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26 de janeiro de 2022
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Thiago Fernando – Da Revista Cenarium

MANAUS – Entre os setores mais afetados pela pandemia da Covid-19, está a Educação. Muitos brasileiros não têm fácil acesso à internet, o que prejudica ainda mais o ensino à distância. O ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub assinou um despacho que autoriza o aproveitamento de atividades não presenciais para fins de cumprimento da carga horária mínima anual. A decisão reacendeu o debate entre os profissionais da área e alguns pais, que divergem quanto ao aproveitamento do ano letivo.

O despacho publicado no Diário Oficial da União, no último dia 29 de maio, homologa parcialmente o Parecer n°5/2020, do Conselho Nacional de Educação (CNE) o qual aprovou orientações para a reorganização do calendário escolar, além do uso das atividades realizadas virtualmente durante a pandemia do novo Coronavírus.

Para a professora e psicopedagoga Ocianne Oliveira, o Brasil não estava preparado para a implantação do ensino básico à distância, o que causará uma defasagem enorme no aprendizado.

“Tivemos que nos adaptar. A escola é um lugar importante para a criança, é onde ela socializa com outros da sua idade e se desenvolve em vários aspectos. Com certeza os alunos voltarão com uma defasagem enorme de aprendizagem. Principalmente os alunos que estão no processo de alfabetização e letramento. O corpo a corpo é importante nas séries iniciais”, informou Ocianne, que ainda ressaltou a importância do ambiente escolar não apenas para o desenvolvimento intelectual dos alunos, mas no processo de socialização.

Psicopedagoga Ocianne Oliveira relata a necessidade do convívio social para o melhor desenvolvimento das crianças (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

“Os pais são importantes nesse período de pandemia, porque eles que devem tentar manter/criar uma rotina em casa. Não é fácil, algumas crianças não aceitam desenvolver as atividades por não estarem no ambiente da escola. Casa e escola são ambientes distintos. E quando as aulas presenciais voltarem, terá que ter uma nova readaptação. A escola é um lugar importante pra criança, é onde ela socializa com outros da sua idade e se desenvolve em vários aspectos”, frisou a professora.

Para a pedagoga Daisy Parente, a experiência do ensino remoto implementado pelo Governo do Amazonas foi muito boa. De licença-maternidade após o nascimento do segundo filho, a professora aproveitou o período da pandemia para ajudar a filha Maria Helena, 8 anos, durante as aulas.

A pedagoga Daisy Parente aprovou o programa ‘Aula em Casa’, lançado pelo Governo do Amazonas (Arquivo Pessoal)

“Como mãe, não estou sentindo dificuldade nenhuma porque o Governo lançou uma plataforma de videoaula tanto na televisão, quanto na internet. Por esse motivo, acho ótimo o MEC aceitar essas horas-aula para que os alunos não percam o ano letivo. Porém, sei que no interior do Estado a situação é diferente. Algumas amigas professoras relataram as dificuldades, principalmente por conta da internet”, informou.

Realidades distintas e falta de comunicação

Não é de hoje a dimensão continental do Brasil é um dos principais fatores que dificulta a qualificação do ensino disponibilizado para a população. Para a diretora de Juventude Trabalhadora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Amazonas (Sinteam), professora Beatriz Calheiro, o Ministério da Educação, além de não levar em consideração esse agravante, deixou de ouvir os professores.

“Precisamos entender que o Brasil tem dimensões continentais e o nosso Estado também. Cada modalidade de ensino vai responder de diferente maneira conforme cada região. Toda decisão que não é bem dialogada, vai trazer piores consequências. A pandemia não é justa com ninguém, mas ela enfatiza ainda mais problemas sociais, econômicos e políticos. Esses problemas já vinham se arrastando ano após ano. O Ministério da Educação não ouve a categoria dos trabalhadores da educação e, muito menos, a classe escolar”, salientou Beatriz.

Análise publicada pela Unicef e FAS mostra que menos de 4% das comunidades ribeirinhas tem acesso a internet (Divulgação)

Outro ponto levantado pela professora é a necessidade de entender as diferenças entre o ensino remoto e o à distância. De acordo com Beatriz, o papel pedagógico necessariamente precisa ser melhor realizado para que o estudante possa realmente se preparar para o próximo ano.

