Brasil plural: País possui mais de 150 idiomas indígenas que ainda são falados

Com informações da Folha de S. Paulo

SÃO PAULO – Fiquei sabendo da existência do dual nos meus primeiros anos de graduação, quando comecei a estudar grego e élfico mais ou menos ao mesmo tempo. (É, eu sei o que deve estar passando pela sua cabeça, gentil leitor: como é que esta Folha foi aceitar em seus quadros um sujeito que resolve estudar grego e élfico ao mesmo tempo?).

Mas voltemos ao dual. A palavra rima com “plural”, e não é por acaso. Quem fala português se acostumou a pensar que só existe singular e plural, “a menina” ou “as meninas”, e acabou-se. Contudo, outras línguas —tanto reais, como o grego clássico, quanto imaginárias, a exemplo dos idiomas élficos inventados por J.R.R. Tolkien — têm formas específicas para designar não uma ou muitas, mas duas coisas, em geral as que parecem formar pares naturalmente ou por costume. Atenienses da época de Platão (e elfos) se referem a “minhas mãos” ou “minhas sandálias” usando o dual, não o plural.

Meus primeiros contatos com essa possibilidade inaudita enviesaram minha perspectiva, porém. Fiquei pensando que o dual era privilégio das línguas ditas clássicas, aquelas que, como o idioma helênico, pertencem ao passado da “alta cultura ocidental” (seja lá o que isso seja).

O trumai, porém, flechou esse meu preconceito no coração.

Trata-se de uma língua isolada, ou seja, sem parentesco com nenhum outro idioma conhecido hoje. Seus falantes nativos vivem em Mato Grosso, no Território Indígena do Xingu. Em trumai, quando alguém usa a marca do dual — um singelo “a” — junto com um nome pessoal, a mágica gramatical acontece: “Yakaikiru a” significa a mulher chamada Yakaikiru e seu “par natural”, ou seja, seu marido.

Finezas como essa podem ser encontradas por toda parte nas mais de 150 línguas indígenas que ainda são faladas em solo brasileiro. A diversidade linguística nativa é muito superior ao que esse número bruto dá a entender, porque estamos falando de diversas famílias linguísticas diferentes convivendo por aqui, tão distantes entre si quanto o árabe difere do russo ou o chinês se distancia dos idiomas africanos.

Apesar das grandes variações em vocabulário e sonoridade, é bonito ver como alguns padrões são mais comuns. Um deles é a serialização verbal —a capacidade de criar um “superverbo” no qual poucas sílabas descrevem uma cena completa, uma história em quadrinhos mental. Na língua hup, falada no Alto Rio Negro (fronteira com a Colômbia), um verbo serializado como “tiy-his’ap-b’uyd’äh-yë” — seis sílabas, pelas minhas contas — equivale ao seguinte: “Ele empurrou [a porta, subentendido] até que a quebrou, jogou-a de lado e entrou”.

Outra preocupação interessantíssima em diversos idiomas tem a ver com a perspectiva e a qualidade das “evidências” (para usar um termo científico) por parte de quem fala. Em sanöma, uma das línguas faladas pelos ianomâmis, as afirmações são acompanhadas dos chamados evidenciais: “ki” se o próprio falante testemunhou o que está dizendo, “tha” se não o viu pessoalmente e “noa” se está fazendo uma inferência lógica (como alguém que diz “Você andou tomando sol” ao ver um conhecido com a pele queimada).

Eu não seria capaz de imaginar sozinho esse tipo de propriedade gramatical nem que passasse o resto da vida pensando. O fato de elas existirem é um testemunho poderoso de maneiras diferentes de conceber a realidade — e uma prova de que não existem línguas ou culturas “primitivas”.

PS – Os exemplos das línguas indígenas brasileiras que citei vêm do livro “Índio Não Fala Só Tupi” (editora 7Letras), organizado por Bruna Franchetto e Kristina Balykova. A obra é um pequeno tesouro que merece ser mais conhecido e lido.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

VOLTAR PARA O TOPO