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17 de maio de 2021

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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – Após atingir a cota de inundação severa – de 29 metros na última sexta-feira, 30, segundo o 2º Alerta de Cheia divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) – Manaus tem previsão de chegar a uma cheia da mesma magnitude da registrada no ano de 2012, quando o nível do rio Negro alcançou 29,97 metros.

De acordo com a pesquisadora em Geociências e responsável pelo Sistema de Alerta Hidrológico do Amazonas e Roraima, Luna Gripp Simões Alves, trata-se do mesmo evento, já que a previsão para 2021 é uma cheia próxima a 30 metros. “Estamos falando da mesma situação de 2012, porque três centímetros não interferem neste caso. O que vai definir, se isso vai aumentar ou igualar, será o volume de chuvas até junho”, explicou.

Segundo o modelo utilizado, a probabilidade de que o rio venha atingir a cota máxima observada na série histórica (29,97 m em 2012) é de 56%.

A pesquisadora salienta a importância de o poder público e a população, de um modo geral, se prepararem para a possibilidade de uma enchente nesta época do ano. “É importante entender que as cheias fazem parte de um processo natural da dinâmica dos rios. Porém, apesar das variações naturais, sabemos que as sociedades foram construídas muito próximas às margens dos rios, principalmente na Amazônia como um todo. A forma como a gente se desenvolveu ao longo dos rios acaba causando esses problemas. É necessário se preparar todos os anos”, ponderou.

Gripp explica que a cota de inundação se dá, a partir do primeiro dano a ser observado no município, como a primeira casa modificada e a primeira rua inundada, de modo a atrapalhar o cotidiano da população, especialmente o acesso ao transporte.

À medida que essas primeiras situações são observadas, conforme a pesquisadora, é preciso começar a tomar as devidas providências. “Infelizmente, no Amazonas, isso é muito recorrente, principalmente pela magnitude dos rios. Para Manaus, a cota de inundação é de 27,5 metros. Essa cota é muito recorrente”, disse.

Moradias em risco

O superintendente do Serviço Geológico do Brasil em Manaus, Marcelo Mota, informou que o rio Negro está subindo, em média, cinco a seis centímetros por dia. “Semana passada nós fomos oficiados pelo Ministério Público do Estado, do Núcleo de Moradias, e participamos de uma audiência pública para obter informações que depois serão transformadas em ações concretas para beneficiar a nossa população, afirmou, durante transmissão via live pelo canal da CPRM no Youtube.

Mota destacou o cunho social do Serviço Geológico do Brasil, para além do viés científico já conhecido. “A CPRM e seus parceiros também estão preocupados com o lado social”, disse, referindo-se às famílias que devem ser afetadas pela enchente.

Itacoatiara e Manacapuru em alerta

Segundo o modelo utilizado, a probabilidade de que o rio venha atingir a cota máxima observada na série histórica (20,78 m em 2015) é de 54%.

Ainda segundo a responsável pelo Sistema de Alerta Hidrológico do Amazonas, Luna Gripp, ao longo dos últimos anos, mais dois municípios passaram a ter o comportamento analisado pela CPRM no período das cheias. Itacoatiara, a 270 quilômetros de Manaus, e Manacapuru, a 68 quilômetros, respectivamente, passaram a ser estudados dentro do contexto do alerta de cheia do Serviço Geológico do Brasil. “Este ano esses municípios já atingiram a cota de inundação severa. “Nossos estudos se estenderam um pouco mais até Manacapuru e Itacoatiara, para que possamos fornecer informações essenciais para o poder público, juntamente com a população, se preparar. A previsão é a de que o rio Solimões fique próximo a 20,80 metros, com uma previsão de 80% de confiança”, alertou.

Em situação semelhante, embora com risco de apenas 1% de chegar aos 16,04 metros do ano de 2009, Itacoatiara também já alcançou a cota considerada como inundação severa e o rio Amazonas deve chegar a 15,20 metros.

Segundo o modelo utilizado, a probabilidade de que o rio venha atingir a cota de máxima observada na série histórica (16,04 m em 2009) é de 1%.

Tubulação obstruída no Centro de Manaus

De acordo com a pesquisadora, a cota de 29 metros representa um princípio de inundação na região central de Manaus, especialmente na rua dos Barés e na feira da Banana. Gripp explica que, na capital do Amazonas, não basta atingir a cota para que se configure uma situação crítica. “Na verdade, utilizamos valores aproximados. O problema não é relacionado ao nível do rio. O nível do rio Negro não chega diretamente aos pontos que serão inundados. Acontece que a saída da tubulação do esgoto e de drenagem está localizada em um ponto baixo do rio, digamos assim, próxima a 29 metros, então, a tubulação começa a ficar obstruída”, ressaltou.

