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18 de janeiro de 2022
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Iury Lima – Da Cenarium

VILHENA (RO) – Um manifesto em forma de música e poesia foi lançado no início do mês de setembro para alertar que a Floresta Amazônica está em crise. A música ‘Canção pra Amazônia’, interpretada por 31 artistas – entre eles, a atriz Camila Pitanga -nasceu por meio do projeto do letrista, compositor, jornalista e escritor Carlos Rennó, que reafirmou, nesta segunda-feira, 20, a paixão e compromisso com a preservação do meio ambiente.

Rennó é um dos grandes nomes da música brasileira e usou da insatisfação com os atuais rumos trilhados na política ambiental do País para conceituar o trabalho. “Não é novidade pra mim esse processo ‘destrutivista’, porque vimos (a destruição das florestas) passando. Estamos passando [por ela] e vamos passar. Eu sinto, como artista, que a sociedade acordou, parte dela, né, muito tarde (sic) ”, declarou o compositor. 

Engajamento

Carlos Rennó conta que a “Canção pra Amazônia” surgiu como uma ideia derivada de outro importante trabalho: ‘Demarcação Já’, parceria com Chico César, lançada oficialmente em 2020, também em formato engajado, defendido por ele como crucial para entregar mensagens à sociedade. A líder indígena Sonia Guajajara conheceu a letra da música antes da produção e gravação final e então surgiu o convite para a primeira parceria entre o letrista e o cantor Nando Reis.

Aos 65 anos, Carlos Rennó assina canção em defesa da Amazônia, projeto engajado com a participação de mais de 30 artistas (Paula Marina/Divulgação)

“Isso possibilitou que eu começasse uma relação com o Nando. Foi lindo e tempos depois, há quase dois anos, eu vim a convidá-lo a fazer a ‘Canção pra Amazônia’. Eu acho que o artista que se engaja nessa forma de arte contribui para um processo de melhora e superação, ou pelo menos mitigação de um problema que com certeza vai se manifestar crescentemente nos próximos tempos”, disse Rennó.

“Tanto ‘Demarcação Já’ quanto ‘Canção pra Amazônia’, como também ‘Para onde Vamos’, uma parceria com Beto Villares, além de outras canções com Lenine, com o próprio Chico César, no caso de ‘Reis do agronegócio’, indicam uma ligação que eu tenho com esse o tema socioambiental. Uma ligação, com a natureza e que remonta há algumas décadas”, detalhou o compositor.

“A canção, por conjugar duas artes tão comunicadoras como a música e a poesia, tem o poder de fazer isso pelo coração, podendo atingir cabeça e coração”

Carlos Rennó

Inspirações

Carlos conta que a consciência dele sobre a destruição da fauna e da flora se manifestou quando vivia em Mato Grosso, – em uma localidade hoje pertencente ao Mato Grosso do Sul – em meados da década de 1970. “(…) E eu vindo de São Paulo, chegando lá, sofri um grande impacto da presença da natureza e a consciência da destruição nasceu ali”, lembra o compositor. 

“Na época, já falávamos e sentíamos o perigo da destruição da Amazônia. Veja, isso há 45 anos atrás, entende? Até mesmo o meu círculo de artistas eu acho que acordou tarde. Embora, por um lado, nunca seja tarde e, ao mesmo tempo, é tarde”, ponderou.

O letrista, compositor, jornalista e escritor Carlos Rennó, em entrevista online à CENARIUM (Iury Lima/Cenarium)

Arma contra o negacionismo e o clichê quando se fala de Amazônia, a música contou com um grande trabalho de pesquisa, reunindo dados científicos sobre a devastação do bioma. “Se você vir a lista de agradecimentos, ali constam ambientalistas, cientistas (…), enfim, pra chegar a uma precisão, a maior possível, na definição de alguns versos”, respondeu o letrista.

“A civilização que se diz avançada, evoluída e racional, está destruindo essa casa. Enquanto povos, que essa civilização taxa de primitivos e vagabundos mantém e são a única esperança de preservação no mundo, que são os indígenas e as populações tradicionais”, pontuou o artista e defensor da natureza.

Parcerias e resultados

A porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil, Carolina Marçal, diz que a organização viu na música uma oportunidade de alertar sobre a devastação. “A arte é uma ferramenta poderosa de posicionamento da sociedade a respeito de um tema, de engajamento, de mobilização e de transposição de mundos. A gente viu nessa canção a oportunidade de aproximar uma pauta tão dura aos grandes centros urbanos, de uma maneira mais assimilável e bela do que, normalmente, conseguimos”, explicou.

“Com uma crise climática a nível global, a floresta amazônica é fundamental para o enfrentamento, assim como a manutenção dos direitos indígenas, além da manutenção da legislação socioambiental, que foi construída ao longos dos últimos 30 anos e que tem sido desmontada”, lamentou a porta-voz do GreenPeace.

Em entrevista à CENARIUM, Carolina Marçal repudiou a omissão do governo federal e falou sobre aproximar a floresta dos centros urbanos (Iury Lima/Cenarium)

Além de aproximar a floresta das comunidades urbanas, para Carolina, a obra tem ainda outro papel fundamental: envolver as pessoas no processo de salvar a Amazônia. “Elas fazem parte da resistência então, acho que isso tem sido cumprido. A música tem rodado bastante, alcançando públicos novos, as pessoas têm se emocionado e se sensibilizado com essa mensagem, ajudando bastante nesse momento tão sensível para as florestas, os seus povos e, também, para o Brasil como um todo”, pontuou Marçal. 

“Quando você envolve nomes tão grandes e tão diversos da música brasileira, você consegue dialogar com públicos que você não conseguiria de outra forma. A resistência é plural, ela envolve uma diversidade gigante de gêneros, de pessoas, de raças, de vontades, de existências (…) os convites foram pensando em contemplar essa diversidade que é nossa, enfim, que faz parte da gente”. 

Apelo e protagonismo

Lançada em 5 de setembro, justamente do Dia da Amazônia, a letra expõe as feridas deixadas pela degradação que ocorre por meio do desmatamento, das queimadas e do garimpo. Além de denunciar a omissão do governo federal, a canção escancara o desrespeito às populações tradicionais e alerta para o aumento das emissões de dióxido de carbono (CO²), que contribuem para as mudanças climáticas. 

Thaline Karajá, cantora indígena do Pará e integrante do elenco de intérpretes da ‘Canção pra Amazônia’. (Carlos Rennó/Acervo pessoal)

Entre os artistas que se doaram ao projeto, estão ainda Nando Reis, que musicalizou a letra de Rennó, além de Preta Gil, a dupla Anavitória, Gilberto Gil, Caetano Veloso, bem como as cantoras Duda Beat, Daniela Mercury, Maria Bethânia, além de vários outros. Um verdadeiro encontro de gerações pela preservação do bioma amazônico. Com um protagonismo de povos das florestas, as cantoras indígenas Djuena Tikuna e Thaline Karajá, engrandecem a composição, além de representatividade da comunidade LGBTQIA+ por meio da participação da cantora Majur.

Ouça Canção pra Amazônia