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29 de janeiro de 2022
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Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium 

MANAUS – Neste domingo, 9, de agosto é celebrado o Dia Internacional dos Povos Indígenas. A data comemorativa foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como forma de garantir condições de existência minimamente dignas aos povos indígenas de todo o planeta, principalmente, no que se refere aos seus direitos à autodeterminação de suas condições de vida e cultura, bem como a garantia aos direitos humanos. 

Com base nesta celebração, a REVISTA CENARIUM entrevistou o cineasta, historiador, tradutor e educador da cultura indígena guarani, Alberto Alvares, 37 anos, do povo Guarani Nhandeva, que lançou o curta metragem, ‘Sonho de Fogo’, cujo roteiro narra a visão dos sábios espirituais guaranis em relação à doenças e pandemias, por meio da interpretação dos sonhos. Com apenas sete minutos de duração, o curta foi lançado na 18ª Semana de Museus, evento virtual promovido pelo Museu do Índio do Rio de Janeiro, em maio passado. 

Alberto Alvares iniciou a carreira no cinema como ator, em 2008. Hoje, tem mais de 20 filmes produzidos, ganhou inúmeros prêmios nacionais e internacionais e vem ascendendo no mercado cinematográfico brasileiro (Divulgação/Arquivo pessoal)

De acordo com o cineasta guarani, ele havia percorrido, no início do ano, aldeias indígenas do Estado do Paraná, para trocar experiência com líderes indígenas sobre rituais de reza e cura para tratar diversas doenças físicas e espirituais de seu povo e de outras etnias. O material seria transformado em documentário ou curta metragem no futuro.

Após a viagem, Alberto teve um sonho, onde uma grande queimada se aproximava da terra. Segundo ele, sonhar com fogo na cultura guarani significa uma grande doença e mau presságio. O sonho, porém, não saía de seu pensamento. No entanto, Alberto não imaginaria que uma pandemia estava a caminho e que afetaria o mundo de forma tão destruidora, como a do novo Coronavírus, que isolou, deixou rastro de mortes e de medo em toda a humanidade.

Alberto usa como atores o próprio povo Guarani para construir a narrativa de vida de seus filmes para mostras à sociedade, que ainda tem preconceito sobre os povos indígenas (Alberto Alvares/ Arquivo Pessoal)

“Eu sonhei enquanto dormia sobre essa grande queimada. Sempre tive muito medo do fogo. Todas as vezes que sonhei com fogo, algo de ruim acontecia com um dos meus filhos, que caiam doentes. E neste último sonho, era como se o fogo estivesse levantando o planeta no qual vivemos. Quando acordei, fiquei pensativo e me perguntei: ‘será se vai acontecer alguma coisa ruim?’. Isso ficou martelando na minha cabeça e pedi para Nhanderu [Deus em guarani] que nada de mau acontecesse à minha família ou ao meu povo”, explica o cineasta indígena.

Questionado como relacionou o sonho, as filmagens dos rituais dos anciãos indígenas de cura, com a pandemia do novo Coronavírus, no roteiro do curta, Alberto esclarece. “Na verdade eu tentava entender a relação do sonho com a pandemia de Covid-19, que iniciou logo depois do sonho. Foi quando lembrei de toda a filmagem que havia gravado com os sábios indígenas. Assisti ao material bruto, fui conectando uma coisa com a outra e entendi que era isso que Nhanderu [Deus em guarani] queria dizer. Que eu fizesse o filme e mostrasse para as pessoas a importância dos sonhos em nossas vidas. Nós guaranis, levamos a sério o que o sonho quer nos dizer. Por isso, temos um ritual antes de dormir, justamente para obter respostas de tudo que pedimos antes de dormir”, frisou.

Sobre o curta

No curta, o cineasta ressalta a importância das árvores para o povo guarani e tudo que já foi comprovado cientificamente que uma das causas relacionadas as epidemias de doenças estão vinculadas a questão do desmatamento. Nesta pandemia de Coronavírus, percebemos que cada sociedade tem a sua própria teoria do conhecimento e que muitas vezes, apesar de diferentes, elas convergem em muitos aspectos. 

“No curta, os Xieramoin [mais velhos sábios em Guarani] falam que as árvores estão se acabando. São elas que respiram a fumaça, que segura a doença ruim que se aproxima. Como as árvores estão sendo destruídas, a doença vem e destrói a humanidade de uma forma avassaladora. O escudo, que são as árvores, está fragilizado. A ideia do filme é uma forma de reflexão coletiva de como estamos lidando com o meio ambiente”, pontua

É o próprio cineasta quem, escreve o roteiro, filma e edita os filmes, curtas ou documentários produzidos por ele (Alberto Alvares/ Arquivo Pessoal)

“Esse filme mexeu emocionalmente comigo. Inclusive, fiquei doente, mas a sabedoria dos mais velhos me ajudou a seguir em frente e finalizar o curta. A ideia de registrar uma narrativa do meu povo dentro de uma câmera, de um filme, me fortaleceu para seguir adiante e finalizar mais um filme e deixar como acervo para o meu povo e para a sociedade”, enfatiza o diretor indígena.

Alberto salienta também que na antropologia, estuda-se que nenhuma cultura é melhor do que a outra, neste momento de tanta dificuldade que a humanidade está atravessando, em decorrência da pandemia de Covid-19, mais do que nunca estamos percebendo isso. Nas culturas ocidentalizadas, temos a ciência como forma legítima de saber e de diferenciar do que é certo ou errado e na cultura Guarani, os sábios fazem esse papel. Através deles, o povo segue o que é correto.

