Pacaraima, onde ficaram dois dias para providenciar documentos. Depois, seguiram até a capital roraimense por mais três horas. Souberam que lá havia abrigos para venezuelanos. Ela lembra de terem rezado muito para que fossem acolhidos até acharem um canto. A realidade foi dura.

“Infelizmente, não fomos aceitos em nenhum abrigo, estavam todos extremamente cheios, sem espaço para mais ninguém. Foi então que durante três meses tivemos que viver na rua, dormindo em praças, galpões abandonados, foi uma experiência muito difícil mesmo. Todos os dias, nos levantávamos bem cedo e íamos a uma igreja onde nos ajudavam dando café da manhã e, às vezes, também almoço. Depois disso, fui com minha mala a um espaço que havia encontrado para expor minha arte, enquanto meu parceiro saía na rua para vender “dindim” e procurar emprego. Mas as vendas foram muito baixas, eu estava triste e com minha autoestima no chão”.

Segundo Mauyoli, o começo nos abrigos de Manaus não foi nada fácil (Ricardo Oliveira/Cenarium)

“Odisseia”

Quem aprecia arte em crochê, sabe o valor que tem. Mauyoli se emociona ao lembrar que, por várias vezes, foi obrigada a vender sua arte a preços muito baixos. Chegou a receber por uma boneca, por exemplo, entre R$ 15,00 e R$ 20,00. “Quando isso acontecia, era como se eu tivesse sido apunhalada, eu chorava muito. É que eu sabia o quão importante era cada uma daquelas peças que nasceram das minhas mãos, só eu sabia do grande valor que elas tinham, ninguém mais, eu percebia isso. Mas, por necessidade, acabava sempre aceitando a venda, pois precisava comer e mandar uma remessa para meus pais, que ainda passavam por muitas dificuldades”.

Passaram-se, então, três longos meses. Para Mauyoli, “uma odisseia”. Ações corriqueiras, como tomar banho e vestir uma roupa limpa eram luxos impensáveis. “Lembro-me de ter passado mal de Chikungunya e cheguei a ter piolhos no cabelo. Não desejava essa experiência a ninguém”. Certo dia, a comitiva do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e um contingente da Polícia Militar chegaram ao local onde estavam, um galpão abandonado onde também havia muitos moradores de rua, e os remanejaram para um abrigo. “Ficamos alguns dias e entramos num projeto de internacionalização. Foi assim que paramos em Manaus”.

Na capital amazonense, os venezuelanos ficaram em um abrigo por três meses. Segundo Mauyoli, outro começo nada fácil. “Eu quase não tinha peças para vender e muito menos dinheiro para comprar material, então, saía em busca de trabalho, diariamente, sem sucesso. Não consegui nada, não tinha mais para vender, estava desesperada porque, claro, que eu já estava morando no abrigo, com um prato de comida na mesa, mas, e meus filhos? E meus pais, acaso tinham o que comer? Era o momento em que eu ficava muito triste, pois era muito difícil não pensar nos meus filhos, fracos e sem nada para comer”.

Ela conta que, depois de caminhar por horas, procurando um emprego sem sucesso, deixou o orgulho de lado, tomou coragem e saiu para mendigar. Por vários dias, parava com uma placa em um semáforo próximo à sede da Secretaria de Estado da Saúde (SES), no Aleixo, pedindo oportunidade de emprego, faxina ou um auxílio em dinheiro para mandar para a família que estava na Venezuela. “Estou revelando para você, porque até hoje meus pais não sabem que fiz isso para mandar sustento para casa”. Foi lá, naquele semáforo, que, “depois de orar e pedir tanto para Deus”, a vida de Mauyoli começou a mudar.

Aos domingos, passou a expor na feira de artesanato do Centro da capital amazonense (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Anjos da guarda

“Lembro-me que um dia estava no semáforo com a placa na mão, e um homem se aproximou de mim, o nome dele é Rui Miranda, ele me abordou oferecendo uma diária para limpar a casa dele, fiquei um pouco assustada, sabe? Mas acabei aceitando e pedi para uma amiga que também estava ali comigo me acompanhar”. Ao mencionar que o prazo para ficar no abrigo, localizado no bairro Coroado, estava prestes a expirar e que talvez precisasse morar na rua novamente, Mauyoli foi surpreendida com outro gesto de Miranda. “Sem hesitar, ele me ofereceu uma casa que havia desocupado para que eu pudesse viver com meu parceiro, enquanto ele arrumava um emprego e nós nos estabilizávamos”, lembra.

