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26 de novembro de 2021
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Com informações do Infoglobo

SÃO PAULO e BRASÍLIA – Ao contrário do Brasil, a letalidade tem crescido nas cidades rurais da Amazônia, em especial naquelas sob pressão de crimes ambientais, como desmatamento, grilagem de terras e extração ilegal de minérios. Nos últimos anos, a chegada do crime organizado ligado ao narcotráfico sobrepôs uma nova camada de criminalidade as já existentes na floresta, e impulsionou a escalada de mortes.

A conclusão é de um estudo inédito do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, obtido pelo GLOBO, que traça um diagnóstico pioneiro da violência numa das regiões mais estratégicas para o futuro do clima. Às vésperas da COP26, o levantamento alerta que os órgãos ambientais de fiscalização e o aparato de segurança pública atuais não serão suficientes para conter mais essas complexas cadeias criminosas que disputam entre si as rotas nacionais e transnacionais de drogas que cruzam a floresta.

O estudo “Cartografia das Violências na Região Amazônica” mostra que, na última década, a região Norte foi a que teve o maior salto da letalidade. Em 2020, os nove estados da Amazônia Legal apresentaram taxas de mortalidade mais altas do que a média nacional. Enquanto a brasileira foi de 23,9 mortes a cada 100 mil habitantes, nos Estados da Amazônia ficou em 29,6. Amapá (41,7), Acre (32,9) e Pará (32,5) se destacaram entre os mais letais.

Pelo menos 20 facções com base prisional atuam em território amazônico, revela o levantamento. O crime organizado explodiu na região depois que a organização criminosa paulista se fortaleceu no Paraguai, em meados de 2017, e passou a controlar parte do corredor que escoa a droga produzida em países andinos para o Brasil, Europa e África. Em busca de novas rotas, a facção carioca intensificou suas ações no Norte do país. A partir daí, novos bandos surgiram, e uma guerra local foi conflagrada.  

O Brasil viveu o auge da violência em 2017, em parte pela disputa dessas facções, e acumulou quedas de mortes nos anos seguintes. Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a dinâmica socioambiental da Amazônia impediu que a região entrasse no ciclo virtuoso recente de redução. As áreas urbanas dos estados amazônicos até tiveram uma diminuição dos assassinatos, mas não as rurais. Nessas, de acordo com o levantamento, a mortalidade se intensificou.

“Existe um imbricamento dos crimes organizados com os ambientais na Amazônia. As rotas são as mesmas, o rio é o mesmo. Ali passa a droga, a arma, a madeira, o minério”, afirmou Lima. Qual a diferença entre eles? As facções têm o poder das armas, o de estar presente onde o Estado não conseguem chegar. A floresta está sendo ocupada de forma criminogênica e o resultado é o estouro da violência.

A dinâmica da violência na região tem sido diferente da do restante do país, apontou o levantamento, em especial pela interiorização das mortes. A taxa de violência letal nas zonas rurais na Amazônia apresentou um crescimento de 9,2% entre 2018 e 2020, na contramão do que ocorreu no restante dos municípios brasileiros, onde houve queda de 6,1%. Nos municípios intermediários, o crescimento foi de 13,8% no período.