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22 de janeiro de 2022
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Com informações do Infoglobo

BRASÍLIA —  O discurso antivacina de Jair Bolsonaro tem causado incômodo em caciques do Centrão, especialmente no PL, partido ao qual o presidente se filiou. A avaliação de alguns líderes é que as falas de tom negacionista do presidente têm afetado a sua popularidade e podem respingar em outros candidatos da sigla ou quem se disponha a enfrentar a disputa eleitoral do ano que vem a seu lado. Mesmo ontem, quando o Ministério da Saúde publicou uma nota que indicava a “recomendação” para a imunização contra a Covid-19 de crianças, Bolsonaro fez questão de afirmar que não vacinará sua filha Laura, de 11 anos. O presidente segue afirmando que ele próprio ainda não se vacinou.

No início de dezembro, o manda-chuva do PL, Valdemar Costa Neto, disse a um líder do PP que precisava “conversar com calma” com Bolsonaro, porque ele “precisa tomar vacina” contra a Covid-19. Apesar desse desconforto da cúpula da base aliada do governo, pessoas próximas do presidente reconhecem que ele provavelmente manterá o tom negacionista que agrada à parte mais radical do seu eleitorado.

Assim, nos últimos dias, Bolsonaro elevou os decibéis das críticas à vacinação contra a Covid-19 de crianças de 5 a 11 anos de idade. Segundo o presidente, “não está havendo morte de crianças que justifique algo emergencial”. Conforme O GLOBO mostrou, 301 crianças desta faixa etária para a vacinação morreram de Covid-19desde a chegada do coronavírus ao país, ou uma a cada dois dias.

Aliados do presidente são céticos sobre as chances de mudar a postura de um político que costuma ignorar conselhos de moderação. Por isso, pessoas próximas a Bolsonaro apostam numa estratégia para minimizar os danos causados pelo discurso antivacina.

“A gente precisa vacinar o povo. Mesmo com toda essa situação pessoal do presidente, o Brasil é o país que mais vacinou no mundo. as famílias têm a tradição de vacinação”, minimiza o senador Wellington Fagundes (PL-MT).

O posicionamento do presidente em contradição com a visão da maioria da população sobre a vacinação, expressa tanto em pesquisas de opinião como na adesão dos brasileiros à imunização, levou aliados do próprio partido a divergir publicamente do presidente. O líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), foi explícito ao defender recentemente que a Câmara aprove o projeto de sua autoria que formaliza o passaporte da vacinação:

“É verdade que o Presidente havia anunciado o veto se esse projeto avançasse. Não tenho o menor desconforto se essa for a nossa única divergência, mas não vou deixar de insistir que esse projeto, agora, mais do que nunca, é vital”, discursou Portinho no Senado, em fala compartilhada pelo PL em seu site.

PP ensaia discurso

Outro expoente do Centrão e da base de Bolsonaro, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), também já dá o tom do que deve ser o discurso dos aliados de Bolsonaro no ano que vem. Em entrevista ao Jornal do Piauí, Ciro disse que o presidente foi, na prática, o responsável por disponibilizar vacinas contra a Covid-19:

“Não tem uma vacina do nosso país que não foi comprada pelo presidente Bolsonaro”, disse, minimizando a oposição de Bolsonaro aos imunizantes, afirmando que ele apenas defende a “liberdade” de escolha da população.

No Planalto, outros auxiliares avaliam que o discurso de Bolsonaro será encarado pela população como uma posição pessoal, sem interferir na política de vacinas. Eles reconhecem que poderia ser benéfico politicamente para o presidente abraçar a imunização, mas ele é irredutível. Antes, Bolsonaro dizia que se iria se vacinar após o último brasileiro receber sua dose. Agora, não admite mais essa hipótese.

Para reverter o desgaste da imagem do presidente, a estratégia adotada é citar que Bolsonaro jamais impediu alguém de se imunizar nem mesmo a primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos.

Ao GLOBO, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), defendeu que o discurso de Bolsonaro sobre vacinas não vai influenciar o pleito de 2022. Primeiro, segundo ele, “porque todas as vacinas foram pagas pelo governo federal”. E, segundo, por acreditar que “o assunto vacina estará superado na eleição”.