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25 de junho de 2021
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Alessandra Leite – Da Revista Cenarium

MANAUS – Dezessete anos após início do projeto musical indígena Myra Yiá – Árvore cheia de frutos – cujas primeiras sementes foram lançadas na comunidade Terra Preta, situada à margem esquerda do rio Negro, distante de Manaus aproximadamente quatro horas de barco, no ano de 2004, o educador musical sateré-mawé Heronaldo Pereira dos Santos, recebe o primeiro patrocínio da iniciativa privada – por meio da Lei de Incentivo à Cultura de Manaus – com aporte financeiro suficiente para transformar o coral de jovens nativos na primeira Orquestra Indígena do Amazonas.

Constituída por 50 músicos, dos quais o núcleo é formado predominantemente por artistas do povo Baré, a orquestra era apenas um sonho distante, que vinha buscando recursos para concretizar o projeto, desde 2019, tendo seu início interrompido em 2020 devido à pandemia de Covid-19. “Não fosse a pandemia, nós teríamos lançado a nossa orquestra em 2020, mas agora vai acontecer, com o patrocínio gerado a partir da Lei de Incentivo à Cultura”, disse Santos, referindo-se à certificação alcançada no enquadramento de artistas e empreendedores culturais, que ganharam mais seis meses para captar apoios das empresas patrocinadoras dos 13 projetos aprovados via Lei de Incentivo.

Coordenada pelo Conselho Municipal de Cultura (Concultura), a ação faz parte de um processo de desburocratização da Lei de Incentivo Fiscal, que proporcionou aos artistas a possibilidade de captar recursos da ordem de R$ 3,8 milhões, de imediato. O valor será investido em projetos dos empreendedores culturais em dificuldades em razão da pandemia.

Segundo o Conselho de Cultura, o proponente está habilitado a captar recursos para a realização do projeto “Ensino e Aprendizagem de Instrumentos Musicais e Canto Coletivo, buscando a valorização da cultura indígena”, com orçamento previsto em R$ 208 mil.

Para o presidente do Concultura, o escritor e poeta Tenório Telles, este é um momento significativo para o cenário artístico da capital amazonense, pois, de acordo com ele, representa a possibilidade de fomento à produção cultural e autonomia dos artistas.

Telles destacou ainda a importância da reformulação da Lei de Incentivo, que vai servir de ponte para facilitar o processo de captação de recursos junto aos patrocinadores. “Com base no diálogo, vamos esclarecer as dúvidas, também dos empresários, e construir um ambiente favorável para os potenciais investidores da cultura de nossa cidade”, disse o presidente do Concultura.

Resgate da afirmação identitária e Bio Instrumentos 

Núcleo do Coral durante ensaio na comunidade Nações Indígenas, zona Oeste de Manaus (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Heronaldo Santos, músico e idealizador da orquestra indígena, recorda os tempos em que começou a realizar as ações de educação musical na comunidade Terra Preta, na zona rural de Manaus. De acordo com Santos, os jovens estavam desvirtuando-se da própria cultura e, a despeito de morarem em um local relativamente afastado da cidade, os únicos que falavam a língua nativa eram os mais velhos. 

O artista salienta que não havia nenhum instrumento musical de origem indígena no local, o que lhe causou estranheza e, ao mesmo tempo, despertou ainda mais o interesse e a motivação para seguir com o trabalho, ainda que de forma voluntária. “Naquela época, há quase 20 anos, já podíamos perceber os efeitos da aculturação, com o interesse dos jovens daquele lugar, em sua maioria, por instrumentos musicais, sonoridades e estilos urbanos e modernos”, destaca. 

