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17 de maio de 2021

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Com informações do UOL

Carol começou a andar e falar aos oito meses de vida. Aos três, já sabia ler e escrever. O vestibular seria fichinha? Ela passou aos 16 e se formou em odontologia aos 20. Todos os feitos, acima da média, tinham uma explicação: Carol é neurodiversa. Mas isso ela só descobriria muito tempo depois, trabalhando como dentista, no auge de uma crise gravíssima.

“Eu tinha muita dor de cabeça todos os dias e vomitava entre um paciente e outro. Me jogava no chão ou ia para o banheiro e tirava os sapatos. Se eu não estivesse atendendo, você iria entrar na minha sala e eu estaria descalça, com a luz apagada. Era assim. Eu passava mal todos os dias. Aí fui tendo muitos problemas”, conta.

A hipersensibilidade à luz e ao barulho do consultório causavam dores de cabeça lancinantes e prejudicavam o trabalho de Carol. Sem conseguir manter os atendimentos, ela acumulou dívidas e chegou a ser despejada da casa onde morava. “Tudo dava errado e eu não entendia o porquê”, diz.

Foi virando uma bola de neve e eu não sabia que era por isso. Tudo dava errado e eu não entendia o porquê. Eu não conseguia me manter no trabalho, não conseguia ter um relacionamento, não conseguia nada. Era dificuldade atrás de dificuldade. Praticamente tudo deu errado.

Foi quando eu tentei suicídio e veio o diagnóstico: autismo. E aí fui praticamente obrigada a procurar por tratamento. Ainda no hospital, queriam que eu fosse encaminhada para internação compulsória em um hospital psiquiátrico.

Diagnóstico

Masking e diagnóstico tardio Até o momento fatídico, aos 28, ela nunca tinha ido a um psiquiatra, mas já tinha passado por psicólogas que não suspeitaram de sua condição. O tempo todo eu tentava ser alguém que eu não era. Eu olhava para as outras pessoas, para as outras meninas, e pensava ‘Por que elas conseguem ter uma família, conseguem trabalhar, ter independência, e eu não? Vou tentar ser igual a elas’. E aí comecei a mascarar. O nome disso é ‘masking’, um conceito muito comum em mulheres dentro do autismo.

Rúbia Carolina Morais, 30, decidiu estudar medicina e foi aprovada na Universidade Federal de Jataí (GO) (Reprodução/ Instagram)

Para Carol, o diagnóstico tardio veio para que ela pudesse, sobretudo, se aceitar. “Hoje eu amo viver. Minha médica me avaliou em longas consultas e conversou muito com minha mãe para saber minhas características desde a infância.”

Carol não olha nos olhos de ninguém, anda na pontinha dos pés e vive caindo e derrubando objetos. Não passou no exame psicotécnico e por isso não conseguiu a licença para dirigir, entre outras limitações.

Não entendo metáforas, nem ironia. Não sei ler expressões faciais. Entendo tudo literalmente, o que dificulta muito a minha interação social. Além disso, tenho inflexibilidade alimentar (passo mal com tudo o que como). Ouço frequências sonoras que não são audíveis ao ouvido humano, e isso me incomoda muito. Meu sistema olfativo detecta cada perfume diferente e me deixa a ponto de vomitar quando estou com vários estímulos ao mesmo tempo.

Há três níveis do TEA (Transtorno do Espectro Autista): o nível 1, que é leve e era chamado de síndrome de Asperger; o 2, moderado; e o 3, severo. Os níveis variam de acordo com a gravidade dos sintomas. O diagnóstico é feito por profissionais especializados (psiquiatras, psicólogos, neurologistas). Carol foi diagnosticada com autismo leve, o nível 1.

Um estudo realizado na Suécia concluiu que autistas têm dez vezes mais chances de morrer por suicídio do que a população em geral. Dados atuais do CDC (Center for Disease Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, apontam que 1 a cada 54 pessoas possui TEA. Dessa forma, estima-se que no Brasil existam 3,9 milhões de pessoas com autismo.

“Nunca consegui abraçar meus pais ou dizer que os amo. Vou estudar por eles”

De origem humilde, filha da dona Iraci, que é agente comunitária de saúde, e do seu João, que é cerqueiro (faz cercas de arame para roças), de Buritama, no interior de São Paulo, Carol sonhava em cursar medicina. Investiu em faculdades particulares (tentou três) e começou a produzir peças de crochê, que divulga no perfil @sousplatdacarol do Instagram, para custear as mensalidades. Mas as contas não batiam.

“Quando comecei com os crochês, muita gente disse que era impossível fazer medicina através do artesanato. Realmente, com o valor arrecadado eu jamais conseguiria pagar uma faculdade particular. Mas consegui pagar o cursinho e conquistei uma vaga na federal”, celebra.

Mais que uma vaga, Rubia Carolina Nobre Morais, a Carol, @autizando, que é autista e artista, aos 30 anos obteve o primeiro lugar entre os aprovados de medicina da Universidade Federal de Jataí, em Goiás. “O autismo permitiu que eu pudesse ser eu mesma. Enxerguei que eu não precisava ter aquilo que os outros tinham, nem ser o que os outros esperavam que eu fosse. Hoje eu sei que o ambiente hospitalar, que lidar com pessoas, é um problema para mim. Não preciso fazer medicina para trabalhar em um ambiente clínico, que é algo que vai me sobrecarregar. Eu quero ser pesquisadora e sei que um dos meus pontos fortes é o hiperfoco de sentar, estudar, ficar ali e explorar as coisas. Nunca consegui abraçar meus pais ou dizer que os amo. Eu vou estudar por eles.”

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