30 de novembro de 2020

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Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – A Amazônia continua registrando crescimento no índice de devastação em seu território. De acordo com levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), divulgado nessa sexta-feira, 20, o desmatamento da região em outubro foi o maior dos últimos dez anos para o mês.

Os dados foram coletados por meio dos satélites do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do órgão, que registraram um desmatamento de 890 km² no mês, um crescimento de 49% em relação a outubro de 2019. Segundo o instituto, de janeiro a outubro deste ano, a floresta amazônica perdeu 6.920 km² de área verde, 23% a mais que no mesmo período do ano passado.

Conforme mostra o estudo, o Estado do Pará é o que mais desmatou, com 53% do total registrado no mês. Rondônia (12%), Acre (9%), Mato Grosso (9%), Amazonas (9%), Maranhão (5%), Roraima (2%) e Amapá (1%) completam a lista, respectivamente.

Maioria (53%) do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse (Ricardo Oliveira/ Revista Cenarium)

“Em outubro de 2020, a maioria (53%) do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O restante do desmatamento foi registrado em Assentamentos (28%), Unidades de Conservação (15%) e Terras Indígenas (4%)”, diz trecho do levantamento.

Degradação

Os satélites do SAD registraram que as florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 2.351 km² em outubro de 2020, um crescimento de 279% em relação ao mesmo período do ano passado, quando a degradação detectada foi de 621 quilômetros quadrados.

“Os incêndios florestais são alguns dos exemplos de degradação. Esses incêndios podem ser causados por queimadas controladas em áreas privadas para limpeza de pasto, por exemplo, mas que acabam atingindo a floresta e se alastrando. A extração seletiva de madeira para fins comerciais é outro exemplo de degradação”, mostrou o instituto.

Confira ao boletim:

Falta de controle

Para o ambientalista mestre em Ecologia, Carlos Durigan, diretor da Associação Conservação da Vida Silvestre (WCS Brasil), a pressão para a ocupação da Amazônia com atividades exóginas, como aquelas voltadas para o setor agrícola, principalmente, e falta de controle sobre a ocupação ilegal de terras são os fatores fundamentais para o aumento do desmatamento.

“Um grande promotor do desmatamento da Amazônia é a ocupação ilegal, irregular de terras públicas, como nós chamamos de grilagem, e isso é um dos fatores que estão levando a essa expansão de atividades que são mais degradantes. A ocupação se dá com o desmatamento, com o uso do fungo para a limpeza das áreas, e isso leva a todo esse cenário bastante degradante”, explicou.

Segundo Durigan, é preciso haver um forte trabalho da gestão pública em todos os níveis, sejam eles municipal, estadual ou federal, e do envolvimento da sociedade civil e de instituições de pesquisa para construir um plano de ordenamento territorial na Amazônia que incluam incentivos às práticas sustentáveis.

“O modelo que está sendo imposto para a região, que vem de fora, é o que está levando a este cenário e a cada anos vamos nos deparar com situações como esta: de aumento do desmatamento”, salientou.

Visita à Amazônia

No início deste mês, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, que também é presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, sobrevoou o Amazonas na companhia de embaixadores de dez países, para mostrar tanto as áreas afetadas pela ação humana quanto partes preservadas.

A viagem foi realizada após oito países europeus enviarem uma carta ao vice-presidente afirmando que a alta do desmatamento poderia dificultar a importação de produtos brasileiros.

“Sem dúvidas, isso confirma a importância fundamental de garantir que os órgãos governamentais nacionais possuam a capacidade adequada para monitorar essas tendências e aplicar as devidas leis”, destacou o grupo sobre as taxas de desmatamento na Amazônia.

Plano contra desmatamento

Na semana passado, sete partidos de oposição, aliados a 10 ONGs ambientais, chegaram a apresentar ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação para tentar obrigar o governo federal a recolocar em prática o plano de prevenção e controle de desmatamento na Amazônia, aprovado em 2014.

A ação exige que o governo volte a adotar ações que as metas previstas na lei brasileira e em acordos internacionais assinados pelo Brasil e internalizados na legislação nacional, sejam cumpridas.

‘Tora de árvore por cerveja’

Na noite de quinta-feira, 19, o presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido), ao lado do superintendente da Polícia Federal (PF) no Amazonas, Alexandre Saraiva, voltou a atacar os indígenas e nativos da região amazônica e a atribuir a eles o aumento do número de desmatamento.

Veja também: Bolsonaro diz que ‘índio troca tora de árvore por cerveja’ na Amazônia e instituições reagem

“As críticas são potencializadas. Existe o desmatamento ilegal? Existe! Existe até locais onde o índio troca uma ‘tora’ por uma Coca-Cola ou cerveja”, disse o presidente sobre o posicionamento da imprensa internacional contra o governo quanto a falta de ações para a proteção às florestas.

A declaração de Messias gerou uma reação adversa de instituições que representam os indígenas e povos tradicionais da Amazônia. “Uma fala que não tem base em argumentos jurídicos”, disse o vice-coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e líder do povo Wapixana, Mário Nicacio, disse à REVISTA CENARIUM.

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