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22 de outubro de 2021
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Luís Henrique Oliveira – Da Revista Cenarium

MANAUS – Após um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro expor pesquisadores do Amazonas e associar mortes por Covid-19 a ideologias políticas contrárias a dele, o pesquisador Marcus Lacerda, em entrevista exclusiva à REVISTA CENARIUM, explicou que fake news relacionadas ao uso da Cloroquina em pacientes com Covid-19 pode paralisar as pesquisas em andamento pelo País.

“Vamos nos unir contra fake news. Isso pode paralisar a pesquisa no Brasil em Covid. A sujeira toda nos desviou da verdade, e a imprensa precisa começar a ficar de olho em quem está indicando a droga sem evidências científicas. Podem estar recebendo dinheiro da indústria farmacêutica. Fiquem de olho”, disse Marcus Lacerda.

No entanto, o pesquisador líder do estudo CloroCovid-19, Marcus Lacerda e sua equipe, têm recebido outras dezenas de ameaças desde que divulgou, há poucos dias, o resultado preliminar de sua pesquisa, apontando que altas doses da substância Cloroquina podem trazer risco de vida aos pacientes.

Em seu Twitter, Eduardo Bolsonaro publicou na última sexta-feira, 17, uma foto com a seguinte frase: “Estudo clínico realizado em Manaus pra desqualificar a cloroquina causou 11 MORTES após pacientes receberem doses muito fora do padrão. Este absurdo deve ser investigado imediatamente. Os responsáveis são do PT. Mas isso é pura coincidência, claro…”, dizia na publicação que trazia ainda um mosaico expondo foto do perfil de redes sociais de pesquisadores, incluindo de Marcus Lacerda.

Estopim

A cascata de contrarreações teve início após o ativista, investidor e CEO da Yuko Social, Michael Coudrey, responsável por controle de mídia para políticos e organizações, publicar, também no Twitter, no dia 14 de abril, que ‘o estudo brasileiro era irresponsável e que tínhamos usado os pacientes como cobaias humanas’, algo absolutamente incorreto, já que, como ressaltado, todos os requisitos éticos e legais foram rigorosamente seguidos.

Em resposta, na última quinta-feira, 16, o pesquisador Marcus Lacerda emitiu um direito de resposta onde trouxe diversos esclarecimentos a respeito do estudo CloroCovid-19.

“Os pesquisadores não possuem quaisquer vinculações ideológicas ou partidárias e seu compromisso é apenas com a boa ciência. Não emitimos opinião que não seja baseada em dados científicos. […] A interpretação equivocada do ativista e seus seguidores foi de que todas as mortes ocorridas no estudo se deveram ao uso das altas doses, sendo que nem todos os pacientes usaram a alta dose e todos eles tinham Covid-19 muito grave, vindo a falecer por conta da doença, o que ocorreu dentro da média mundial. Todos os registros estão disponíveis no centro, de acordo com as boas práticas clínicas, seguidas por toda a equipe de profissionais envolvidos no estudo”, disse Lacerda em comunicado.

Entenda o estudo em Manaus

O estudo CloroCovid-19 congrega um conjunto de mais de 70 profissionais, entre pesquisadores, estudantes de pós-graduação e colaboradores de instituições com tradição em pesquisa, como Fiocruz, Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, Universidade do Estado do Amazonas e Universidade de São Paulo.

Há mais de 20 anos, a equipe desenvolve estudos de pesquisa em malária, HIV/Aids, tuberculose, acidentes por serpentes, e outras doenças emergentes, com reconhecimento internacional e participação em conselhos internacionais, incluindo OMS.

O Clorocovid-19 foi estruturado como um estudo de fase II, ou seja, que tem mais interesse na segurança dos pacientes, portanto, incluiu apenas pacientes graves com síndrome respiratória aguda grave (SRAG), com suspeita (e posterior confirmação laboratorial) de Covid-19.

