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21 de novembro de 2021
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Marcela Leiros – Da Cenarium

MANAUS – O relatório final da CPI da Covid, apresentado pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL), na manhã desta quarta-feira, 20, pontua, especificamente, a responsabilidade do governo federal na propagação do “Kit Covid” na Amazônia, destacando, principalmente, o uso de Manaus como “experimento” na tentativa de transformar medicamentos, como cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, em política pública eficaz no combate à Covid-19. Nenhuma outra autoridade, estadual ou municipal, foi responsabilizada.

O relatório conclui que uma das bandeiras do governo federal “foi a defesa incondicional e reiterada do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, bem como de outros fármacos, como a ivermectina e a azitromicina, mesmo após estudos científicos, a OMS e outras autoridades sanitárias em todo o mundo demonstrarem a ineficácia desse tratamento”.

Leia também: Depoimento em CPI reforça que ‘Capitã Cloroquina’ mobilizou tratamento precoce em Manaus

Trecho do relatório final da CPI da Covid (Reprodução/Senado Federal)

TrateCov

O documento relembra que Manaus foi palco, no dia 11 de janeiro de 2021, do lançamento do aplicativo TrateCov pelo Ministério da Saúde. O evento teve a presença do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como “Capitã Cloroquina”. Porém, dez dias depois do lançamento, em 21 de janeiro de 2021, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma nota na qual recomendava a “retirada imediata do ar do aplicativo TrateCov” e pontuava que, entre outras coisas, “assegurava a validação científica a drogas que não contam com esse reconhecimento internacional”.

Após o lançamento do aplicativo – originalmente destinado a orientar pacientes com sintomas da Covid-19, foi constatado que todas as combinações de sintomas levavam à prescrição de antibióticos e cloroquina, ivermectina e outros fármacos para náusea e diarreia ou para sintomas de uma ressaca, como fadiga e dor de cabeça.

Leia também: ‘Kit Covid’ de Manaus no Tribunal Internacional: ex-ministro aponta ‘crime contra humanidade’

Trecho do relatório final da CPI da Covid (Reprodução/Senado Federal)

Compra de comprimidos

Ainda no tocante à insistência do governo federal referente aos remédios sem eficácia comprovada no Amazonas, o relatório também relembrou que, quando depôs na CPI nos dias 19 e 20 de maio, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi indagado, ainda, sobre o envio de 120 mil unidades de hidroxicloroquina ao Estado do Amazonas e sobre um ofício, datado de 7 de janeiro de 2021, e encaminhado à Secretaria de Saúde do referido Estado, determinando a difusão e adoção do tratamento precoce como forma de diminuir o
número de internações e óbitos decorrentes da Covid-19. À época, o Estado estava às vésperas de enfrentar a “Crise do Oxigênio”.

Leia também: Governo do AM pediu ajuda federal antes de crise de oxigênio, conclui CPI da Pandemia

Trecho do relatório final da CPI da Covid (Reprodução/Senado Federal)

Experimento

O relatório pede também o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), outras 65 pessoas e duas empresas por diversos crimes, principalmente, por “crimes contra a humanidade”. Como constatação desses crimes é citado o “experimento científico que desobeceu os limites determinados pela Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa]”, ocorrido na cidade de Manaus, “quando houve a utilização indevida de proxalutamida pelo médico Flávio Adsuara Cadegiani para o tratamento da Covid-19”.

Segundo o relatório, o médico alterou o local do estudo e o número de participantes autorizados pela Conep, bem como não apresentou os termos de consentimento livre e esclarecido dos pacientes e incluiu pacientes
graves no estudo, o que não fazia parte do pedido de autorização original, entre outras irregularidades”. O documento afirma ainda que “seres humanos foram utilizados como cobaias”.

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Trecho do relatório final da CPI da Covid (Reprodução/Senado Federal)


Kit entre os indígenas

O “Kit Covid” também foi extremamente difundido entre os indígenas, não apenas na Amazônia. O relatório pontua que a documentação analisada pela CPI demonstra que o governo estaria disposto a oferecer alguma assistência, como cestas de alimentos e a “proteção ilusória do Kit Covid”, no lugar de cumprir o dever de garantir aspectos fundamentais e realmente eficazes para prevenir a Covid-19 entre os povos tradicionais. “Esse conjunto de atitudes indica que, com relação aos indígenas, o governo tratou o vírus não como um risco, mas como uma oportunidade”.

Trecho do relatório final da CPI da Covid (Reprodução/Senado Federal)

Veja o relatório na íntegra: