4 de março de 2021

Priscilla Peixoto- Da Revista Cenarium

MANAUS- Manuela Otto, 25, foi mais uma transexual que teve a vida ceifada em um país onde os índices de violência contra as travestis e transexuais são extremamente altos. Assassinada com um tiro nas costas e outro no braço no último dia 13 de fevereiro, em um motel na Zona Norte de Manaus, Manuela não teve a dignidade preservada nem mesmo depois de morta. O suspeito seria um policial militar identificado como Jeremias Silva, pertencente a 12º Companhia Interativa Comunitária (Cicom).

Para a presidenta da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Amazonas (Assotram) Joyce Gomes, 30, o crime e a forma como ele foi disseminado é um reflexo da violência que a comunidade trans passa diariamente. “Não basta o crime de uma forma bárbara, algumas mídias noticiaram o fato de um jeito negativo, pejorativo, deslegitimando nossas identidades e a da vítima. Isso carrega uma negatividade dando espaço para comentários maldosos causando mais dor para a família”, lamentou Joyce.

Mesmo na condição de artista, empreendedora, professora do Liceu de Artes Claudio Santoro, professora do Sesc e de tantos outros trabalhados realizados, para os representantes da comunidade T no Amazonas, Manuela Otto, foi reduzida à figura de uma simples travesti sem contribuições expressivas para a sociedade.

Manuela Otto era atriz e fazia aulas de teatro (Reprodução/Redes Sociais)

“Os veículos de informação minimizaram a importância que a Manuela tinha. Minimizaram seus trabalhos desenvolvidos na sociedade e diante dos familiares. A colocaram como um homem, quando na verdade era uma mulher trans. Retiraram o respeito e os nossos direitos até depois da nossa morte”, protestou Michele Pires, que também é membro da Assotram.

Michele contextualiza o crime diante da escalada da violência contra a população trans. “Não foi uma morte por velhice ou doença, mas uma morte cruel praticada todos os dias por uma sociedade sexista, LGBTfóbica, heteropatriarcal e infelizmente abordada pela mídia de forma tão triste e depreciativa”, lamentou Michele.

Dados e invisibilidade

Em novembro de 2020, a FolhaPress divulgou dados de pesquisas realizadas pela a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), somente em 2019 a entidade constatou 124 homicídios de pessoas trans no Brasil. Desse total, 121 eram mulheres trans e travestis, o restante seriam transgêneros. As maiores vítimas seriam o gênero feminino com 97,7% dos casos. E quando se trata de trans preta e pardas a porcentagem também atinge assustadores níveis de 82%, segundo a entidade.

Em 2020, os números aumentam assustadoramente, revelando 175 assassinatos de trans e travestis no País. Apesar de toda sua bagagem profissional, Manuela não foge em nada das características sempre encontradas das vítimas que fazem parte dos tristes números apontados pela Associação Nacional de Travestis. Manuela era trans, preta, classe média e acabou vítima não só da violência de um homem, mas do machismo e da homofobia enraizada na sociedade.

De acordo com Michele Pires, o homicídio endossa, além da violência, a constatação da falta de políticas que promovam o respeito, inclusão e a diminuição dos crimes contra a população LGTBQUIA+. “A população trans é a que mais sofre, e o Amazonas apesar de não ter um senso voltado para a produção de dados é um dos que mais mata e agride transexuais”, afirma Michele.

Ela ainda ressalta que a falta de produção de dados abre portas para a invisibilidade. “Ficamos invisíveis, passamos a não existir para o Estado. Mas eles sabem que existimos porque trabalhamos e contribuímos para a sociedade em todos os âmbitos. Resistimos ao sistema normativo que quer nos silenciar e queremos propagar coisas positivas também”, declarou ela.

Medidas

Em nota, a Assotram repudiou o crime e as formas como determinados veículos de comunicação noticiaram o fato. Segundo a presidenta da Assotram, os membros da Associação vão entrar com ações legais junto à defensoria. “ Vamos tomar as medidas cabíveis, até porque a mídia, muitas vezes, sensacionaliza o fato porque quer, sem preocupação alguma de como isso vai chegar até as famílias das vítimas”, disse a presidenta da associação.

Confira abaixo a nota na íntegra:

A Assotram repudiou o crime e a forma que alguns portais de notícias abordaram o ocorrido (Reprodução/Instagram)

O crime

A associação do crime ao policial militar se dá por conta de imagens de vídeo das câmeras do motel. Nas imagens, é possível identificar o modelo, a cor e a placa do veículo que pertenceria ao militar. Porém, ainda não foi confirmado se o homem que aparece no vídeo é mesmo Jeremias Silva. Nas imagens, também é possível ver o homem alterado tentando sair do local, mas sendo impedido por funcionários que teriam ouvido barulhos de disparos de arma de fogo.

A Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS) iniciou as investigações sobre o caso e, inclusive, já solicitou à Justiça um mandado de prisão temporária do policial militar que, até então seria o principal suspeito do homicídio.

“Ele de qualquer modo era um sujeito à serviço da lei, ainda que não estivesse trabalhando no momento, ele não poderia usar um instrumento do estado para cometer crime. Crime contra minoria social e população subalternizada, estamos cansados disso, já basta”, desabafou Michele.