6 de março de 2021

Jennifer Silva – Da Revista Cenarium

MANAUS – Sem citar nome, o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), culpou um funcionário da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) pelo asfaltamento seletivo que ocorreu somente em frente à casa dele – que funciona como “Comitê Político” – na Rua José Chevallier, no bairro Morro da Liberdade, na zona Sul da capital. A residência fixa do prefeito fica no bairro Ponta Negra, na zona Oeste da cidade.

A notícia sobre a recuperação da rua de David Almeida, um mês após ele tomar posse do cargo, veio à tona com o vídeo de um morador do Morro que viralizou na noite de terça-feira, 2. Aparentemente revoltado, o homem relatou detalhes da obra.

“Olha só o que o pessoal da prefeitura (de Manaus) fizeram (sic) hoje (2 de fevereiro). Em frente à casa do David (…). Pavimentaram em frente à casa dele todinha, do lado e do outro. E a rua em si, taparam só uns buraquinhos (…)”, dizia o morador.

Indignados

Procurados pela reportagem da REVISTA CENARIUM, os vizinhos mostraram indignação.  A dona de casa Ivete Queiroz, 63, que mora no bairro há mais de 50 anos, afirmou que acha um absurdo o asfaltamento que ela considera “indevido” na frente da casa do prefeito em detrimento de outros moradores do bairro, e considerando a residência fixa dele na Ponta Negra.

“A gente fica sem entender. Chegou uma equipe da Prefeitura aqui e disse que iria pavimentar a Rua José Chevalier toda até a Rua Cocá 2 (outras ruas do bairro). Horas depois, chegou uma pessoa e disse que a situação iria mudar, que não seriam mais asfaltadas todas as ruas e ficou esse serviço aí na frente da casa do prefeito”, explicou Ivete.

Dona Ivonete Queiroz, de 63 anos, moradora do bairro Morro da Liberdade há mais de 50 anos (Revista Cenarium/ Ricardo Oliveira)

Promessa

Um morador que não quis se identificar afirmou estar decepcionado com a forma que o prefeito David Almeida tem se portado em um mês de gestão.

“Ele prometeu tanto durante a campanha, disse que iria ajudar o bairro aqui e agora está tendo esse tipo de atitude. Vocês estão vendo como está a infraestrutura do bairro. Uma bagunça, mas a frente da casa dele está asfaltada”, declarou.

Por meio de nota, a Seminf informou que a “ação foi realizada de maneira unilateral por dois servidores do Distrito de Obras da Zona Sul sem a aprovação ou conhecimento de seus chefes imediatos, o que levou à exoneração dos colaboradores respectivamente”.

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Bairro Morro da Liberdade tem poucas ações de infraestrutura (Revista Cenarium/ Ricardo Oliveira

Acusação

Ao ser confrontado por jornalistas sobre a obra seletiva em frente de casa  nesta quarta-feira, 3, David Almeida disse que foi pego de surpresa com o assunto e acusou um servidor da Seminf.

“Quando eu cheguei em casa para o almoço, eu perguntei o que é isso? Você tem que fazer tapa-buraco, referindo-se ao servidor da Seminf. O funcionário, infelizmente, errou e já não tinha mais como retirar o breu e eu me assustei”, justificou o prefeito.

Asfaltamento seletivo em frente à casa de David Almeida (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira)

Também conhecido como betume, o breu é um derivado do petróleo, uma resina natural usada na preparação do local que receberá o asfalto.

David Almeida seguiu a explicação dizendo que houve um “equívoco” dos funcionários da Prefeitura de Manaus e tentou desculpar-se. “Ali era uma operação tapa-buraco que foi feita no Morro da Liberdade, mas, infelizmente, o rapaz se equivocou e eu peço desculpa à população.”

Escândalos

Pouco mais de um mês como chefe do Executivo em Manaus, o prefeito David Almeida (Avante) já coleciona alguns escândalos por erros de sua gestão.

Na segunda-feira, 25, o Ministério Público (MP) do Amazonas pediu a prisão e afastamento do cargo de Almeida, e da secretária de Saúde do município, Shádia Fraxe, como medida cautelar da investigação sobre irregularidades na aplicação da vacina contra a Covid-19.

O mérito do pedido ainda não foi avaliado pelo Judiciário. Na quarta-feira, 27, o desembargador plantonista do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), José Hamilton Saraiva, declinou da competência de julgar o caso.

O argumento dele é que a vacinação, financiada com verbas do governo federal, compete à Justiça Federal. O MP informou que irá recorrer dessa decisão.

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