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28 de janeiro de 2022
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Náferson Cruz – Da Revista Cenarium

Borba (AM) – Canumã é uma simples vila de pescadores, pacata e bem pequena, daquelas em que todos se cumprimentam e que você cruza com as mesmas pessoas em todos os lugares.

Um excelente refúgio do ritmo frenético e das construções de concreto, e uma oportunidade incrível para conhecer um pouco da cultura e crença religiosa, diante de uma paisagem de tirar o fôlego, possibilitado pelo fulgente pôr do sol e o inefável encontro das águas douradas do Madeira com as negras do Canumã.

Os sinos tocam e a procissão sai da igreja com fiéis cantando louvores (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

No dia 15 de agosto, a REVISTA CENARIUM foi até esse pedacinho de paraíso, que faz parte do município de Borba, a 322 quilômetros de Manaus. O acesso à vila é feito de voadeira saindo do Porto de Fontenelle, costa de Nova Olinda do Norte. A viagem dura em média 40 minutos num motor 40 hp.

O barranco íngreme margeado pelas belas praias de areias brancas que nascem com a chegada da estiagem é a porta de entrada. A comunidade bastante receptiva, contava as horas para iniciar a pequena e singela demonstração de fé, a Santa Maria de Assunção, padroeira da vila.

Ao entardecer, os sinos badalaram anunciando cânticos e orações ressoantes em tom lírico. Enquanto isso, fogos de artifícios eclodiam no arrebol. Em meio ao fervor devocional, os fiéis seguiram com a imagem da padroeira sobre o andor ricamente ornado em flores, que significam mais do que uma vaidade de promessa, elas envolvem uma linguagem de crença e devoção.

A marcha solene segue com forte emoção (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

Os fiéis percorreram a modesta rua na orla da vila e, logo, retornaram ao ponto de partida para celebração tricentenária.

Gratidão pela vida

Fé e gratidão são os sentimentos que, há 25 anos, levam o funcionário público Mário Dias, 59 anos, à festa. “Graças a Deus e a Santa Maria, eu consegui me livrar do alcoolismo e resgatar minha família”.
Seguindo uma tradição familiar, a assistente social Luciene Sena, 52 anos, não abre mão de participar da celebração. Com o filho Gabriel, 14 anos, Luciene aponta a santa como um exemplo de amor a ser seguido e admirado por todos. “Eles foram pessoas que dedicaram a vida para cuidar de pessoas doentes, se doando aos necessitados”.

A juventude participa da romaria (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

Durante a romaria, Maria Bledis Bragança, de 88 anos, orava em com a mão no peito em devoção a Santa Maria de Assunção. Ao final, ela destacou a importância de se manter a tradição religiosa. “Que tudo isso não seja apenas devoção momentânea. É preciso que toda essa fé e crença tenha significado em nossas vidas e que assumamos o compromisso cristão de partilhar a vida em comunidade”, declarou Maria Bledis, natural de Canumã.

A emoção de dona Maria Bragança de 88 anos (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

Para entender um pouco melhor a crença devocional que norteia o povoado de Canumã, fomos conversar com um dos principais intervenientes da Festa de Santa Maria de Assunção, Alércio Araújo, 51 anos. Foi ele que nos explicou a temática da proposta para este ano vai além da reflexão e busca estimular uma corrente de oração na comunidade.

Criança revigora a tradição da procissão (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

“Aprendemos desde sempre que Deus cuida de nós por meio de seus apóstolos e santos. Quando somos crianças, já somos inseridos nessa espiritualidade. Mas queremos recordar que Deus coloca junto de nós pessoas reais que são verdadeiros anjos que nos estendem a mão sempre que precisamos e assim é a nossa comunidade – solidária”, comentou o devoto.

Vila de pescadores

Localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), a 215 quilômetros de Manaus, pequena Canumã ainda conserva o ar bucólico e a rusticidade em suas ruas com modestas casas e um comércio simplório. O pacato vilarejo onde habitam 140 famílias sobrevive da pesca, o jaraqui em abundância é o mais apreciado.

A missa campal no final da tarde no rio Canumã (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

O catraiero e pescador Francivaldo Ferreira, 49 anos, conta que há fartura de peixe na região e que costuma trabalhar como guia em razão da alta demanda turística. “O clima de violência no rio Abacaxis, afetou parcialmente à procura pela pesca esportiva e artesanal, mas ainda assim, continuo fazendo o atendimento aos turistas e praticando a pescaria”, diz Francivaldo.

Um pedaço colorido pelas ruas da vila de Camunã (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

O pescador destaca que as belezas naturais fazem da região um atrativo para os admiradores da natureza. “O pôr do sol é um espetáculo indescritível e ainda temos belas praias e a simplicidade do povo hospitaleiro”, completa

Menina brinca na igreja de Santa Maria (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

Para a estudante universitária Ezila Laborda, 22 anos, Canumã é sinônimo de tranquilidade e harmonia com a natureza. Ela reside em Manaus, mas na oportunidade que tem, não resiste aos encantos da pequena vila. “Sempre que posso estou aqui para abraçar a minha família e usufruir das belezas naturais”, contou Ezila.

Fachada da igreja decorada com bandeirolas e com ruas sem carros (Revista Cenarium/Ricardo Oliveira

Se quiser conhecer este simpático povoado terá que se precaver. Lá não existem bancos ou caixas eletrônicos. O pequeno comércio não trabalha com cartão de crédito, portanto, é preciso levar dinheiro.

Significado de Canumã

A palavra Canumã é de origem indígena, da língua caribe, e define: rio afluente da margem direita do rio Madeira, com 900 quilômetros de extensão