O tempo que vai levar para inundar, conforme a especialista, depende se vai chover ou não, pela dificuldade no escoamento da água. “É bem provável que isso comece a ocorrer nos próximos dias, porque começa a extravasar a água dos bueiros”, finalizou.

A prefeitura de Manaus, por meio da Casa Militar e Defesa Civil, informou que há um trabalho em curso no local, sendo realizado por equipes da Secretaria de Limpeza Pública (Semulsp) e faz parte da “Operação Cheia” de limpeza dos rios e igarapés. A Defesa Civil fez, ainda, um apelo à população para que tenha a consciência de não jogar lixo nas ruas, rios e igarapés, contribuindo, desta forma, com as medidas de prevenção às ocorrências devido às chuvas na capital amazonense.

Ruas centrais de Manaus inundadas após forte chuva, nesta segunda-feira, 3 (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Comportamento dos oceanos

Conforme explicação do meteorologista do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), Renato Senna, o comportamento dos oceanos é o principal responsável por alterações nos padrões climáticos da região. “Basicamente, o que modula a formação de nuvens e a circulação da atmosfera são as condições dos oceanos. Então, mais ou menos desde setembro, outubro e novembro do ano passado, apareceu um fenômeno que a gente denomina de La Niña, com águas mais aquecidas ao Norte que o normal, com um padrão de neutralidade no Hemisfério Sul. Isso faz com que a gente desloque a zona de convergência intertropical – que é uma zona de formação de nuvens – empurrando essa formação para áreas mais ao Norte da região”, esclareceu.

Ainda de acordo com o meteorologista, no final do mês de janeiro deste ano, uma condição “absurda” de chuvas foi criada, principalmente ao norte da região, compreendendo as bacias dos rios Negro e Branco. “Essa condição do mês de janeiro foi tão forte que alterou todo o padrão do trimestre relacionado aos meses de novembro, dezembro e janeiro. Nós vínhamos de uma condição de normalidade e passou para uma condição chuvosa extrema”, observou.

A condição de chuvas extremas, conforme o especialista, voltou a se manter no final do mês de março. “Continuamos nessa condição de chuva muito intensa, basicamente nas bacias do Negro e Branco e ainda nas bacias dos rios Purus e Juruá”, informou.

O fenômeno La Niña, segundo o pesquisador, começa a se dissipar, dando sinais de encerramento no final do mês de abril. “Entretanto, o fim do fenômeno não garante que as condições cessem imediatamente, essas condições de formações de nuvens. As consequências a gente ainda vai observar por mais alguns dias”, concluiu Senna.

Sistema Nacional de Meteorologia (SNM)

Com o objetivo de fortalecer as competências centrais de cada uma das instituições, eliminar qualquer tipo de sobreposição de atividades, gerando assim uma cadeia de processos, produtos e dados interligados e complementares para atender a área de meteorologia nacional, o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) lançam, nesta segunda-feira (3), o Sistema Nacional de Meteorologia (SNM).

O diretor-geral do Censipam, Rafael Costa, destaca a importância de integrar as instituições, os sistemas, as pessoas e o conhecimento produzido no País. “Desta forma, é possível obter maior eficiência na utilização de recursos, fortalecendo a meteorologia no Brasil e, consequentemente, oferecer um produto mais qualificado à sociedade”, afirmou Costa.

Segundo o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), cada um dos órgãos atuará com o seu papel bem definido.

O Censipam é responsável pela elaboração e divulgação da previsão de tempo para a região da Amazônia Legal em parceria com o Inmet, bem como pela operação de radares meteorológicos. De forma complementar, oferece, ainda, apoio aos demais órgãos componentes do Sistema com a instalação, manutenção e operação de infraestrutura de sensores necessários.

O Censipam também atenderá demandas específicas para apoio às missões das Forças Armadas e pela geração de boletins climáticos especializados quando demandado. O órgão desempenhará, segundo informações divulgadas pelo Sipam nesta segunda-feira, 3, o papel de colaborador na elaboração, aperfeiçoamento e manutenção dos modelos numéricos de tempo, os quais serão únicos para todo o Sistema Nacional de Meteorologia e cujo desenvolvimento será liderado pelo Inpe.

O monitoramento e previsão de fenômenos meteorológicos contribuem, por exemplo, para a salvaguarda da vida, no dia a dia, durante eventos severos como temporais em terra e no mar, inundações e secas, uma vez que subsidiam a tomada de decisões por parte, principalmente do poder público.

Mapa interativo

O Inmet lançará, ainda, em seu portal, um mapa interativo com a previsão de tempo para todo o país para os próximos cinco dias. Nos dois primeiros dias, a previsão é detalhada para os turnos madrugada/manhã, tarde e noite. O usuário poderá navegar pelo mapa e obter a previsão de tempo para qualquer município selecionando um ponto no mapa.

Mapa do Instituto Nacional de Meteorologia com previsão para esta segunda-feira, 3, em Manaus