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26 de janeiro de 2022
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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – O horário do almoço se aproximava, mas não havia cheiro de comida saindo pelas portas e janelas. Um morador comprava R$ 2 reais de ovos na taberna, crianças tentavam estudar com o pouco de internet disponível, dois filhotes de gato dormiam abraçados e um cachorro batia as patas para subir nas tábuas e se ver livre do igarapé tomado de lixo.

Na casa da aposentada Lucidalva Souza da Silva, 67 anos, não tinha almoço. Ela teria de pedir na casa dos vizinhos, porque a água tomou conta de tudo no local. A cota do rio Negro atingiu 29,30 metros na semana passada e a previsão do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) é de que a cheia deste ano ultrapasse o marco histórico de 2012.

Dona Lucidalva é uma das 56 pessoas do povo Kokama em situação de extrema vulnerabilidade devido à subida do rio Negro. Com ela e os filhos, são 32 famílias morando na comunidade indígena urbana Edite da Silva Kokama, localizada no beco José Casemiro, bairro de Aparecida, no Centro de Manaus. “É um sofrimento muito grande. Não tenho condições de fazer nem comida mais. Minha casa está no fundo. Outro dia uma cobra sucuri comeu uma galinha e um cachorro. Moro aqui há 30 anos e todo ano é isso, mas desta vez está pior, a água está subindo muito rápido”, lamentou a aposentada.

Viúva há 13 anos, dona Lucivalda relata o drama que tem vivido para enfrentar a pobreza, a pandemia e, agora, a chegada das águas com a cheia do rio Negro. “A minha aposentadoria não dá para nada. O povo aqui está muito revoltado porque o governo esqueceu a gente aqui. Uma dúzia de tábua para gente levantar os assoalhos está custando R$ 200. Não temos esse dinheiro”, disse.

A aposentada Lucivalda Souza da Silva conta que todos no local pagam normalmente contas como de água e IPTU (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Para a moradora indígena, a situação este ano está ainda mais “triste e preocupante” por causa da enchente, já que, nos outros anos, relata, não alagou como agora. “Estamos aqui de mãos amarradas, porque não temos dinheiro. Comida e água nós pedimos nas casas dos outros. Temos muitas crianças aqui e nesta pandemia ficamos sem nada”, contou à reportagem da REVISTA CENARIUM.

Entre as crianças está uma filha adotiva da aposentada, de nove anos, que “só estuda quando tem dinheiro para comprar crédito para o celular”, diz a mãe, referindo-se à situação atual das aulas remotas por conta da pandemia.

Inspiração em meio ao caos

O que para a maioria é uma situação caótica e inadmissível, para o artista plástico Paulo Olivença, 52, é um modo de buscar inspiração na subida dos rios para pintar suas telas e expressar o atual momento em exposições futuras. Morador do local há 40 anos, Olivença conta à REVISTA CENARIUM que passou pelo Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas (Caua) por um ano e vem expondo seus quadros sempre que tem oportunidade, no Brasil e em outros países da América Latina e até da Europa. “O artista vive desses momentos. Sou um artista que vive no igarapé. Isso aqui para mim é um tesouro, para fazer, por meio da minha arte, uma crítica ao poder público inoperante”, diz Olivença, apontando para o igarapé poluído.

Artista Paulo Olivença usa o cenário caótico como inspiração para suas telas (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

O artista recorda as exposições já realizadas, em um contexto anterior ao da pandemia, em países como Peru, Colômbia, Alemanha, Suíça e em cidades brasileiras como São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis e Belém.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de a água tomar conta da casa dele, inviabilizando as atividades artísticas, Olivença responde, sem titubear: “pego uma canoa e vou pintar no meio do rio”. “O artista, o poeta, tem um pensamento diferente dos demais. Não digo melhor, mas é diferente. Estou feliz aqui, com meu povo, minha gente, minha arte. Quero poder expressar o que somos para que os turistas cheguem aqui e não vejam apenas uma cópia da Europa em todos os cantos”, declarou, referindo à arquitetura de prédios históricos da capital amazonense.

Na opinião do artista Kokama, Manaus deveria ter ocas espalhadas pela cidade, como uma forma de demonstrar a identidade regional. “Os turistas chegam aqui e se deparam com o Parthenon”, criticou.

