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10 de maio de 2021

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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – Bonecas de pano que carregam consigo uma história de resistência dos povos indígenas, cujas pinturas corporais retratam as tradições, a ancestralidade e a espiritualidade contidas nas roupas. Onde cada peça retrata a expressão do divino manifestada nos grafismos, que são considerados os códigos de comunicação não só entre os Tikuna, mas para todas as etnias.

A criadora é a artista plástica e nutricionista We’e’ena Tikuna, 33 anos, uma mulher que saiu da aldeia onde vivia, localizada na Terra Indígena Tikuna Umariaçu, região do Alto Rio Solimões, no Amazonas, em busca do sonho de contar a história do seu povo para a sociedade dos brancos e ser respeitada mundo afora.

Com o conceito de educar as crianças acerca das outras culturas, nasceram, em dezembro de 2020, as miniWe’e’ena Tikuna, as bonecas com o intuito de fortalecer a causa indígena, como uma forma de representar a “verdadeira história” desses povos.

“Uma fã me sugeriu produzir as bonecas indígenas e eu acolhi a ideia. Pensei que todos gostavam das minhas outras peças, mas elas eram de exclusividade dos adultos. Abracei a ideia como uma forma de representar a nossa verdadeira história. Como um instrumento de fortalecimento da causa indígena, para que os pais tenham a oportunidade de educar seus filhos ensinando mais sobre a nossa cultura, de que não existem apenas bonecas brancas e magras. Não são apenas bonecas de pano. Elas carregam uma história de resistência”, salienta We’e’ena.

Bonecas nasceram com o intuito de conscientizar as crianças sobre a diversidade de culturas e ensinar o respeito aos indígenas, diz a criadora (We’e’ena Tikuna Arte Indígena/ Divulgação)

Passarelas

Artista que vem se consagrando nas passarelas, com peças voltadas para o mundo da moda, a indígena conta que as bonecas nasceram das criações do primeiro desfile, no ano de 2019: as miniWe’e’e foram vestidas com miniaturas das roupas exibidas na coleção de looks de We’e’ena Tikuna Arte Indígena.

“Lancei, em 2019, a minha grife de roupas no Brasil Eco Fashion Week e, em 2020, fui convidada pela produção para fazer uma nova coleção. Mas nem todas as pessoas podem ter a minha coleção de roupa, pois as peças são autênticas do meu povo e feitas para pessoas que verdadeiramente se identificam com a nossa causa. Por causa desse desconhecimento da nossa verdadeira história, nasceram as miniWe’e’ena Tikuna, as bonecas que vieram para ajudar a fortalecer a nossa luta indígena”, ressalta.

Modelo no Brasil Eco Fashion Week com o mesmo ‘look’ usado nas bonecas (We’e’ena Tikuna Arte Indígena/ Divulgação)

Vida na aldeia

A artista relembra que morou na aldeia até os 12 anos de idade, quando o pai – após um massacre em que mais de 20 indígenas morreram em uma disputa com garimpeiros e madeireiros – resolveu mudar-se com a família para Manaus, para que todos pudessem aprender a Língua Portuguesa, ter uma profissão e defender a própria cultura no futuro.

Quarta filha de Nutchametü rü Metchitücü, We’e’e’na, cujo nome quer dizer “Onça que atravessa para o outro lado do rio”, foi morar na comunidade indígena criada por seus pais na capital do Amazonas, para que os filhos não perdessem os costumes e a tradição de povo originário.

Alvo de muitos preconceitos e sofrendo com um “choque cultural muito grande”, ela diz que decidiu enfrentar os desafios e não se curvar, tornando-se vítima das circunstâncias em que se encontrava. Repetiu de ano várias vezes por não saber falar nada de Português na época. Até os 12 anos teve apenas contato com a Língua Tikuna.

“Cresci assim, no entreviver de duas culturas, das tradições da aldeia aos costumes da cidade. Meu pai foi trabalhar como vigilante para nos manter. Mas na nossa comunidade, há uma tradição de artista, o povo Tikuna é de artistas. Na comunidade aprendemos várias atividades como artesanato, música, fazíamos reuniões para estudar nossa cultura. Assim eu comecei a me impor, travar minha história de resistência junto dos meus pais e parentes”, relata.

“A arte me dá felicidade, me dá condições. As pessoas da capital de Pedra passaram a respeitar a minha cultura”.

We’e’ena Tikuna, ARTISTA PLÁSTICA E NUTRICIONISTA

Mudanças

Aos 16 anos, We’e’ena ganhou uma bolsa de estudos pelo Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia, onde formou-se em Artes Plásticas e, de lá, não parou mais. “Passei a fazer várias exposições em Manaus, na galeria do Largo, no Studio 5 e no próprio instituto. Minhas obras foram selecionadas. A arte foi me colocando naquele lugar e todo indígena é, em essência, um artista. O nosso grafismo, a nossa pintura corporal, estudei para aprimorar a técnica. Nós, os povos indígenas, utilizamos a pintura corporal como meio de expressão ligado às diversas manifestações culturais. Para cada festa, há uma pintura específica: luta, caça, casamento, morte. Todo ritual é retratado na pintura corporal. É a expressão artística mais intensa das nossas pinturas”, explica.

Aos 19 anos, mudou-se para São Paulo, onde graduou-se em Nutrição, mais uma de várias paixões. Motivada pela morte de uma senhora na comunidade, vítima de diabetes – doença até então desconhecida por eles – We’e’ena quis estudar de que forma os alimentos podiam deixar as pessoas doentes. “Vim de uma tradição de pajés. Meu avô era curandeiro. Então escolhi uma forma de ajudar os parentes a se alimentarem melhor na cidade. Na aldeia tudo era orgânico, comíamos os alimentos dentro do tempo de maturação. Hoje estou clinicando virtualmente devido à pandemia”, comenta.

Então quando a gente conhece a nossa história, a gente aprende a defende-la. Foi assim que começou minha conexão com a moda, de trazer isso para o mundo do branco. Minha moda nasce do não conhecimento da verdadeira história dos povos indígenas“.

We’e’e’na hoje é, além de artista plástica, cantora, palestrante, nutricionista, designer de moda, ativista dos direitos indígenas e YouTuber.

Primeiro desfile com a temática indígena

Desfile de 2020 transmitido em Live