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17 de novembro de 2021
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Mencius Melo – Da Revista Cenarium

MANAUS – Um pirarucu (Araipama gigas), peixe que é símbolo da Amazônia brasileira, foi encontrado em um rio do Estado norte-americano da Flórida. O animal foi achado morto nas margens do rio Caloosahatchee, em uma área de alta prática de pesca esportiva. A informação foi veiculada pela rede BNC Philadélphia, na última segunda-feira, 15.   

Manaus, capital do Amazonas, está distante 2.408 milhas de Miami, capital do Estado da Flórida nos EUA. A distância por si só já é um obstáculo e o fato de um peixe amazônico ter ido parar em um rio da EUA é um mistério. A REVISTA CENARIUM conversou com o biólogo Fabiano Tadei, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) para saber mais sobre o assunto.

“O pirarucu é uma espécie que está sob proteção de pesca, captura e tráfico por meio de leis nacionais e internacionais. Sendo registrado na Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) como uma espécie que não pode ser comercializada”, destacou Fabiano.

Os alevinos geralmente são minúsculos, mas o pirarucu já mostra a que veio pelo tamanho com pouco tempo de existência (Reprodução/Internet)

“No entanto, a presença do peixe em um rio Americano é resultado de um provável tráfico de animais. A biodiversidade de peixes ornamentais amazônicos é reconhecida mundialmente e a exploração criminosa desta fauna é conhecida pelas autoridades por rotas que saem do País pela região das 3 fronteiras e seguem até o Pacífico”, relatou.

Aquarismo

“A utilização dos pirarucus em aquarismo é bem conhecida, estes animais são muito resistentes a condições adversas, podendo suportar condições extremas, principalmente, quando são ainda girinos (larvas) estágios nos quais são capturados e transportados com maior facilidade. Com o crescimento do indivíduo muitos dos seus ‘donos’ os liberam na natureza”, descreveu o biólogo.

O profissional relata que não é a primeira vez que o pirarucu é localizado em habitats que não são os rios da região amazônica de onde é natural. “A presença da espécie já foi, inclusive, relatada em outros locais do País (exemplo: Rio Grande, divisa de São Paulo e Minas Gerais) não sendo incomum encontrar indivíduos da espécie em tanques particulares”, observou Tadei.

Ele descarta biopirataria. “Biopirataria é acesso ao patrimônio genético ou ao etnoconhecimento de um País, por exemplo: acesso ao DNA de um animal ou planta ou mesmo das propriedades (ou possíveis propriedades) farmacêuticas de um produto produzido por uma destas espécies. A exportação ou importação de animais ou plantas é tráfico de animais ou vegetais”, explicou.

Desequilíbrio

A introdução de uma espécie exótica pode provocar desequilíbrio na natureza, diz o biólogo. “Uma espécie nova em um ambiente já equilibrado com predadores, presas e produtores bem definidos, causa uma reorganização na hierarquia das espécies nativas, podendo levar muitas dessas à extinção. Isso ocorre porque a espécie exótica pode ser mais apta que as nativas à predação ou ocupem mais espaço, reduzindo estes recursos para as espécies nativas”, alertou.

Recentemente um pirarucu de três metros foi capturado em um rio do Estado do Amazonas. O tamanho do peixe impressiona (Reprodução/Internet)

Ele cita exemplos: “existem casos bem conhecidos de introdução de espécies exóticas, alguns até governamentais, como o ocorrido na Australia. Sapos foram soltos no País para o controle de pragas (insetos). Depois de algum tempo a espécie exótica foi tão mais eficiente que as nativas que acabou levando-as à extinção por competição”, recordou Fabiano Tadei.

“No Brasil a espécie de camarão de água doce típica da Amazônia hoje é encontrada em várias regiões do País, a espécie foi transportada junto com os peixes utilizados para o cultivo em represas de hidroelétricas. Com o estouro acidental de muitos destes tanques de psicultura, estes camarões se espalharam pelos rios. Relatos científicos indicam que o camarão se alimenta de ovos de peixes como o pacu, reduzindo seus estoques naturais”, salientou.

Fiscalizar para evitar

O biólogo observa que somente uma fiscalização austera pode debelar o tráfico. “O transporte de animais e vegetais, até mesmo entre os Estados brasileiros, atualmente é bem melhor fiscalizados do que em décadas passadas. No entanto, a única forma de evitar tráfico é uma fiscalização ainda mais eficiente nos aeroportos, portos e na correspondência internacional”, assegurou.

“Vários traficantes de animais utilizam da correspondência internacional para o envio de espécies da fauna e flora brasileira para o exterior. Existem relatos até de serpentes que foram traficadas dessa forma e casos curiosos como tráfico de borboletas (material genético) em quadros e vermes parasitas dentro de livros”, finalizou Fabiano Tadei.