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17 de abril de 2021

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Priscilla Peixoto – Da Revista Cenarium

MANAUS – Desde a participação da cantora Ludmilla no Big Brother Brasil 21, internautas repercutiram nas redes sociais nesta segunda-feira, 5, a postura da artista que em tom de protesto pediu respeito aos cabelos afros. Após o episódio, Ludmilla foi criticada por ser adepta do uso de laces – perucas com maior qualidade e cabelos orgânicos – e nem sempre se apresentar com os cabelos naturais.

Para a manauara e trancista profissional, Lia Duarte, de 29 anos, o uso de adereços, tranças e penteados não diminui em nada a importância, a representatividade e o gostar pelo cabelo. Mesmo ele sendo crespo ou cacheado. “Se uma mulher negra, cacheada, crespa quiser usar uma lace loira, lisa, ondulada curta, se ela quiser trançar o cabelo, ela vai continuar sendo uma mulher com cabelos afro e isso não interfere na genética dela e nem de gostar do próprio cabelo”, explica a trancista.

Lia Duarte é trancista profissional e atua há mais de 5 anos no mercado da beleza afro em Manaus (Reprodução/arquivo pessoal)

Liberdade capilar e transição

A trancista considera que o uso das laces, por exemplo, tem muito mais haver com o desejo rápido de mudança e curiosidade pelas diferentes versões possíveis de si mesma do que rejeitar as próprias raízes. “Isso se chama liberdade capilar”, comenta Lia Duarte.

Já no caso do uso das tranças, a profissional, que estudou e se profissionalizou em tranças para cabelos afros no Rio de Janeiro, aconselha que, além da busca pelo novo visual, a pessoa se informe e conheça sobre toda a carga cultural e ancestral que ela carrega. “As tranças são mais especiais ainda. É um processo que vai muito além da estética, mas ainda sim entra na liberdade de usar ou não”, ressalta.

Preta bacana é uma das referências na internet quando o assunto é entrelace (Reprodução/Instagram)

“Eu amo meus cabelos crespos, aprendi a valorizar mais e cuidar dele também. O uso desses métodos só me ajudou a manter meu cabelo natural por mais tempo, vencendo a transição capilar que não é um processo fácil, para se ver livre totalmente das químicas”, explicou a estudante.

Para a estudante Daniela Silva, 25 anos, o uso das tranças e da entrelace (técnica de alongamento das madeixas por entrelaçamento, onde o cabelo é todo trançado, para servir de base para a aplicação da tela de cabelos orgânicos, sendo costurado nas tranças da pessoa) foi fundamental para o processo de transição capilar da estudante.

Redes sociais e ironia

Nas redes sociais, como sempre, muitos apontaram o dedo para a cantora e àquelas que recorrem ao uso das perucas da moda e julgaram como juízes em seus tribunais. O mais irônico é perceber que a maioria dos incomodados (as) são pessoas, a maioria mulheres, que usam algum tipo de química, alisamento, escova ou chapinha nos cabelos e, provavelmente, ninguém os julga pela escolha.

Mulheres negras sofrem há séculos com inúmeras questões e este “patrulhamento” do cabelo de vez em quando vem à tona. Alisar, cortar, raspar, pintar, trançar, usar perucas ou qualquer outro processo que envolva o cabelo afro é sempre perseguido pelo racismo, o que não acontece com mulheres brancas, que, de certa forma, também brincam com o visual pelo uso do alongamento, tic tac, progressivas e dentre outros recursos que são normalizados quando uma mulher branca faz o que quer com o visual dela.

A influencer e ativista social também se posicionou sobre a polêmica. (Reprodução/Instagram)

Brunna Gonçalves, a companheira e bailarina da cantora Ludmilla, também não deixou o assunto passar em branco e fez um post no Instagram, onde escreveu abertamente sobre o assunto. “A cada dia que passa, eu me enxergo mais bonita, cacheada, com lace ou sem lace. Sinto que estou vivendo a minha melhor fase nas minhas diferentes versões. Obrigada pelo apoio de vocês, é muito importante para uma mulher que venceu ou está passando por uma transição capilar receber esse apoio!”, postou Brunna.

Na rede social, Ludmilla se pronunciou novamente sobre o assunto e rebateu as críticas. “O fato de eu estar usando lace lisa não anula as minhas raízes. Meu cabelo é crespo e meu local de fala sobre o racismo que eu sofro continua. Não sejam ignorantes”, disse a cantora.

Brunna Gonçalves, dançarina e companheira da cantora Ludmilla (Reprodução/Instagram)

“Chega de ignorância!”

“Eu lamento que até num simples ato de se emponderar e se sentir mais bonita, as mulheres negras são apontadas e incomodadas. É muito pequeno tentar desmerecer um pedido de respeito, uma fala antirracista ao uso de uma lace. Acho que as pessoas usam argumentos assim de maneira suja. Temos liberdade de fazermos o que quisermos e o mais importante é não esquecer nossas raízes. Isso nunca podemos negar”, finaliza a profissional.