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25 de setembro de 2021
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Bruno Pacheco – Da Cenarium

MANAUS – Um estudo publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases, na semana passada, mostrou que crianças que contraíram malária têm mais risco de desenvolverem anemia aos dois anos de idade. A pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), da Universidade de São Paulo (USP), e pela Faculdade de Saúde Pública (FSP), da USP de Cruzeiro do Sul, no Acre.

Na gestação, a malária foi associada a baixos níveis de hemoglobina materna, diminuição de peso e comprimento ao nascer. A pesquisa foi denominada de Low-level Plasmodium vivax exposure, maternal antibodies, and anemia in early childhood: population-based birth cohort study in Amazonian Brazil, que significa, em português: “Exposição de baixo nível ao Plasmodium vivax, anticorpos maternos e anemia na primeira infância: estudo de corte de nascimentos de base populacional na Amazônia brasileira”.

O estudo foi realizado na Amazônia brasileira pela bióloga Anaclara Pincelli, com a orientação do professor, Marcelo Urbano Ferreira. Ao todo, foram coletados dados de 1.539 crianças, que estavam sendo acompanhas desde 2015, por meio do projeto MINA Brasil (Saúde e Nutrição Materno-Infantil no Acre), com a coordenação da professora Marly Augusto Cardoso, do Departamento de Nutrição da USP.

Doença e transmissão

A malária é uma doença aguda ou crônica causada pelos parasitos do gênero Plasmodium vivax e Plasmodium Falciparum nos glóbulos vermelhos do sangue, podendo ser transmitida de uma pessoa infectada para uma não infectada pela picada do mosquito fêmea Anopheles. Os sintomas variam de calafrios, febre, dor de cabeça, cansaço, mal-estar e suor excessivo. A anemia, por outro lado, é a falta de glóbulos vermelhos ou abaixo do normal, fazendo com que a pessoa apresente debilidade, fraqueza e falta de ar.

“A transmissão da malária é feita pelo vetor Anopheles, que ao picar a pessoa transmite a doença. Esse parasita vai para a célula sanguínea e lá ele se multiplica e destrói. Por isso que ela causa a anemia, que é grave tanto no adulto quanto na criança, sendo mais grave na criança”, explica o médico infectologista, Nelson Barbosa, à CENARIUM.

Segundo a pesquisa, os efeitos adversos da malária se estendem até a primeira infância e crianças nascidas de mães que tiveram uma ou mais infecções, durante a gravidez, correm um risco elevado de ter malária por Plasmodium vivax (P . vivax) no início da vida, embora a transferência de anticorpos maternos para o feto possa fornecer alguma proteção de curto prazo. 

“As crianças que são repetidamente infectadas com P . vivax desde o nascimento têm maior probabilidade de se tornarem anêmicos aos 2 anos de idade. Essas descobertas desafiam ainda mais a visão tradicional da malária vivax como uma infecção relativamente benigna na gravidez e na primeira infância na Amazônia”, diz trecho do estudo.

Gravidade

Nessa quarta-feira, 21, o médico infectologista Nelson Barbosa enfatizou à CENARIUM que a malária por Plasmodium Falciparum é mais grave que a malária por Plasmodium vivax. Apesar disso, segundo ele, ambas podem levar o indivíduo à morte caso a doença não seja tratada.

“A malária vivax, geralmente, não evolui para uma forma grave. A não ser que a pessoa tenha a rotura do baço, aí o risco de morte é muito alto. Mas a malária por Plasmodium Falciparum pode causar outras doenças, como a malária cerebral, renal, pulmonar que evoluem para o óbito num paciente”, destacou Barbosa, que atua Hospital e Pronto-Socorro (HPS) 28 de Agosto e da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), em Manaus.

Segundo ele, quando os casos de anemia são graves, existe a necessidade de fazer transfusão sanguínea no paciente. “Não é comum, porque, se a malária for tratada precocemente, você não chega a essa etapa tão grave, mas muitas vezes o paciente está no interior, não tem o diagnóstico definitivo e chega em Manaus com 18, 20 dias (de infecção), e você ele já está com anemia. Muitas vezes, a gente precisa repor sangue para essa pessoa, se não o risco de morte é alto”, reforçou.