6 de março de 2021

Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – O sepultamento dos mais de 240 mil mortos por Covid-19 no Brasil não seguiu os ritos tradicionais de despedida, por conta do risco de contágio e de aglomerações em velórios. Por conta disso, a REVISTA CENARIUM entrevistou nesta terça-feira, 16, uma especialista que afirma não ser possível ocorrer transmissão do vírus em corpos dos mortos por complicações da Covid-19.

De acordo com especialista, restrição ao velório de vítima do novo coronavírus se dá mais para evitar aglomeração do que propriamente pelo contato com o corpo (Reprodução/Folha-UOL)

Em entrevista, a infectologista Ana Galdina Mendes relembrou que a forma de transmissão da Covid-19 é por via aerossol, ou seja, pequenas partículas respiratórias que ficam suspensas no ar. Logo, o corpo de uma vítima do coronavírus não tem como transmitir a doença.

“Quando algum sintomático respiratório tosse, espirra ou fala, e ele tem um vírus ainda na sua via aérea, ali, naquele momento, se alguém entrar em contato com essas partículas e as inalar, vai levar o vírus para sua própria via respiratória. Inicialmente, não se sabia a correta forma de transmissão, então é claro que a gente estipulou que podia ser por aerossol e podia ser por contato também. Hoje, a gente sabe que pele com pele não transmite”, destacou a especialista.

A médica reforçou ainda que é preciso estabelecer em que momento da doença a pessoa morreu já que, dependendo do período, pode não ter mais o vírus no organismo e não estar mais transmitindo. “A gente sabe que a replicação, aquele período que o vírus fica no nosso organismo, é na primeira semana. Até o sétimo ou oitavo dia é a média”, informou a profissional.

“Depois disso já não tem vírus, o seu organismo eliminou. Então, uma pessoa que venha a falecer devido às complicações do coronavírus em torno do 14º ou 20 º dia, dificilmente vai ter o vírus ainda no seu organismo. Então, se a gente fosse pensar na questão do velório, aquele corpo não seria um fator de transmissão”, reforçou Ana Galdina.

Recomendações para velórios

O Ministério da Saúde, juntamente com outras entidades representativas da área, criou a publicação ‘Manejo de Corpos no Contexto da Doença Causada pelo Coronavírus’ para orientar profissionais que atuam nas atividades post-mortem, no contexto da Covid-19. As orientações se referem desde a emissão da declaração de óbito até procedimentos post-mortem de pessoas com suspeita ou confirmação de Covid-19 em ambientes hospitalar e familiar e espaços públicos.

Enterro no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, durante pandemia de coronavírus (Reprodução/Amanda Perobelli-Reuters)

Uma das orientações que constam na publicação se refere aos velórios, no trecho “limitar o tempo e o número de pessoas em velórios e enterros, de modo a evitar aglomeração, obedecendo a manutenção de urnas lacradas”.

Neste ponto, a infectologista Ana Galdina Mendes reforçou as orientações do Ministério da Saúde para evitar aglomerações, mas lembrou que é possível se despedir de uma pessoa querida desde que seja obedecendo aos protocolos sanitários.

“A questão é a aglomeração de pessoas. Então, muitas vezes a limitação de pessoas em um velório não se dá pela possibilidade de contaminação do corpo, mas pela restrição à aglomeração. Se a gente pensar tecnicamente não haveria hoje nenhuma limitação para o caixão, mas com todos os cuidados e mantendo o distanciamento naquele momento de despedida”, finalizou a médica.