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19 de junho de 2021
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Com informações do Estadão

SÃO PAULO – Lorena viu a filha Maria, de 1 ano e 5 meses, morrer em seus braços. Com diagnóstico tardio, Lucas, de um ano, filho de Jéssika, enfrentou diversas complicações relacionadas à Covid-19 e morreu. José Rivera viu o filho Bernardo, de três anos, sucumbir à Covid-19 uma semana depois de testar positivo.

Eles não são exceções. Até meados de maio, 948 crianças de zero a nove anos morreram de Covid no Brasil, segundo dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) compilados pelo Estadão. Sem políticas de proteção à infância, sem controle da pandemia e com escolas fechadas, o Brasil fica em segundo lugar no triste ranking de crianças vítimas da Covid-19, atrás apenas do Peru.

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José Rivera viu o filho Bernardo, de três anos, sucumbir à Covid-19 uma semana depois de testar positivo (EPITACIO PESSOA/ESTADAO)

A cada um milhão de crianças de zero a nove anos existentes no País, 32 perderam a vida para a Covid-19. No Peru, País com o maior número de mortes dentre os 11 analisados, foram 41 por milhão. As vizinhas Argentina e Colômbia tiveram 12 e 13 mortes por milhão, respectivamente.

Para a análise, foram considerados os países que registraram pelo menos mil mortes por milhão de habitantes e que possuem mais de 20 milhões de habitantes. Polônia e Ucrânia, que entrariam na lista, foram excluídas pela ausência de dados. O cálculo foi feito pelo Estadão com apoio de Leonardo Bastos, estatístico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Europa

Nos países europeus, o cenário foi completamente diferente. O Reino Unido e a França registraram apenas quatro mortes de crianças de zero a nove anos, o que dá uma taxa de 0,5 morte por milhão em cada um dos países. No continente, o maior número foi registrado na Espanha. Lá, a cada um milhão de crianças, três morreram por Covid-19 — um décimo do índice brasileiro.

Fátima Marinho, epidemiologista Sênior da Vital Strategies, uma organização global de saúde pública, explica que o sistema de saúde do Peru é muito mais precário que o do Brasil. Por isso, já era esperado que o país andino registrasse índices piores. “O serviço público de saúde do Peru é muito mais incipiente. Não trata nenhuma doença cara, por exemplo”, diz.

Ainda na América Latina, o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro tinha capacidade para lidar melhor com a pandemia em comparação aos sistemas mexicano e colombiano, segundo Fátima. No entanto, nossos índices de mortalidade e descontrole são bem piores.

“O México tem um plano popular de saúde, mas é muito restrito. Quem não paga pelo menos esse plano, morre na calçada. Esses tipos de sistema de saúde são um desafio. Com exceção da Argentina, Chile e Uruguai, estávamos mais bem preparados que os outros países latinos para enfrentar a pandemia”, fala a epidemiologista.

A maior parte das mortes aconteceu em maio do ano passado, quando 131 crianças de zero a nove anos perderam a vida para a covid-19 no Brasil. Em seguida, vem abril deste ano, com 99 óbitos. Os números de maio de 2021 ainda não estão consolidados. Os bebês de até dois anos foram as principais vítimas, correspondendo a 32,7% das mortes analisadas.