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17 de abril de 2021

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Com informações da Folhapress

SÃO PAULO – Na floresta, durante o dia, o barulho de aves, macacos, insetos e outros animais é ensurdecedor. No calar da noite, o silêncio reina com alguns poucos sons de insetos e sapos. E, às vezes, algumas aves noturnas, como as corujas, ululam na escuridão.
Foi graças ao canto das corujas que pesquisadores brasileiros puderam descobrir quatro espécies na Amazônia e na mata atlântica, duas delas inéditas para a ciência.


Entre as novas corujinhas que agora se juntam à diversidade de aves brasileiras está a corujinha-do-xingu megascops stangiae, batizada em homenagem à irmã Dorothy Stang, religiosa norte-americana e ativista na região do Xingu em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais que foi assassinada em 2005, no Pará.

(Gustavo Malacco/Divulgação)


As descobertas das corujas tiveram início durante a pesquisa de doutorado do biólogo Sidnei Dantas, desenvolvida no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA). Ao ouvir o canto de uma corujinha-relógio (megascops usta) na Serra dos Carajás, ao norte do Parque Nacional do Xingu, o pesquisador, já afiado com o canto desses bichos, estranhou o som, diferente do esperado para aquela espécie. Conversou, então, com o seu orientador, Alexandre Aleixo, ex-curador da coleção de aves do museu e atualmente pesquisador da Universidade de Helsinki. Juntos, começaram uma investigação sobre a ocorrência e a distribuição dessa e de outras espécies do complexo das chamadas corujinhas florestais.

O gênero megascops é o mais diverso de corujas das Américas, com 21 espécies conhecidas, distribuídas desde a América do Norte até a América do Sul. O complexo da Amazônia era dividido como corujinha-orelhuda (megascops watsonii) ao norte da floresta e corujinha-relógio ao sul. Na região da mata atlântica, a espécie conhecida era a corujinha-sapo (megascops atricapilla).


Por serem aves noturnas, as colorações de plumagem das corujinhas não variam muito, o que torna difícil a distinção entre as espécies. “Para desvendar como essas espécies se distribuíam no Brasil, fizemos coletas de campo e análise de exemplares em coleções científicas e do canto para entender melhor as relações de parentesco do grupo”, diz Dantas.
Juntando dados de mais de 252 espécimes em coleções, 83 cantos e mais o DNA de 49 espécimes, os pesquisadores chegaram a uma árvore genealógica do grupo, com o aparecimento de duas espécies inéditas até então: a tal corujinha-do-xingu e a corujinha-de-alagoas. Esta última recebeu uma nova classificação por ser diferente da que vive na mata atlântica do Estado da Bahia para baixo.


Além das duas espécies novas, a delimitação da área de ocorrência da corujinha-relógio e da corujinha-de-belém (megascops ater), antes considerada uma subespécie da corujinha-orelhuda, também foi uma contribuição importante do estudo. “Essas espécies amazônicas eram consideradas uma só, com distribuição desde a Guiana até oeste do rio Negro, mas nosso trabalho mostrou que onde antes se acreditava ter uma espécie e talvez duas subespécies na verdade ocorrem quatro espécies distintas”, diz o biólogo.


Já na mata atlântica, do Estado da Bahia até o Paraná, a corujinha-sapo é relativamente comum, mas uma população isolada na usina de Serra Grande, no município de Ibateguara, revelou a espécie de Alagoas.
Agora, afirma o biólogo, a descoberta – que contou também com pesquisadores da universidade de Drexel, na Filadélfia, da Universidade Federal do Pará e com pesquisa feita no Field Museum, em Chicago – deve direcionar os esforços de preservação: tanto a corujinha-de-alagoas quanto a corujinha-do-xingu já são consideradas criticamente ameaçadas.


“Essas populações todas são muito fragmentadas, não se conectam mais devido à destruição da mata. A não ser que haja um projeto de recuperação da floresta, esses bichos estão condenados à extinção, infelizmente.”
As duas novas espécies amazônicas são endêmicas do Brasil e ocorrem em áreas da floresta sob forte impacto devido ao desmatamento. “A corujinha-de-xingu é encontrada justamente no chamado arco do desmatamento. Por isso, escolhemos também fazer a homenagem à irmã Dorothy, que foi uma figura importante na região, para chamar atenção mundial para essa parte da Amazônia que está sendo devastada em um ritmo alarmante”, diz.


A pesquisa de Dantas é uma entre tantas outras a desvendar o que ainda está escondido em meio a maior floresta tropical do planeta. Além disso, acende um alerta para a existência também de espécies ainda não descobertas e já ameaçadas de extinção nas áreas de mata atlântica, o bioma brasileiro que mais foi degradado no passado, com cerca de 8% de sua cobertura original ainda preservada. E é possível que novos estudos revelem uma diversidade ainda maior.