Ela, o companheiro Juan e o casal Flora e Alejandro ficaram na casa cedida por Miranda durante seis meses. “Ele nos ofereceu isso sem esperar nada em troca”. O gesto solidário não parou por aí. “Um dia”, conta Mauyoli, “do nada, o senhor Luiz mandou sua filha me procurar e ela me levou a um armarinho, onde me fez escolher todo o material de que eu precisava para criar minha arte e assim iniciar meu negócio. Imagina? Eu ainda estava em choque, sem acreditar no que estava passando. Só consego ser eternamente grata a Deus e a ele por tudo”.

Foi assim que tudo começou a mudar para Mauyoli. Ela fez várias bonecas e vendeu para conhecidos da igreja. Aos domingos, passou a expor na feira de artesanato do Centro. “Tudo ia melhorando, mas ainda não dava, então, comecei a procurar na internet uma loja infantil em Manaus onde pudesse expor meu trabalho, deixando-o em consignação, conheci a “Espaço Mamativa”, loja colaborativa de mães empreendedoras. Entrei rapidamente em contato com a proprietária, dona Janaina, marcamos uma entrevista e deu tudo certo. Ela adora o meu trabalho, me aceitou na loja sem que eu tivesse que pagar taxa ou aluguel, e para somar, me ajudou a encontrar um emprego. Que sorte, certo?”.

Com sua arte exposta na loja, as pessoas começaram a conhecer seu trabalho e passaram a fazer encomendas. Em paralelo, uma conhecida de Janaína precisava de alguém para cuidar de seu bebê, e ela indicou Mauyoli. “Foi aí que a Fernanda entrou na minha vida, uma mulher e mãe maravilhosa, que admiro muito. Ela também me ajudou, confiou a mim cuidar do seu bebê e me mostrou meu trabalho para seus amigos. Os pedidos e as vendas começaram a aumentar exageradamente, houve até um momento em que me senti tão exausta, pois tinha emprego, mas quando chegava em casa, havia muito o que fazer para atender todas as encomendas”.

A artista afirma que aprendeu a tricotar com uma amiga foi aperfeiçoando os dons na internet (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Opção pela arte

Mauyoli recorda o momento em que se viu obrigada a decidir se continuaria naquele trabalho ou se dedicaria apenas à sua arte. “Você pode imaginar a decisão, não é? Sim, escolhi minha arte”. Naquela fase da vida, segundo relata, a situação estava um pouco mais estável, ela conseguiu alugar um apartamento, comprou o essencial da casa e o mais importante: passou a mandar constantemente sustento para a família na Venezuela. “Hoje, estou aqui, em Manaus, há quase três anos e sou artesã fazendo amigurumi”.

Amigurumi é uma técnica japonesa que consiste em dar vida a bonecos e “bichinhos de pelúcia” de crochê. Cada peça é feita à mão com muito cuidado e carinho, o que a torna única e especial para quem a adquire. São confeccionados com fios 100% algodão com recheio hipoalergênico. Mauyoli começou “no mundo do crochê”, como diz, há nove anos, procurando uma maneira de ganhar dinheiro, poder estudar e cuidar dos filhos.

“Foi por acaso. Aprendi com uma amiga os pontos básicos e depois foi aperfeiçoando na internet. Um dia, vi uma boneca que me fascinou tanto que tive vontade de começar a experimentar, aí nasceu aquele amor pelo amigurumis. Minha primeira criação foi um Bob Marley, naquela época eu estava na onda rastafári, reggae, usava dreadlocks, não tinha como não ser ele o meu primeiro personagem [risos]. Ficou muito fofo! Foi quando decidi que queria me dedicar a fazer esse tipo de peça. Hoje consigo fazer qualquer personagem de 7cm a 49cm, o maior que já fiz”.

Enquanto o dia de ver os filhos não chega, as mãos vão calejando e tecendo sentimentos (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Ícones na ponta da agulha

Em muitos casos, Mauyoli usa padrões criados por designers como ferramentas e, em outros, ela própria é a designer e a artesã. Perguntada sobre o personagem de que mais gostou de fazer, responde sem titubear: a boneca Anne, aquela da série e da obra literária “Anne With an E”. “Já fiz essa boneca mais de 15 vezes e há sempre um detalhe bacana a acrescentar. Ela é uma beleza, além da personagem que me encanta. Amo também fazer bonecas pretas, mas a que me toca o coração toda vez que faço é a Anne”.