Campanha de retirada das famílias

Enquanto aguarda uma providência do poder público, o cacique da comunidade, Railson Kokama, está mobilizando uma campanha para comprar madeira, de modo a levantar os assoalhos das casas, bem como para tentar comprar um terreno no Lago do Janauari, nas proximidades do município de Iranduba, região metropolitana de Manaus e, desta forma, levar as 32 famílias para morar com dignidade, em uma terra própria. “Esse lixo que você está vendo estava acumulado debaixo das casas, mas já foi feita uma limpeza aqui. Estava muito pior. Meu sonho e de muitos que moram aqui, nesta situação, é poder sair, construir nossas casas, uma escola para que nossas crianças não percam a tradição indígena. Já temos o terreno em vista. Custa de R$ 40 a R$ 50 mil”, disse o cacique.

Cacique Railson Kokama faz campanha para arrecadar recursos e retirar a comunidade do local (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

O cacique Railson explica que, após a aquisição do terreno, seja doado pelo poder público ou comprado com recursos de campanhas privadas, ele pretende levar para o local todas as famílias que se mostrarem interessadas em ir. “Quem quiser ir conosco, será bem-vindo. Quem não quiser, pode ficar aqui mesmo. Digo isso principalmente porque teremos nossas regras, viveremos de acordo com as leis indígenas”, esclareceu.

Dentro da comunidade, somente o cacique ainda fala a língua materna, realidade que ele pretende mudar com a construção de uma associação e uma escola, para que todos tenham contato bem próximo com as tradições.

O líder indígena relata, ainda, que, no momento, somente a Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime), vem apoiando as famílias com cestas básicas e tudo o que se faz necessário diante da atual situação.

De acordo com a coordenadora da Copime, Marcivana Sateré Mawé, a comunidade Edite da Silva Kokama, na região Central de Manaus, é uma das mais drasticamente atingidas pela cheia deste ano. “A gente já tem a gravidade do coronavírus que não passou, continua atingindo. E agora mais essa cheia que podemos observar aqui, e não precisa entender muito para saber a gravidade disso aqui, especialmente para as crianças, que estão correndo sérios riscos de contrair doenças, por serem tão inocentes e tomarem até banho nessa água suja. Infelizmente essa água aqui está doente, como está a população também”, frisou.

Marcivana questiona a ausência de assistência pelo poder público e aponta a comunidade como sendo um local “totalmente desassistido pelas autoridades”. “Esse olhar de responsabilidade não há. Isso que estamos tentando chamar a atenção. O problema daqui está se estendendo para outras comunidades no entorno do rio Negro. Se fosse só o caso de se deslocar para lugares mais altos, mas não é só isso. São doenças mesmo que são trazidas”, pontua.

Cestas básicas e kits de higiene

A líder da Copime faz, ainda, um apelo à sociedade para que doações sejam feitas para essas comunidades, não só de cestas básicas como de kits de higiene, doação de madeira para fazer as pontes e até mesmo colocar dentro das casas e proteger as poucas coisas que os moradores possuem. “Os moradores aqui já perderam móveis, pertences que são importantes para eles. Quando nos vemos diante de uma cheia dessas, é que podemos ver o quão omisso está o poder público diante dessa situação”, enfatiza.

Outra dificuldade relatada pela coordenadora da Copime é o registro dos indígenas, pois sem esse cadastro eles não conseguem acesso a alguns benefícios. Na comunidade, são 32 famílias e 56 pessoas, segundo Marcivana, dados confirmados pelo cacique da comunidade. “É lamentável a gente ver essa situação aqui. São muitas crianças, idosos, pessoas com deficiência. Muito triste ver esses povos originários serem empurrados para esses lugares descobertos de qualquer tipo de política. Precisamos mostrar que tem uma comunidade indígena expressiva morando aqui”, salientou.

Quem tiver interesse em colaborar com a campanha em prol da comunidade Edite da Silva Kokama, pode fazer uma transferência via Pix, pelo número de telefone (92) 996180169. A conta bancária é da instituição Nubank em nome do cacique Railson.

‘Operação Cheia’

Procurada pela reportagem da REVISTA CENARIUM, a Prefeitura de Manaus, por meio da Casa Militar e Defesa Civil, informou que o beco no qual está localizada a comunidade Edite Kokama está no cronograma para ser atendido pela “Operação Cheia”, que consiste na aplicação de recursos para compra de alimentos, mantimentos, kits de higiene, kit dormitório e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

De acordo com estimativa da prefeitura, cerca de três mil metros de pontes devem ser construídas em 19 áreas mapeadas pelo executivo municipal. Parte da madeira a ser utilizada será doada por órgãos de fiscalização, oriundas de material apreendido há quase dois anos.

A “Operação Cheia” conta com R$ 48 milhões para serem investidos no socorro às famílias em situação de vulnerabilidade devido à cheia do rio Negro.  

Moradores ficaram em uma situação ainda mais crítica devido à pandemia de Covid-19 e temem outras doenças (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)