Com aumento de mortes por Covid-19, Manaus usa vala comum para enterrar seus mortos

Por Paula Litaiff – Da Revista Cenarium

Com o aumento de mortes por Covid-19, Manaus precisou usar valas comuns para enterrar seus mortos. A informação foi repassada por familiares das vítimas fatais da doença e confirmada pela Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), vinculada à Prefeitura de Manaus.

Em nota, a Semulsp explicou que por conta do “aumento no número de sepultamentos, foi adotado o sistema de trincheiras para realizar o enterro das vítimas de Covid-19”, infecção causada pelo novo Coronavírus, cuja única maneira eficaz de prevenção, até o momento, é o isolamento social.

Um dos principais cemitérios de Manaus estão com dezenas de corpos sendo enterrados em valas comuns. Todos vítimas da Covid-19 (Sandro Pereira/Revista Cenarium)

Desde quando a pandemia chegou ao Amazonas, em meados de fevereiro deste ano, o Estado contabiliza 193 mortes, 2.270 pessoas infectadas e 728 pacientes recuperados, segundo dados oficiais da Secretaria de Estado de Saúde (Susam).

O Estado é o terceiro em maior proporção de pacientes infectados. São quase 28 casos para cada 100 mil habitantes, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O Amazonas só fica atrás de São Paulo e Ceará.

Prefeito chora

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), chorou nesta terça-feira, 21, ao falar do estado de colapso no qual vive o sistema de saúde da capital do Amazonas. Ele confirmou que valas comuns foram necessárias para os enterros de vítimas do novo Coronavírus e cobrou o presidente da República, Jair Bolsonaro, por mais liderança.

“O caso aqui não é de emergência, é de absoluta calamidade pública. Com isso, sou completamente contra as ideias do presidente, que insiste em abrir a economia. Tem que abrir o bolso do Estado e ser expansionista nesse momento, estimular a economia com dinheiro do Estado”, disse, em entrevista à CNN Brasil e a uma rádio do estado de Rio Grande do Sul.

Arthur disse que os casos de óbitos em decorrência da Covid-19  estão sendo subnotificados em Manaus. “As mortes são crescentes. Os hospitais estaduais têm evitado colocar no relatório a palavra “Covid”. No domingo, 122 pessoas morreram, sendo 17 em casa. Procuraram a rede hospitalar e não foram atendidas. Ontem, foram 106 mortes. Um número menor, mas 36 morreram em casa”, relatou.

Tristeza e conformação

Em menos de 24 horas após ver o pai passar mal em casa, a  professora Ariedna Souza, 28 anos, sabia que teria que enterrá-lo em uma vala comum do Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, na zona Oeste de Manaus, sem velório e sem despedida.

As imagens das valas com os caixões são chocantes para quem vê de cima (Sandro Pereira/Revista Cenarium)

“Meu pai tinha 62 anos e sofria de uma debilidade no pulmão por conta de uma tuberculose e assim que ele entrou em contato com o vírus já apresentou muita falta de ar. A gente levou para o pronto socorro, mas já estava sem vida. Foi tudo muito rápido e a família já sabia que não podia ter velório e nem sepultamento separado”, lamentou  

No mesmo cemitério, a estudante universitária Ana Maria Viana, 32 anos, ficou em silêncio durante todo o ritual de enterro da avó, de 81 anos, vítima do Covid-19. “Ela teve uma pneumonia em casa e como a febre não passava, fomos para o hospital. Foi bem pior. Lá, ela não ficou viva dois dias depois de contrair a doença. A gente sabia dos riscos, mas queria salvar”, lamentou.

Laços familiares

De acordo com a Prefeitura de Manaus, a metodologia do uso de valas comuns para enterrar mortos por Covid-19 tem sido utilizada em outros países, e visa preservar “a identidade dos corpos e os laços familiares”, bem como distanciamento entre os caixões e com a identificação das sepulturas.

Por conta dos conflitos entre familiares e a imprensa, o acesso ao cemitério Nossa Senhora Aparecida está restrito apenas aos que forem enterrar seus entes queridos, sendo permitido a quantidade máxima de cinco pessoas, de acordo com o decreto municipal publicado no Diário Oficial do Município. As entrevistas foram concedidas à reportagem fora do cemitério.

Corpos em frigoríficos

Para atender a alta da demanda de sepultamentos na capital, a Prefeitura de Manaus instalou também contêineres frigoríficos no cemitério Nossa Senhora de Aparecida, onde os caixões ficam para aguardar o momento do sepultamento sepultamentos.

“Isso foi feito para poder liberar os carros do S.O.S Funeral, em imediato, para atender com eficiência e rapidez às demandas. Estamos trabalhando para dar fluxo aos sepultamentos de maneira ordenada e atender a toda a demanda”, diz trecho da nota.

Isolamento prorrogado

Dando continuidade às medidas para evitar a circulação e a aglomeração de pessoas, como forma de prevenir a disseminação do novo Coronavírus, causador da Covid-19, o governo do Amazonas prorrogou, até o dia 30 de abril, a suspensão do funcionamento de estabelecimentos comerciais e serviços não essenciais e de recreação e lazer, bem como dos serviços de transporte intermunicipal e interestadual terrestre de pessoas.

A determinação consta no Decreto Estadual nº 42.216, publicado na edição do Diário Oficial do Estado (DOE) de 20 de abril. Conforme o decreto, segue mantido o funcionamento de estabelecimentos e serviços essenciais voltados à alimentação, como supermercados em geral, atacadistas e pequenos varejos alimentícios, além de padarias (exclusivamente para venda de produtos) e restaurantes (somente modalidade delivery, entrega em domicílio).

São liberados ainda estabelecimentos com venda de alimentos e medicamentos para animais. Os serviços de distribuição de água, gás, energia, telefonia e internet, considerados essenciais, também têm funcionamento mantido.

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