“Naturalmente, entendemos que todos os esforços são para percorrer o melhor caminho, mas se eles não foram preparados de maneira intersetorial, casada, ouvindo a todos, não vai adiantar. Do gabinete, não existe a visão da realidade da sala de aula. As declarações do ex-ministro mostram que todos os alunos conseguiram ter acesso as aulas, mas sabemos que isso não aconteceu”, explicou Beatriz.

Por esses motivos, a professora afirmou que a decisão de aproveitar as atividades não presenciais é absurda. Ela lembrou que em outras situações, os calendários letivos de universidades e escolas foram modificados para se adequarem às especificas necessidades, como reformas estruturais, sendo concluídos de maneira presencial.

“Temos um ano jurídico com prazos legais, mas o ano letivo é distinto. Não são raras às vezes que, por inúmeros fatores como reformas e manutenções, um calendário da escola ou da universidade acaba sendo alterado. O ano letivo pode ser recuperado e transformado em um calendário 20/21. Essa saída poderia ser facilmente encontrada se fosse discutida por pais, professores e profissionais da área”, concluiu.

Homeschooling virou uma opção

A necessidade de adaptação levou muitos pais a buscarem soluções criativas para que seus filhos não deixassem de estudar. Esse foi o caso da advogada Juliana Valente Botelho, que implementou o homeschoolling (Educação Domiciliar) no processo de aprendizagem do seu filho Estêvão, 3 anos.

“No início foi desesperador, mas depois entendi que eu só tinha duas opções: surtar ou me dedicar. Obviamente, para o bem do meu filho, mergulhei fundo nessa experiência e descobri que é a coisa mais saudável que existe. Descobri suas debilidades e pude trabalhar num ensino personalizado para ele”, revelou Juliana.

A advogada Juliana Valente adotou o homescholling durante a pandemia (Arquivo Pessoal)

Para que houvesse um bom aproveitamento da modalidade de educação – comum em outros países como os Estados Unidos, mas ainda em processo de discussão no Brasil -. a advogada revela que precisou se dedicar bastante, até pela dificuldade que as crianças enfrentam em se concentrar.

“É super difícil uma criança manter o foco. Quase impossível. Por isso, assisto às aulas primeiro e depois passo o conteúdo, da minha maneira, para ele. Sei que para muitas crianças o ano foi comprometido, mas o Estêvão avançou para o cognitivo de crianças de 5 anos. Mas a realidade da maioria das mães não é essa. Ouvi relatos de mães que decidiram simplesmente abandonar a rotina de estudo dos filhos. “, disse a mãe.

Pesquisa aponta que ensino remoto não é unanimidade

Nesta quinta-feira, 18, o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Privado do Estado do Amazonas (Sinepe-AM) divulgou uma pesquisa realizada com pais de alunos de escolas do Estado que apontou que 61,7% estão satisfeitos com o ensino remoto oferecido durante a pandemia do novo Coronavírus. O levantamento foi realizado entre os dias 29 de maio e 10 de junho, com 2.833 entrevistados, sendo 98% deles realizando atividades remotas no segmento da Educação Básica.

Segundo a vice-presidente do Sinepe-AM, Laura Cristina Vital, a pesquisa foi realizada com o objetivo de ter um termômetro do ensino remoto oferecido pelas instituições privadas do Amazonas.

“Com o resultado, agora temos uma amostra também do que pensam pais e alunos sobre o retorno às aulas e, com isso, os gestores e mantenedores podem criar estratégias para melhorar o serviço oferecido”, disse.

Já no Ensino Superior, a pesquisa do Sinepe-AM apontou que 54,5% dos universitários estão muito satisfeitos com as atividades remotas. Do total de entrevistados, 97,7% deles estão utilizando o serviço durante a suspensão das aulas presenciais por conta do isolamento social.

Durante o levantamento, o sindicato também observou que 100% das escolas constataram cancelamento de matrículas neste período. E 41,5% das instituições afirmaram ter mais de 20 cancelamentos por conta da pandemia de Covid-19. Ao todo, 83,1% foram de turmas com crianças de 0 a 5 anos.