O trabalho que considera o mais difícil é um presépio natalino completo. Segundo Mauyoli, a cliente mandou uma foto e ela aceitou sem antes se certificar de que o padrão (molde) estava à venda. “Entrei em contato com a estilista e ela deixou claro que apenas vendia as peças prontas. Assim, dediquei-me de corpo e alma a fazer o mais próximo da foto que a cliente me mandou, a dificuldade era que tinha muitos detalhes, mas, no final, consegui, e a minha cliente adorou”, conta, orgulhosa. Essa mesma cliente adquiriu ícones da arte, da política e da psicanálise. “Fiz para ela três personagens inéditos: Frida Kahlo, Mafalda, Che Guevara e Carl Jung”.

“Sonho abraçar meus filhos de novo”

Mauyoli diz que a arte trouxe muitas bênçãos para sua vida. Ela pode conhecer muitas pessoas que apoiam seu trabalho e é “eternamente grata” a todos. Ainda são muitas as dificuldades, afinal, o amigurumi é sua única fonte de renda, com a qual paga todas as contas e sustenta a família na Venezuela, tendo que acordar todos os dias sem os filhos a seu lado. “Tudo isso é bastante doloroso, ainda mais sabendo que você não pode vacilar ou desistir porque todos dependem do meu esforço”.

Aas obras de Mauyoli são voltadas para quem aprecia arte em crochê (Ricardo Oliveira/Cenarium)

Muita gente procura Mauyoli interessada em aprender a técnica. Ela diz que não se sente preparada porque o “português ainda é bem ruim”. Gostaria de fazer um curso de língua portuguesa, mas não dispõe de tempo. Mais do que isso, adoraria se aventurar no mundo do design de amigurumi criando padrões e oferecendo-os à venda, e assim alcançar a tão desejada autonomia e independência financeira.

“Gostaria de trazer meus filhos, mas está tão difícil que já penso em voltar. Meu filho mais velho é surdo, então a comunicação com meus pais é muito complicada. Sou eu quem ajudo nas tarefas da escola e tudo mais, imagine fazer isso a distância. Meu maior sonho é abraçar meus filhos e meus pais novamente. Todos a Deus que faça isso acontecer muito rapidamente”. Enquanto esse dia não chega, as mãos vão calejando, tecendo sentimentos, irradiando dor na alma pela distância de seu país, suas raízes, sua gente.

Senhor Miranda

Rui Miranda, 48, presta serviços para a SES e tem um escritório de contabilidade. Vive com a mulher, Nazaré, 48, e os filhos Bira, 28, Talita, 26, e Jafé, 22. Morador do Colina do Sol, São José, zona Leste de Manaus, diz que ficou surpreso ao ser procurado para entrevista. “Sempre ajudei as pessoas porque acredito na lei da semeadura: se você planta bons frutos, vai colher bons frutos. Não esperava virar notícia”, brinca.

Miranda diz que sentiu “algo diferente” quando viu Mauyoli pedindo ajuda no semáforo. “Um dia, eu fui à SES, onde presto serviço, e lá estava ela. Aquela cena ficou na minha cabeça. No caminho de volta para o meu escritório, resolvi retornar, perguntei se ela e a amiga Flora estavam dispostas a fazer uma faxina em casa. Só estávamos eu e meus filhos. Elas aceitaram, eu as levei, fizeram a limpeza, almoçaram conosco e as deixei de volta. Disse que tinha uma casa e que elas  poderiam morar lá, eu só precisava falar antes com minha esposa, que estava viajando, mas sabia que iria concordar. Elas e seus companheiros já passaram o Ano-Novo [2019] em casa”.

Ajudar as pessoas é algo que deixa Miranda realizado. Ele conta que sua casa está cedida para outro casal e que, muitas vezes, vendeu seus pertences para oferecer apoio a quem precisava. “A gente já catou comida para sobreviver e sabe o que é isso. Na Ingreja [7X da Amazônia, localizada no bairro Zumbi], essa visão tem sido aprimorada. Nossos filhos são criados assim, entendendo que precisamos ser bons independentemente das nossas condições. Fico feliz de ver  Mauyoli trabalhando, com situação regularizada em Manaus. Meu sonho é poder ajudar a trazer os filhos dela”.