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22 de novembro de 2021
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Priscilla Peixoto – Da Cenarium

MANAUS – A venda de roupas usadas e acessórios é uma prática antiga conhecida popularmente como brechó. Embora não seja algo novo, os adeptos do brechó têm inovado nas vendas e feito dessa atividade, por vezes informal, uma alternativa de fonte de renda extra para enfrentar as dificuldades financeiras estabelecidas por conta da pandemia.

A administradora Edilene Vieira foi uma das pessoas que viu, nas vendas das peças usadas, uma oportunidade de ganhar dinheiro e desocupar o guarda-roupa. “Tudo começou quando uma das minhas duas filhas retornou de uma viagem um pouco antes da pandemia e notamos que havia muita coisa que elas não usavam mais. Após o primeiro ápice da pandemia, me uni duas vezes com um vizinho que também fazia brechó, depois fui fazendo sozinha na frente da minha casa e vendo que dava para ajudar na renda”, conta Edilene.

Edilene conta que a ideia deu tão certo que foi preciso organizar, de forma mais profissional, o espaço para receber a clientela conquistada aos poucos. Atualmente, a venda de objetos e roupas usadas deixou de ser alternativa para se tornar uma das principais fontes de renda da família. “Por ser mãe, filha e esposa em tempo integral, não tem como eu ficar trabalhando fora, das várias atividades que sei desenvolver, o brechó se encaixa perfeitamente”, dispara.

Edilene Vieira investiu no brechó para auxiliar no sustento da família (Reprodução/arquivo pessoal)

Diferencial e expansão

Mas engana-se quem pensa que o brechó é somente a venda de peças usadas. Segundo Edilene, a prática vai além e exige sensibilidade, cuidado e dedicação. Mesmo com todos os pontos de vendas de roupas e acessórios na cidade, a “brecholeira” acredita que há fatores que fazem o diferencial na hora de se estabelecer no mercado e garantir o ganho extra.

“O sol brilha para todos, mesmo tendo muitos, a forma como o cliente é tratado faz a diferença. As pessoas não procuram só produtos, mas atenção e serem bem atendidas. Além disso, vejo também um espaço voltado para receber amigos, conhecer novas pessoas. Acredito que as pessoas querem essa atenção, esse aconchego e já deixo sempre preparado algum agrado para quem chega”, conta a empreendedora.

O brechó de Edilene funciona todo sábado, de 7h às 12h. Atualmente, além das peças seminovas, ela também vende peças novas a preços acessíveis e alguns produtos e utensílios de cozinha como uma forma de aumentar a variedade e ampliar as vendas.

“Não é só roupa feminina, inclusive, a busca maior tem sido por peças masculinas como calças e sapatos, mas confesso que utensílios domésticos têm saído bastante também. Tem que inovar, não tem jeito, acho que por isso tenho me tornado referência. Já conheço o perfil daqueles que vêm com frequência aqui, já separo peças que sei que determinada pessoa vai gostar”, diz a administradora.

Veja também: Mulheres veem no brechó a oportunidade de aderir ao empreendedorismo

Modalidade online

As amigas Stella Sarmento, de 37 anos, e Erikarla Sarmento, de 31 anos, já atuam há mais tempo no ramo dos brechós. Por conta da pandemia, apesar de várias pessoas terem recorrido às vendas, houve redução do público presencial devido às medidas de segurança sanitários, o que resultou no salto das vendas online.

“Durante a pandemia houve uma redução, é claro, pois o formato de vendas se restringiu ao online. Mas, à medida que as restrições sanitárias foram diminuindo ou extinguindo, as visitas a nossa loja física e a participação nos eventos foi gerando uma retomada, com um crescimento que ainda persiste. Resumindo, atualmente as vendas voltaram ao patamar pré-pandêmico”, afirmam as amigas.

As amigas Stella Sarmento e Erikarla Sarmento (Reprodução/Arquivo Pessoal)

“Brechó é estilo de vida”

Para as amigas, a prática do brechó há tempos tem demonstrado que já não é mais uma simples atividade para o ganho de renda. Elas classificam o brechó como um estilo de vida que resiste ao tempo, proporcionando exclusividade e alta dose de valor agregado.

“Esse é um conceito importante a se elucidar e corrigir. Antigamente, os brechós eram conhecidos por ser locais de peças mais baratas. Hoje, o brechó virou um ‘estilo de vida’. Os brechós que resistem ao tempo são verdadeiros garimpos de peças exclusivas, que remetem a temáticas como o vintage e até artigos de luxo”, ressaltam.

Stella e Karla contam que não é difícil encontrar aqueles que, por vezes, efetuam uma compra não pelo valor acessível da maioria das peças disponíveis, mas pela história e valor que elas carregam.

“As peças encontradas hoje em dia carregam uma alta dose de valor agregado. Existem unidades que são tão caras ou mais que peças de shoppings, pois a exclusividade e a história que elas contam interessam a vários segmentos de pessoas. Mas claro que nos desapegos convencionais, o atrativo de preços continua a ser um chamativo e diferencial”, explicam as brecholeiras.

A “brecholeira” Edilene Melo no brechó que acontece aos sábados (Reprodução/ @souedilenemelo)

Dados e mudança de hábito

De acordo com um estudo realizado pela consultoria Globaldata, o mercado dos brechós, que até a pandemia movimentava cerca de R$ 180 bilhões ao ano, pode dobrar até o ano de 2024, chegando a R$ 360 bilhões. No Brasil, especificamente, ainda não há um levantamento sobre o faturamento de brechós e segmentos similares, administrados, na maioria das vezes, por quem está na informalidade.

Em abril deste ano, o Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE) divulgou dados mostrando que o País alcançou uma taxa de informalidade de 39,7% no mercado de trabalho, no trimestre até janeiro. Isso significou 34 milhões de trabalhadores atuando informalmente.

Nesses espaços, a universitária Paola Bianca, de 27 anos, encontrou uma alternativa para trocar de looks de forma mais consciente e barata. Para ela, a compra nos brechós virou quase uma terapia, onde ela “garimpa” peça a peça sem gastar tanto.

“Acredito que seja uma forma de pôr em prática a sustentabilidade, contribuir para a circulação do dinheiro no mercado local, além de descolar peças legais a preços bons. É possível sim encontrar coisas boas nesses locais. Sempre procuro locais em que a curadoria é feita de forma criteriosa e está tudo certo”, finaliza a universitária.

A universitária Paola Bianca, de 27 anos, é fã de brechós (Reprodução/Arquivo Pessoal)