24 de outubro de 2020

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Carolina Givoni – Da Revista Cenarium

MANAUS – Candidatos que se autointitulam pastores e pastoras apresentam um crescimento de 53% na disputa pela Câmara Municipal de Manaus (CMM), em relação ao pleito de 2016. Os religiosos saltaram de 15 postulantes para 23 neste ano. Segundo especialistas, a eleição municipal na capital amazonense pode seguir uma tendência nacional de fortalecimento da “Bancada da Bíblia”.

Segundo dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira é dividia entre 86,8% de cristãos, sendo 64,6% católicos e 22,2% evangélicos. Apesar de compor maioria “absoluta”, o cientista político Helso do Carmo Ribeiro não acredita que o crescimento de candidaturas possa significar de fato uma vitória no pleito.

“Nós já temos uma bancada da Bíblia forte na CMM. Eu acredito que talvez aumente, mas pouco. Mas isso é uma tendência nacional. Cada vez mais pessoas ligadas as igrejas, principalmente neopentecostais, têm apostado em candidatura única”, comentou Ribeiro.

O especialista também falou sobre a laicidade estabelecida na Constituição Federal de 1988, que no Artigo 19 veta à União, Estados e Municípios a manter representantes em relações de dependência ou aliança com o interesse público. “O Brasil é um estado laico ‘flexivel’, principalmente em relação ao cristianismo, isso faz a bancada bíblica driblar a laicidade. É difícil alguém falar contra, pois vai parecer até que é um discurso anticristão. Pela descrença da população com política, esses religiosos angariam votos amparados em citações bíblicas para dar força aos discursos de autoridade”, complementou Ribeiro.

Abuso de poder religioso

Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou tese proposta pelo ministro Luiz Edson Fachin, que defendia a possibilidade de a Justiça Eleitoral enquadrar o caso de líderes eclesiásticos como “abuso de autoridade”.

Para o especialista em ciências políticas Carlos Santiago, o fato do Brasil ser um dos países mais cristão do mundo possui um peso forte na vida social e também as eleições. “Nesse período, padres, bispos e pastores, bem como chefes de denominações religiosas são assediados pelos políticos ou se lançam como candidatos. Os partidos políticos também se tornam protagonistas ao lançar nomes religiosos para disputar o pleito tanto majoritário, quanto para os cargos no legislativo”, ressaltou.

No entanto, Santiago alerta que uma vez sendo eleito, a pauta do parlamentar não pode ser ligada para atender demandas morais ou políticas de um setor específico. “O outro aspecto dessas candidaturas religiosas com partidos políticos com linhas ideológicas diferentes acabam contribuindo para o enfraquecimento das legendas, já que o mandato pertence a sigla e a vertente do partido pressupõe atender interesses coletivos”, defende.

“Isso significa que as instituições religiosas estão buscando mais espaço no poder institucional, para efetivar suas agendas de políticas públicas e morais. No entanto, o espaço público tem que ser agenda de todos e para todos não apenas de um seguimento específico”, finalizou.

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