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20 de novembro de 2021
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Via Brasília – Da Cenarium

Estratégia fatal

Erros imperdoáveis na estratégia de defesa da pastora, a agora ex-deputada Flordelis, fizeram com que ela entrasse para a história da Câmara dos Deputados como a parlamentar com maior número votos, em plenário, a favor da perda de mandato. A derrota acachapante de Flordelis foi atribuída por alguns parlamentares a um depoimento que ela deu ao jornal O Globo no dia D de sua permanência na Câmara, em que revelou um acordo com o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), nada republicano.

Acordo feito

Flodelis contou ao jornal carioca que, na época da campanha para a renovação da composição da Mesa Diretora da Câmara, Lira teria pedido o apoio para a então deputada federal pelo PSD do Rio a sua candidatura à presidência da Casa. Em troca, receberia uma “ajuda” em seu processo, que já tramitava no Conselho de Ética, por suspeitas de quebra de decoro relacionadas à obstrução de provas nas investigações da morte do marido, o pastor Anderson do Carmo. Eleito, Lira chegou a cumprir, em parte, o que acordara com a cantora gospel.

Cerco

No dia da votação em plenário do relatório do deputado Alexandre Leite (DEM-SP), nesta quarta-feira, por ordem do presidente Artur Lira, foi feito um verdadeiro cerco nas entradas do plenário principal para que câmeras e fotógrafos que quisessem registar o passo a passo da votação fossem impedidos de entrar. Até mesmo o acesso de profissionais credenciados pela Casa foi proibido, e apenas câmeras da TV Câmara puderam ficar em plenário. A proteção à aliada começou aí. Mas logo o apoio não tardou a azedar.

Inovação no rito


Ao abrir a sessão, Arthur Lira resolve inovar e anuncia mudança no rito do processo que, ao invés de deliberar pela aprovação ou não o relatório que recomendava a cassação de Flordelis, opta pela votação de um Projeto de Resolução (PR), que permitiria a apresentação de emendas de parlamentares. A manobra possibilitaria um abrandamento da pena, que poderia ser proposta por algum parlamentar, como uma suspensão do mandato da deputada. Nesse ínterim, Lira toma conhecimento da entrevista de Flodelis denunciando um suposto acordo entre os dois e o presidente da Câmara volta atrás e joga a agora ex-aliada na água.

Isolada

Lira estipula, então, que qualquer emenda ao PR deverá contar com 191 assinaturas de deputados, o que àquela altura da sessão seria impossível de conseguir num breve espaço de tempo, ainda mais num plenário vazio e com a maioria dos parlamentares remotos. Por fim, nenhum deputado teve a coragem de apresentar emenda e comprar briga com Lira. Ainda mais num caso tão escabroso e com tantas evidências a incriminar Flordelis, que, isolada, perde o mandato por 437×7.

Ex-amigo

Óbvio que a votação acachapante pela cassação de Flordelis tem muito mais a ver com a gravidade das suspeitas que recaem sobre ela e com os fartos indícios apurados pela polícia e pelo Ministério Público, que levam a crer no envolvimento dela na trama da morte do marido. Mas que a estratégia da defesa de brigar logo com quem jamais poderia ter brigado fulminou suas chances de alguma sobrevida do mandato. Em suas performances no púlpito, os teatrais advogados ainda mencionaram que 50 deputados federais também respondiam processos e ainda destacou os de Lira, para piorar. De lição, Flordelis deve ter aprendido que se deve ter muito mais cuidado ao escolher os inimigos do que os amigos.