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21 de novembro de 2021
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Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – O primeiro dia de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo, 21, em Manaus, levou os alunos para as escolas com muitas expectativas diante do atual cenário que se encontra a realização do Exame: segunda prova em meio à pandemia, dificuldades do ensino remoto e, ainda, crise no Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (Inep). Na capital amazonense, os estudantes ainda precisam driblar outras dificuldades como a distância entre suas residências e os locais de aplicação do Exame.

Essa é a realidade da nutricionista e descendente de indígenas Gisele Marques, de 38 anos. Desempregada há 10 anos e residente do distrito de Cacau-Pirêra, em Iranduba, município localizado na região metropolitana de Manaus, ela precisou enfrentar mais de 30 quilômetros para ir de casa até o Instituto de Educação do Amazonas (IEA), no Centro da capital, para realizar a prova. Gisele contou à CENARIUM que o objetivo é conquistar uma vaga no curso de Pedagogia, retomar os estudos e ter mais oportunidades de emprego.

“Eu estou desempregada, por isso eu quero fazer de novo uma faculdade para tentar outras oportunidades, porque na minha área ainda não consegui nenhum emprego e já estou desempregada há uns 10 anos”, explicou ela. “Eu tenho uma grande expectativa de conseguir essa bolsa pelo Enem, porque eu não tenho condições de pagar a faculdade. Sobre o Inep, eu também fiquei em dúvida, receosa, mas creio que vai dar tudo certo”, finalizou a nutricionista.

Leia também: Enem perde 41% dos candidatos em meio a crise econômica e falhas no ensino remoto

Nutricionista Gisele Marques realiza prova do Enem, pela primeira vez. (Foto: Marcela Leiros/Revista Cenarium).

A crise no Inep teve início após pedidos de exonerações de 37 servidores que ocupavam cargos de chefia no órgão. O caso deu início a uma série de denúncias de interferência e assédio no instituto, que apontaram para um possível vazamento do conteúdo da prova. Diante da crise, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou na segunda-feira, 15, durante viagem ao Catar, que as questões do Enem começavam a ter a “cara do governo”.

A preocupação com o conteúdo da prova preocupa um grupo de amigos que aguardava, na frente do IEA, para fazer a prova. Todos concordam que o vazamento da prova do Enem poderá acentuar as desvantagens educacionais já existentes entre alunos de escolas particulares e públicas, por exemplo, intensificando os prejuízos que já existiam devido à pandemia da Covid-19.

“A gente poderia ter aproveitado melhor os estudos, se não fosse a pandemia, que nos colocou em ensino remoto. A gente já sabe que existe essa diferença entre as classes, que pessoas de alta renda têm mais facilidade com isso, e a gente que não possui tantos recursos assim é mais difícil, tem que ralar mais, tem que estudar mais. Então acontecer essas situações prejudica muito a gente que se esforça muito para chegar até aqui”, pontuou a estudante Jéssica Rocha, que busca vaga no curso de Medicina.

“Esse ano ainda estão dizendo que a prova está com a ‘cara do governo’. É meio preocupante, com base no governo atual….”, destacou o estudante Élclis Araújo, que deseja cursar Administração, se referindo aos recentes acontecimentos na gestão federal do Enem.

Da esquerda para a direita: Rhiane Silva Rocha, Rhanielle Silva Rocha, Jéssica Rocha, Raiane Brasil, Manoel dos Santos e Élclis Araújo. (Foto: Lucas Azevedo/Revista Cenarium)

Crise no Inep

A lisura da prova foi colocada sob suspeita após a debandada dos servidores do Inep, órgão que produz e coordena o Enem, no início de novembro. Em entrevista ao Fantástico, alguns dos servidores, que preferiram não se identificar, afirmaram que o órgão sofre reiteradas interferências políticas, e que não são raros os casos de censura ao conteúdo das provas.

“O Inep sempre foi dirigido por pessoas que tinham alguma trajetória acadêmica. Esse presidente que está agora (Danilo Dupas) é uma pessoa sem currículo, sem experiência. Está lá porque o ministro da Educação decidiu que seria a pessoa que estaria disposta a fazer o que eles queriam: entrar na prova e retirar aquilo que eles acham que o presidente não iria gostar”, disse um dos servidores exonerados, referindo-se ao presidente Jair Bolsonaro, que já havia criticado algumas questões de provas anteriores.

Em uma assembleia no começo do mês, alguns dos servidores do Inep também destacaram que há indícios de que processos sejam deletados do Sistema Eletrônico de Informações (SEI), onde são registrados todos os andamentos administrativos feitos pelos órgãos públicos.

Ainda na sexta-feira, 19, a Associação dos Servidores do Inep (Assinep) acusou o governo Bolsonaro de “censurar” a publicação de um artigo científico que mostrava a evolução nos indicadores de alfabetismo no País em função do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), um programa do primeiro mandato do governo Dilma Rousseff que custou mais de R$ 2,7 bilhões aos cofres públicos.

Com base em cruzamento de dados e estatísticas, o estudo concluiu que o programa foi responsável por um “aumento na proficiência em matemática e linguagem” na educação básica “comparado a outras intervenções estaduais”, e que o “retorno econômico” teve “efeito positivo do investimento”. Por algum motivo não explicitado, no entanto, o artigo, que é assinado pelos pesquisadores Alexandre André dos Santos e Renan Gomes de Pieri e intitulado de “Avaliação Econômica do Piac” nunca foi publicado.