Quem é o cineasta guarani

Alberto Alvares é cineasta indígena da etnia Guarani Nhandewa, nascido na aldeia de Porto Lindo, Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai. É também ator, professor e tradutor de Guarani. Mora no interior do Estado do Rio de Janeiro desde 2010, com a mulher e os cinco filhos, período em que começou a se dedicar ao audiovisual como realizador e formador. Graduado em licenciatura intercultural para educadores indígenas pela Faculdade de Educação de Minas Gerais (UFMG), foi professor de audiovisual na formação de cineastas indígenas em Biguaçu (SC), em Paranhos (MS), no projeto da série de tevê Amanajé, o mensageiro do futuro e no projeto Inventar com a Diferença, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, no Rio de Janeiro.

Cenas dos bastidores do filme “Mitos e Lendas Indígenas – Como a Noite Apareceu, rodado em 2009, onde Alberto Alvares atuou como ator e tradutor (Patrick Tristão/Arquivo do filme)

Sua história no cinema aconteceu em 2008, quando foi tradutor do filme “Vermelho, Brasil”, do diretor canadense, Sylvain Archambault, que conta a história da chegada dos portugueses. Em seguida participou como ator do filme “Mitos e Lendas Indígenas – Como a Noite Apareceu”, do diretor Alexandre Perim, do Espirito Santo. O filme participou, inclusive, do Festival de Cannes – da Short Film Corner –, um portal com acervo de curtas de vários países. O curta foi o primeiro filme rodado totalmente na língua guarani com atores exclusivamente indígenas.

Depois do filme, o cineasta teve a ideia de fazer um documentário sobre um dos líderes guaranis, que hoje estaria com 111 anos, se estivesse vivo. Com o apoio da UFMG. Segundo o historiador guarani, o documentário foi gravado por mais de quarenta horas com o líder indígena, na época.

Alberto Alvares tem mais de 20 filmes produzidos, entre, longas, curtas e documentários e vem ascendendo como cineasta indígena no mercado cinematográfico. Além disso, já ganhou inúmeros prêmios nacionais e internacionais.

O interesse em produzir cinema – afirma ele – partiu do momento que percebeu que muitos cineastas passavam uma imagem distorcida da cultura indígena nos filmes que produziam.

“Percebi que os cineastas passavam uma mensagem distorcida sobre a cultura guarani. Como se o índio não pudesse se expressar e aparecia sem expressa e estático nos filmes, como se ele tivesse parado no tempo. Por isso, resolvi buscar parceria e mostrar meu próprio olhar da cultura indígena guarani que é muito rica e repleta de história, crenas e simbologia”, contou Alberto.

Atualmente, o cineasta está finalizando o mestrado em audiovisual, na UFF, onde também é professor do curso de Letras e em seu tempo livre, além do cinema, dá aulas de audiovisual nas aldeias para despertar o interesse das futuras gerações de não deixar a cultura guarani se perder a medida que o mundo vai evoluindo.

Seu filme de maior sucesso é o documentário “Último Sonho”, que ganhou prêmio no festival de cinema de Portugal, Doclisboa, em 2019. No longa, o diretor homenageia a memória do grande líder Guarani Wera Mirim. Guiado pelos sonhos, com orientação de Nhanderu, Wera Mirim, mesmo após seu passamento, continua a guiar seu povo através de sua sabedoria ancestral, para além da vida.

Sob o olhar da sociedade

O cineasta relata que atualmente muitos povos indígenas ainda usam indumentárias para fazer apresentação. Mesmo esta sendo uma forma de expressar a cultura indígena, muitas pessoas ainda entendem que a imagem do índio de 500 anos atrás é a mesma até hoje. Pois nem todos os índios vivem sem roupas em suas aldeias. Há aldeias urbanas, onde os povos indígenas vestem-se com roupas casuais do dia a dia.

Segundo ele, no Brasil, há 287 povos diferentes, e mais ou menos 187 línguas faladas. Às vezes, isso é um pouco esquecido. “Por exemplo, quando um estrangeiro chega ao Brasil e fala o português errado, as pessoas acham bonito. Mas, se um índio fala errado, eles querem corrigir. Para o índio, a língua portuguesa é muito difícil”, finaliza.

Sobre o preconceito de ser indígena

Para o cineasta, o preconceito está mais na sociedade do que no meio cinematográfico. “No cinema, nunca me deparei com a questão do preconceito. Mas de fora, já percebi que as pessoas te olham como se você não fosse capaz de produzir e dirigir um filme para o cinema. Hoje eu digo que posso disputar num festival, como diretor de igual para igual com outro diretor não indígena, e meu filme acaba ganhando. Eu faço com poucos recursos e ao mesmo tempo tem uma qualidade máxima e meu filme ganha de diretores não indígenas e isso mexe um pouco com o ego da pessoa”, salienta.

O cineasta guarani reforça que o cinema também é uma forma de lutar pelos direitos da sua cultura e de seu povo guarani, pois o povo indígena ainda é invisível ao olhar da sociedade.

“Para a sociedade, o índio existe só no Mato Grosso, no Xingu, na Amazônia. Eles não sabem ou não querem aceitar que que há índio em outras partes do país como, no Sudeste, Nordeste e Sul. E, o cinema, vem para mostrar outra realidade que a cultura guarani é predominante e acrescentou muito na cultura e na economia do Sudeste do Brasil”, finaliza o diretor indígena guarani.

Alberto pontua que no Brasil, o cinema ainda é de elite, diferentemente de outros países. “O cinema hoje, ainda está nas mãos da elite, onde os filhos dos ricos quem estão à frente das grandes produções, eles têm produtores que captam recursos para eles. Enquanto os pequenos cineastas, precisam fazer tudo sozinhos. Eu, por exemplo, escrevo meus roteiros, produzo, filmo e edito meus filmes. Aqui no Brasil é muito caro”, critica o diretor.