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25 de janeiro de 2022
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Com informações do InfoGlobo

AUTAZES (AM) – Na última semana de novembro, o Rio Madeira, que de uma margem a outra parece um mar (com uma largura média de cinco quilômetros), ficou pequeno na altura da vila centenária de Rosarinho, em Autazes (AM). Mais de 400 balsas de garimpo, conhecidas como “dragões” pelas “garras” de madeira, ferro e tubos que saem das estruturas em meio à fumaça preta expelida pelos motores de caminhão, enfileiraram-se como uma cidade flutuante, com cerca de 3mil pessoas — 60 vezes mais que a população da comunidade ribeirinha, de 50 habitantes, formada por descendentes do povo indígena Mura.

As fotos aéreas do Greenpeace chocaram o mundo e provocaram uma megaoperação da Polícia Federal (PF), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Marinha. Para os moradores das cidades que margeiam a bacia do Madeira, a concentração das embarcações é uma cena cotidiana há, pelo menos, 10 anos no verão amazônico, quando, de maio a novembro, os garimpeiros saem à caça do ouro no leito do rio mais seco.

“Aqui eles não tinham vindo ainda, mas sempre estiveram aí por baixo”, diz o ribeirinho Ivan Medeiros, de 68 anos, que mora, desde que nasceu, em Rosarinho, apontando no horizonte em direção ao sul do Amazonas, mais precisamente para as cidades de Borba, Manicoré, Novo Aripuanã e Humaitá, onde a megaoperação não chegou e onde ainda se aglomeram centenas de balsas no rio.

Descendentes de agricultores e seringueiros do Ciclo da Borracha, parte dos moradores desses municípios foi, aos poucos, migrando para o garimpo fluvial como um meio de vida mais rentável.

“Nós trabalhamos agora para sobreviver no inverno (quando o rio enche e a garimpagem fica inviável). Não recebemos nem o auxílio emergencial do governo, porque o cadastro não sai. Estudei até o terceiro ano e só sei fazer isso”, diz o garimpeiro Edivan de Jesus, de 24 anos.

Ao lado dele, Vitor Gomes, 19, exibe a tatuagem do rosto do pai no braço e diz que, como ele, é “garimpeiro com orgulho, desde criança”. Todos ali estão ilegais, e não se sabe ao certo quem são os investidores que podem estar por trás do negócio mais rentável para uns do que para outros. Em geral, os “braços” do garimpo ganham R$ 1.500 por mês, o que varia de acordo com o tanto de ouro que retiram. Segundo eles, o esquema funciona como uma sociedade: 30% dos lucros ficam com os operadores; e o resto com o patrão, que custeia o maquinário, combustível e o mercúrio. O patrão pode ter dezenas de equipamentos, não há controle.

Nas balsas, Edivan e Vitor trabalham como “rodadores” de uma roda de madeira gigante com quatro cabos, chamada de “sarinho”, enquanto uma mangueira suga o fundo do rio e joga os sedimentos em uma espécie de escorregador com carpete, que retém o pó de ouro e lança de volta a lama. O processo é movido a motores de caminhão, que chegam a consumir mais de 500 litros de óleo diesel, por dia. Em plena floresta amazônica, a estrutura parece uma minifábrica saída da Primeira Revolução Industrial, que expele fumaça preta e emite um barulho ensurdecedor.

Os trabalhadores se alternam em turnos de seis horas, e o motor não para um minuto. Para os garimpeiros, o dia dura 40 horas, que é o período em que eles pausam o processo e fazem a “depescagem” — ou lavagem do carpete.

“As cozinheiras da cidade fazem fila para trabalhar aqui. Ganham muito mais do que em loja ou como professora”, relata Edivan.

Cidade flutuante

Como os garimpeiros iniciam a corrida do ouro no verão e só regressam no inverno, alguns levam a família junto e transformam o segundo andar da minifábrica em moradia. Nas balsas, havia papéis de parede que imitavam azulejo, aparelhos de internet wi-fi, televisões e vasos com espadas de São Jorge. A estrutura toda não sai por menos de R$ 100 mil. No enfileiramento das embarcações, acaba nascendo a cidade flutuante, com estruturas servindo só de mecânica, outras de mercadinho e outras, mais afastadas, de prostíbulos.

“Mas droga e prostituta tem em todo lugar”, ironiza um garimpeiro.

No dia 29 de novembro, os garimpeiros de Borba (AM) tiravam com pressa os motores e as mangueiras das balsas, alarmados com a possível chegada da PF ou do Ibama. No almoço, 20 deles se reuniram para dividir um peixe e uma costela de boi que quase não tinha carne, só osso. Os trabalhadores dos garimpos ilegais do Madeira alimentam uma engrenagem poderosa que tira o ouro do subsolo amazônico, impacta o meio ambiente e se integra a ações do tráfico e a uma rede de corrupção, por meio da lavagem de dinheiro.

Todos os garimpeiros também mantêm segredo sobre a identidade dos compradores do ouro ilegal. A reportagem ouviu seis relatos de que, a cada quinze dias, desce um hidroavião no Rio Madeira com um “empresário” — que paga em dinheiro vivo os líderes das balsas e leva embora as bolotas de ouro extraídas da Amazônia. A chegada é tão esperada que, quando a aeronave do Greenpeace deu rasantes para fazer as fotos, alguns garimpeiros comemoraram, pensando que era o comprador. Nos registros fazendários das cidades da região, não há menção a aquisição de ouro ou mercúrio.

O garimpo ilegal também é um meio de vida perigoso. O Madeira recebeu esse nome pela sua forte correnteza que arrastava troncos de árvores. Nas suas redes sociais, os garimpeiros gostam de exibir vídeos manejando as balsas no rio em meio às corredeiras — uma espécie de rafting. Outro perigo surgiu nos últimos meses: a aparição de piratas, que chegam de noite, amarram os tripulantes e roubam inclusive o ouro.

Fora os bancos de areia e as picadas de “mutucas”, há ainda o problema do mercúrio. Ao pó de ouro tirado do carpete é aplicado o “azougue”, como eles chamam o mercúrio, que forma uma amálgama branca. O minério fica amarelo após a mistura ser queimada numa concha de aço inox, o “cadinho”, que, segundo eles, “recupera o mercúrio”. O vapor é altamente tóxico e as sobras do mercúrio são guardadas em garrafas de plástico ou vidro.

“É loucura, a gente não desperdiça mercúrio, não. Custa R$ 1 mil o quilo”, afirma o garimpeiro Miguel de Ferreira Filho, de 47 anos.

Na operação que ateou fogo às balsas, o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Leandro Almada, comparou a atividade aos laboratórios de drogas:

“Aqui todo mundo está ilegal. Ou fazemos a destruição ou não se faz nada”.

Durante a viagem pelo Madeira, a equipe do GLOBO ouviu de moradores do entorno que comprariam um barco de garimpo se tivessem dinheiro, mesmo sabendo se tratar de crime ambiental.