Atualmente, o projeto de Arte e Educação Indígena Myrá Yiá funciona na comunidade Nações Indígenas, no bairro Tarumã, localizado na zona Oeste de Manaus, e está, gradativamente, retornando às atividades com aulas de música, dança, teatro, artes visuais e confecção de instrumentos, segundo o professor Heronaldo, sempre com ênfase na própria cultura e tradições indígenas amazonenses, em um constante processo sócio-pedagógico-cultural. “Nosso projeto tem como propósito contribuir com a valorização, a difusão, a revitalização e o reconhecimento da cultura indígena amazonense, como instrumento de afirmação identitária, de luta por espaço na sociedade e pelos direitos garantidos por lei aos povos indígenas”, reforça o educador. 

Todos os integrantes são pertencentes a etnias como Baré, Tukano, Sateré-Mawé, Miranha, Mura, Macuxi, Wapixana e Mira Yiá. 

A afirmação identitária hoje presente na comunidade e entre os artistas simboliza, para o idealizador do projeto, um dos desdobramentos mais significativos dentre os componentes transformadores da vida dos indígenas integrantes da futura orquestra. “Hoje nós temos aqui aulas de instrumentos musicais, em que ofertamos para toda a comunidade, crianças e adolescentes, gratuitamente e com instrutores que foram formados por nós desde crianças. Então, esse é um dos resultados dos quais mais nos orgulhamos nessa caminhada”, destaca. 

O professor ressalta que é muito comum os jovens não terem interesse em se autoafirmar como indígenas. “Mas aos poucos nós vamos trocando o interesse pela bateria, guitarra por instrumentos mais rústicos, mais originais e isso tudo é um processo de educação musical mesmo. Temos tido essas alegrias, de jovens e crianças terem orgulho de cantar na língua nativa”, relata. 

O músico destaca, ainda, a parceria recente com os artistas Celdo Braga e João Paulo, do grupo musical Caponga, que já criaram mais de 90 instrumentos musicais e estão oferecendo oficinas para os jovens da comunidade Nações Indígenas. “Esses instrumentos foram todos confeccionados pelos alunos nos cursos, na oficina do Celdo Braga, que ocorreu no começo do mês de maio. As aulas são semanais e estamos retomando agora, após um ano parados devido à pandemia”, explicou. 

De quase 300 alunos catalogados que já passaram pelas aulas de música, hoje são apenas 20, para respeitar as medidas de contenção do coronavírus. 

Fruto de pesquisas e experimentação

Projeto musical indígena Myra Yiá – Árvore cheia de frutos (Alessandra Leite/Revista Cenarium)

Chegar à sonoridade desejada, explica o professor, é fruto de um trabalho de muita pesquisa e experimentação. É o caso do pau-de-chuva, do tambor de cuia e do som do sapo. 

“O pau-de-chuva, por exemplo, é feito com material orgânico, bem como todos os instrumentos, no qual utilizamos a madeira molongó. A madeira amazônica é muito boa para ressonância. E aí misturamos com papelão, material reciclável, miçangas, até chegarmos a esse som legal”, diz, enquanto mostra o barulho de chuva à equipe de reportagem da Revista CENARIUM. 

Já o tambor de cuia é confeccionado com a madeira marupá, também indicada para artesanatos e produção de sons. “Tudo isso é resultado de pesquisa. Vai para o laboratório dos nossos amigos Celdo Braga e João Paulo, até conseguirmos essa sonoridade”, explica Santos, que além de idealizador do projeto, é licenciado em Música pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

Quanto ao som do sapo, o professor faz mistério: “Só sabe quem faz. A gente não conta para ninguém como faz esse sonzinho. Tem a nossa tradicional cuia, um elemento muito importante para a cultura indígena, cabocla, ribeirinha, amazônica”, ressalta. 

 Na capital e na zona rural 

Parte do grupo, com o tempo, foi migrando para Manaus, onde alguns integrantes casaram, mas não deixaram de colaborar com o coral. “Sempre mantivemos contato, gravamos um CD, recebemos vários artistas do meio gospel, do meio secular, de renome nacional, que visitaram a comunidade, fizemos parcerias, tudo de forma voluntária. É o nosso primeiro apoio para fazer um projeto. Até aqui foi tudo voluntário, sem remuneração alguma”, diz o idealizador.