O estudo pretende ainda verificar se há ação benéfica da cloroquina, em comparação com dados de outros estudos internacionais, nos quais pacientes em condições clínicas semelhantes não usaram cloroquina.

Inicialmente, o estudo previu a inclusão de 440 pacientes hospitalizados já em estado grave, no Hospital Delphina Aziz, referência para Covid-19 no Estado do Amazonas.

O estudo foi submetido à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), com CAAE 30152620.1.0000.0005, em 20 de março, sendo aprovado de forma célere, em 23 de março, sendo iniciada a inclusão de pacientes no mesmo dia, face à urgência da situação.

Assim que se observaram as primeiras mortes, de pacientes em uso de qualquer uma das doses de cloroquina, o qual é próximo da média mundial, o comitê prontamente solicitou a análise dos dados.

Dose recomendada

O Ministério da Saúde do Brasil, junto à Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCETIE), indicou a dose baixa para o tratamento de pacientes com quadro clínico grave, sob aconselhamento do próprio investigador principal do estudo, Dr. Marcus Lacerda.

A dose foi inicialmente utilizada pelo General Hospital de Massachussets, nos Estados Unidos (EUA).

A escolha de uma dose alta teve o seguinte racional científico:

(1) doses mais altas têm maior atividade antiviral in vitro, ou seja, em laboratório, sendo mesmo mais altas do que a dose usada para malária, por exemplo;
(2) é a mesma dose, por peso dos pacientes, usada na China, e que consta atualmente no Consenso Chinês de tratamento de Covid-19;
(3) uso em pacientes com choque, ou seja, com baixa perfusão intestinal, e que, portanto, absorvem menos a medicação, que só tem apresentação em comprimidos;
(4) em uma doença que se revelou, no mundo ocidental, muito letal, o risco de benefício da eficácia x de efeitos colaterais, de diferentes doses, precisava ser avaliado e conhecido dentro de parâmetros científicos;
(5) boa segurança dessa mesma dose alta em pacientes com câncer, em vários estudos publicados, que usaram por períodos ainda mais longos, de 28 dias.

No curto prazo, não há qualquer diferença de toxicidade entre as duas apresentações da medicação (hidroxicloroquina e difosfato de cloroquina). A toxicidade da forma difosfato de cloroquina só é maior por períodos prolongados de uso, como em lúpus e artrite reumatoide.

Até a data da análise, 11 pessoas (de ambos os grupos) haviam morrido por Covid-19, sendo a maioria idosos, como é mesmo o perfil de pacientes graves, em todo o mundo. Verificou-se, naquele momento, que havia tendência de mais efeitos colaterais nos pacientes em uso da maior dose.

Dose suspensa

A alta dose foi imediatamente suspensa e todos os participantes passaram a usar a dose mais baixa, no dia 6 de abril. A CONEP foi comunicada oficialmente do acontecido no dia 11 de abril, por meio da Plataforma Brasil, e os dados, para maior transparência e visibilidade internacional, foram divulgados, no site MedRxiv , para garantir a oportuna transparência e visibilidade internacional dos resultados até a devida revisão por pares científicos.

A intenção foi advertir demais pesquisadores do mundo sobre a toxicidade de uma dose alta, que apesar de teoricamente parecer mais eficaz, estava causando mais danos do que benefícios.

A primeira conclusão do estudo, portanto, foi que pacientes graves com Covid-19 não deveriam mais usar a dose recomendada no consenso Chinês.

“Os artigos de outros grupos que ainda serão publicados, certamente legitimarão os nossos resultados. Apenas tivemos o privilégio de sermos os primeiros a mostrar o que ninguém queria ver. Não destruam nossos sonhos, nem o sonho das crianças que querem um dia pesquisar e produzir boa ciência”, finaliza o pesquisador Marcus Lacerda.

Leia neste link a íntegra da nota de repúdio emitida pelo pesquisador